Igreja Presbiteriana desiste de veto a cristão de esquerda para evitar racha interno

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Diante da maior crise em décadas, a cúpula da IPB (Igreja Presbiteriana do Brasil) se articulou para evitar que um relatório contra "cristãos de esquerda" virasse uma posição institucional.

A discussão girava em torno de uma consulta feita ao Supremo Concílio da IPB, a instância decisória máxima da igreja. Em relatório, o pastor Osni Ferreira sugeria que a Igreja Presbiteriana criasse uma comissão para repudiar o "pensamento de esquerda".

Ele pedia ainda que a IPB firmasse posição contra cristãos de esquerda ou progressistas. Segundo o documento, eles deveriam ser orientados sobre "suas inconsistências" pelos pastores das igrejas —e, como consequência, poderiam ser afastados de cargos de liderança.

Com o risco de o documento ser aprovado, o pastor Cid Pereira Caldas apresentou na manhã de sexta-feira (29) um relatório substitutivo sobre o assunto.

No texto, Caldas diz que a "IPB tem mantido equidistância de radicalismos" e defende que "não é finalidade da IPB manifestar-se sobre partidos políticos".

O relatório substitutivo foi aprovado pelo Supremo Concílio, na sexta, por 738 votos contra 538.

Cid Pereira Caldas é presidente do Conselho de Administração do Instituto Presbiteriano Mackenzie e pastor da Igreja Presbiteriana de Botafogo. Ele é próximo do presidente do Supremo Concílio da IPB, Roberto Brasileiro.

Apesar de Caldas ter apresentado o substitutivo horas antes da votação, o texto começou a ser discutido uma semana antes entre lideranças da igreja.

Três membros da cúpula da IPB e interlocutores de Cid afirmaram à reportagem, sob reserva, que o relatório inicial tinha potencial para rachar a igreja como ocorreu na década de 1970, durante a ditadura militar.

Na época, a Igreja Presbiteriana do Brasil apoiava o governo militar. Indignados, pastores decidiram romper com a liderança da instituição e criaram a Igreja Presbiteriana Unida.

Cid, assim como Roberto Brasileiro, é considerado uma liderança moderada dentro da IPB. Segundo os relatos, ele resolveu apresentar o relatório para esfriar a crise e reforçar a independência da igreja em relação à política partidária e as eleições de outubro.

O relatório substitutivo aprovado manteve o entendimento da IPB de 1954 que define a "incompatibilidade entre o comunismo ateu e materialista e a doutrina bíblica".

Após a derrota no Supremo Concílio, Osni Ferreira, que defendeu voto em Bolsonaro no púlpito da igreja, afirmou que a discussão jamais tratou sobre perseguir cristãos de esquerda.

"Toda vez que eu respondia a uma pergunta, eu falava que não estávamos tratando de candidato A ou B. Claro que você tem um candidato, claro que eu tenho. Isso é uma liberdade do pastor. O voto é secreto, é da consciência. O que nós estamos falando é que o cristão ou o presbiteriano não deve votar em nenhum candidato que defende princípios que a Bíblia é contra", disse na sexta ao canal da Sexta Igreja Presbiteriana de Uberlândia.

Mesmo sem adotar posicionamentos públicos a favor do presidente Jair Bolsonaro (PL), a Igreja Presbiteriana do Brasil criou ligações com o governo.

Antes de vencer a eleição, Bolsonaro já visitava o Mackenzie e mantinha contato com representantes da universidade para conhecer as pesquisas sobre o grafeno. No governo, dois pastores da IPB viraram ministros: André Mendonça e Milton Ribeiro.

Diferente de Mendonça, Ribeiro tinha proximidade com a cúpula da Igreja Presbiteriana. Quando assumiu o MEC, levou para a assessoria especial Gustavo Brasileiro, um dos filhos de Roberto Brasileiro.

A prisão de Ribeiro, em junho, foi o principal fato que desencadeou a maior crise na Igreja Presbiteriana do Brasil em décadas, segundo seus integrantes. Ele é investigado pelos crimes de corrupção passiva, tráfico de influência, prevaricação e advocacia administrativa.

Mesmo pressionada a se manifestar, a IPB decidiu adotar silêncio e esperar os desdobramentos da investigação da Polícia Federal antes de definir qual postura adotar no caso.

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