Aula de ginástica no Facebook, comida e afeto: tem idoso encarando muito bem o confinamento

Colaboradores Yahoo Vida e Estilo
·6 minuto de leitura
Idosos contam como estão na quarentena em casa (Foto Arquivo Pessoal)
Idosos contam como estão na quarentena em casa (Foto Arquivo Pessoal)

Por Vladimir Maluf (@vladmaluf)

Cleide Moreira dos Santos Novo, 72, é aposentada e tem uma vida agitada. "Não paro em casa. Saio de manhã e à tarde para as minhas atividades". Mas precisou parar com tudo por causa da pandemia do coronavírus. "Eu não ponho a mão na maçaneta desde o dia 15 de março. Não saí para nada", conta. Quando soube que teria de se isolar em casa, recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS), Cleide pensou que não aguentaria. "Estou surpresa comigo mesma, mas estou tirando de letra. Não é nada desesperador."

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Tai chi chuan e yoga com aulas pela internet

Cleide conta que está preenchendo o tempo livre integralmente. "Tenho uma pessoa que faz a limpeza para mim quinzenalmente. Como ela não está vindo, cada dia arrumo uma coisa. Não dá para fazer com a mesma agilidade de antigamente, é tudo mais devagar, e também deixo tarefas para outros dias e ter sempre o que fazer."

Ela também tem cozinhado mais, assistido a muitos filmes e pratica atividade física com aulas online, pois já estava acostumada a se exercitar. "O corpo cobra da gente. Tem aulas de tai chi chuan no Facebook, segunda, quarta e sexta, das 9h às 11h, e vou começar a yoga, de segundas e terças, das 14h às 15h." Uma amiga do prédio, de 83, já está praticando e passou o link para ela.

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Não tem jeito. Resolver [a pandemia] está fora do nosso alcance. Não fica doente do vírus e fica em depressão? Não pode. Tem que levar com calma, afirma Cleide.

No começo, ela estava muito ligada em notícias. Depois, resolveu que só veria o essencial. "Ficou muito repetitivo. E o povo abarrota meu celular com mensagens. Nem leio. Procuro me informar, mas não fico vendo muita barbaridade, não. Não há necessidade."

"Arruma um bicho, fica comendo o dia inteiro e pronto”

Arlete está em casa cuidando dos gatos e se cuidando (Foto: Arquivo Pessoal)
Arlete está em casa cuidando dos gatos e se cuidando (Foto: Arquivo Pessoal)

Arlete Correa, 70, aposentada, também está confinada -- e muito calma. "Não estou vendo muito problema. Não me falta nada. Normalmente, abasteço muito a casa. Tenho um quintal grande. Para mim, está normalíssimo." Coincidentemente, Arlete havia acabado de adotar dois gatos, no início de março. "Eles me dão um baile imenso. Estou adorando. Mudou minha vida. Se estou triste, olho para a cara deles e melhoro."

Ela conta que tem evitado ver o noticiário, pois acha "um horror". "O que me incomoda mais é que o número de mensagens no WhatsApp triplicou. Meus amigos que me perdoem, mas eu nem leio todas, senão eu fico o dia inteiro no celular. As pessoas ficam passando várias notícias desnecessárias, sem falar das fake news."

Arlete costuma receber muitos amigos, mas, agora, só conversa com a turma por telefone. "O pessoal que eu recebia é todo da minha idade. Então, está todo mundo em casa, morrendo de medo. Sinto muito pelas pessoas estarem apavoradas. Não adianta. Arruma um bicho, fica comendo o dia inteiro e pronto."

Tecnologia ajuda, mas os amigos também

O aposentado José Silveira, 78, está feliz por ter aprendido a usar o computador e o smartphone antes do isolamento. "Sempre gostei. Agora, tenho distração. Acho ruim não poder caminhar, como eu fazia antes, mas, pelo menos, vejo coisas na internet, ouço músicas antigas, rock da minha época, vejo filmes na Netflix e troco mensagens com meus filhos."

Joel tem vários aplicativos de entrega de supermercado, farmácia e comida, mas ele tem uma outra estratégia: contar com a ajuda dos amigos do comércio. "Não peço muito restaurante, pois é caro e não é tudo que posso comer. Conheço o dono de um mercadinho, onde faço compras, e ele me manda frutas, verduras e não cobra a entrega. Também sou amigo da gerente da farmácia e ela trouxe meus remédios -- com os descontos que ela sempre me dá."

Sozinho não quer dizer isolado

A psiquiatra e psicogeriatra Tânia C.T. Ferraz Alves explica que é importante diferenciar distanciamento físico de distanciamento afetivo. Se o idoso mora sozinho e precisa ficar isolado, reforce outras formas de contato. "Tente uma conversa virtual que permita que vocês se vejam através de câmeras", exemplifica a médica, que também é diretora das enfermarias do instituto de psiquiatria do Hospital da Clínicas, da faculdade de medicina da USP.

Para evitar a tristeza, ela sugere que os idosos criem uma rotina e procurem formas de se entreter. "Se ficar o dia todo de pijama, vendo TV, depois de uns quatro dias, a pessoa começa a ficar deprimida, ter pensamentos negativos. O medