Igor Rickli vive a plenitude com Aline Wirley e o filho, apesar dos ataques racistas que o casal enfrenta há dez anos

Marcelle Carvalho / Fotos: Vinicius Mochizuki / Assistente de fotografia: Rodrigo Rodrigues
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Foto: Vinicius Mochizuki
Foto: Vinicius Mochizuki

Aline Wirley e Igor Rickli e já se posicionavam em frente ao computador para esta entrevista, quando o filho deles, Antônio, de 6 anos, com uma carinha bem matreira, se colocou entre o casal. Foram poucos segundos até Caramelo, apelido carinhoso do menino, sair com as bochechas marcadas pelos beijinhos dos pais. Ali já ficou claro que naquela casa, no Alto da Boa Vista, mora uma família feliz. Justamente o contraponto do núcleo de Alberto, personagem do ator em “Flor do Caribe”, que mediante coerção tenta manter Ester (Grazi Massafera) e os filhos ao seu lado, em sua mansão.

No último dia 17, a cena em que o vilão se delicia ao ver a mulher se humilhando para voltar a morar com ele, após perder a guarda da caçula, fez com que a reprise batesse recorde de audiência às terças-feiras.

— Alberto é muito pobre de espírito, carente, desnutrido de amor. E quantas pessoas crescem assim... Elas podem ter um império e ainda assim não terão nada na vida — opina o ator, de 36 anos, que está com o visual platinado para viver Lúcifer na novela “Gênesis”, da Record.

Por ora, no entanto, o motivo de comemoração é a boa repercussão da novela da Globo, em que ele aparece com o cabelo mais comprido e uns cachinhos discretos. A trama, realmente, não espelha a vida de Igor sob nenhum aspecto. Se na história o empresário é cheio de preconceitos e tem uma família “monocromática” — todos louros de olhos claros —, seu intérprete vive o amor na sua plenitude, há dez anos, com a cantora Aline, com quem oficializou a união há cinco. Completar bodas de madeira ou ferro faz com que o casal lembre de tanta coisa pela qual passou, e ainda passa, para terem chegado até aqui.

— Quando olho para tudo que construí ao lado do Igor nos últimos dez anos, me vêm sentimentos de muita alegria e gratidão pelo nosso encontro. Porque a gente passou por muitas coisas, desde as mais legais, como a chegada do nosso filho, até as mais cabulosas — afirma Aline, de 38 anos.

E, na semana da Consciência Negra, a artista se recorda dos inúmeros comentários racistas ouvidos ao longo da caminhada com o marido:

— A gente viu que incomodava. Tudo porque ele é um homem branco e eu uma mulher preta. Então, as pessoas achavam: “nossa, como esse homem tão lindo está casado com essa mulher?” ou “Ele é tão legal por ter casado com você...” Quando raspei o cabelo, disseram que eu tinha feito “trabalho” para conseguir uma pessoa como ele.

Ela também comenta sobre a resistência das pessoas, logo nos primeiros meses de vida de Antônio, em acreditar que o menino era seu filho.

— A criança nasceu branca e loura, a cara do pai. Na época, tinha uma amiga que me ajudava aqui. Ela é branca, loura. Uma vez, quando passeávamos com Antônio e ele estava no colo dela enquanto eu pegava algo na bolsinha dele, alguém passou e disse: “Seu filho é tão bonito”. Na mesma hora, ela disse que eu era a mãe, e a pessoa me olhou meio surpresa. Minha mãe tem a pele bem escura e também já passou uns bons bocados quando a viam com o neto.

Igor balança a cabeça e afirma que o que sempre importou foi a conexão entre eles. E que, de certa forma, ignoraram os olhares estranhos quando se estabeleceram como um casal.

— As pessoas diziam: “Vocês dois juntos, meu Deus!”. Ai, meu Deus, o quê? Começamos a perceber como isso foi gerando especulação e incômodo. A gente foi inocente ao fazer vista grossa para sobreviver. E eu não tinha noção também por ser um homem branco privilegiado — analisa Igor: — Na verdade, não conseguia entender esse preconceito. A gente sentia muita limitação das pessoas. Enfrentamos muita ignorância, mas escolhemos passar por cima. Isso não quer dizer que não foi doído, que não está registrado. O Brasil é preconceituoso.

Aline, por exemplo, relata que sofreu discriminação de negros por ser casada com um homem branco:

— É a palmitagem... Passei e ainda passo por isso, apesar de as pessoas não verbalizarem tanto comigo. Na verdade, não discordo e não concordo, fico no meio do caminho. São muitas correntes dentro da comunidade e não é porque somos todos pretos que vamos ter as mesmas ideias, pensar do mesmo jeito, até porque somos pessoas diferentes. Mas observo, escuto, leio com atenção para aprender, para saber onde está o “X” da questão. Sinceramente, eu me atenho ao que tenho: Igor é o amor da minha vida.

Justamente por caminhar tão ao lado do marido é que Aline enaltece as atitudes dele, que se desconstruiu à medida que os absurdos iam batendo à porta do casal.

— Esse tempo todo com Igor vi como ele se movimentou internamente mesmo. É difícil os brancos olharem para nossa história e vê-la como ela é: um casal inter-racial que se ama profundamente. Ninguém quer ser apontado como racista, mas existe gente assim. Quando Igor começou a despertar para os abusos que o povo negro ainda sofre, percebeu que isso passava por seus ancestrais, consequentemente por ele, e caiu em uma espiral de dor e culpa grandes — diz a cantora.

Neste momento, Aline é interrompida pelo marido, em tom de desabafo:

— Meu entendimento disso tudo começou há pouco tempo. Antes das manifestações “Vidas negras importam”, eu cheguei para Aline e disse: “Pelo amor de Deus, não acredita em nada que um branco te falar, nem em mim, nós vamos te dominar, nossa diretriz é a dominação, cuidado com os brancos!”. Fiquei em pânico com a raça branca. É muito feio, quando vai acabar isso? A verdade é que, no futuro, só as mulheres pretas poderão nos salvar, porque elas sabem exatamente o que é lutar contra o patriarcado e contra o homem branco, o que é sofrer essas porradas e ainda assim estarem aí.

A cantora se comove.

— É muito bonito olhar hoje para Igor e vê-lo entendendo a voz potente que tem por ser casado com uma mulher preta, por ter um fruto dessa relação, além de perceber que é preciso que se posicione sim, e agora com uma percepção mais ampla. Sou muito grata por esse homem, que é capaz de me proteger, de embarcar e sentir comigo minhas dores. Igor talvez seja a pessoa mais comprometida em mostrar a mulher preta foda que eu sou — diz, enfática, prestes a lançar no fim do mês seu primeiro álbum solo, “Indômita”, com produção do marido.

Há um silêncio antes que o ator comece a falar. Em uma olhada mais atenta, percebe-se que Igor chora.

— Eu aprendo muito ao lado da Aline. E... (pausa) não sei pra onde vamos, mas espero de todo meu coração que a gente dê um jeito (pausa) para que nenhuma menininha ou menininho, ninguém mais seja vítima de racismo. Não quero, não consigo pensar na Aline criança... Ouvi a história dela, vejo o quanto é forte, vejo como podia ter sido com meu filho. Procuro protegê-lo de todas as formas para que não seja refém de ignorância. O que me deixa feliz é ter a sorte de caminhar ao lado da Aline, porque, além de ser uma alma maravilhosa, ela me apresentou ao mundo por esse prisma. Talvez se ela não fosse minha companheira, eu tivesse passado mais batido por isso e não sentiria como estou sentindo. Me sinto muito honrado de ela ser minha mulher.

A conexão de Igor e Aline está impressa nas paredes da casa da família, cravada no meio do mato, porque os dois sempre quiseram ter o amor abençoado pela natureza. Ao encontrarem o imóvel dos sonhos, há oito anos, fizeram do lar um templo.

— Temos uma relação com essa casa de muito amor. Quando a encontramos, estava abandonada há mais de 15 anos. Então, a gente mesmo que a restruturou, pintou, Igor fez as cortinas... Tudo que a gente é como casal está aqui, o Antônio veio direto pra cá quando nasceu. É mais do que uma casa, é parte da nossa história — diz Aline.

E Igor corrobora:

— Temos uma relação de simbiose com a casa, é um outro casamento, uma relação muito particular com o espaço. A gente teve a sorte de encontrar um lugar incrível, com muita exuberância natural, mas o mais legal mesmo é porque tratamos nosso lar com amor, respeito. É onde nos cuidamos. É um lugar sagrado para nós, é um quarto integrante da família.

O casal, inclusive, destaca alguns cantinhos preferidos do lar doce lar.

— Ele gosta de sentar ao piano, se conectar com a natureza e tocar. Temos uma sala onde está um sofá verde, que foi reformado, após Igor encontrá-lo na rua. Tudo aqui em casa é meio que reaproveitado. Muita coisa vem de antiquário. Por a casa ter ficado abandonada, os móveis serem antigos, a revitalização foi parte forte durante esses anos todos — conta Aline.

Porém, há quatro meses, o solo sagrado da casa foi maculado com a invasão do coronavírus e de assaltantes.

— Tive Covid voltando de viagem, bem no início da pandemia. Fui gravar “Gênesis”, no Marrocos, e na volta manifestei sintomas. Fiquei de cama. Foi assustador, porque não sabia como agir. Fiquei isolado aqui — conta Igor, que na sequência viu o templo da família ser assaltado: — A gente nunca tinha pensado nisso, procurava não alimentar medo. Mas quando aconteceu.... Quando você está dentro de casa e vê pessoas entrando com armas apontadas para você... Não desejo para ninguém. Era de manhã, já tinha acordado e vi Aline descendo. Foi traumático e quebrou um encantamento que tínhamos. A gente tinha uma euforia quase jovial. Apesar de ainda sermos otimistas, o episódio nos sacolejou.

Aline agradece pelo filho não estar em casa no momento.

— Ele tinha ido para casa de uma amiga com a avó, ja que as duas também estavam quarentenadas. Antônio já estava manifestando irritação, tristeza pelo isolamento e deixamos ele ir para dar uma oxigenada. No dia seguinte, sofremos o assalto. Foi livramento, porque, se ele tivesse aqui, talvez a gente não quisesse mais a casa. Como viver em paz depois disso? Está todo mundo assustado até hoje, qualquer coisa a gente tem taquicardia. A gente procura rezar, colocamos câmeras de segurança...

Além de o triste episódio ter acontecido durante a pandemia, o coronavírus também fez com que o casal, por hora, desistisse de ter mais filhos.

— Pretendíamos aumentar a família, já estávamos certos de entrar na fila da adoção e engravidar mais para o fim do ano. Mas já não sabemos se é o momento para trazer uma vida agora. Se não fosse pela pandemia, já estaríamos grávidos e com uma criança adotada — acredita o ator.

Por outro lado, o isolamento fez com que a família inventasse muitas coisas para não ficar parada.

— Fizemos pátio, horta, galinheiro. Sou hiperativo. Quando me vi, estava podando árvore. Tive que parar um pouco, porque senão ia me matar (risos). Deu ruim nas minhas costas. Me senti um velho (risos) — brinca Igor, cuja agitação, na visão de Aline, tirou um pouco a tristeza do momento: — Conseguimos quebrar a fase sombria com isso, e sempre incluindo Antônio. Senão, ele só quer celular e TV. Foi um processo. Não vejo a hora de chegar 2021 e torcer para que seja melhor.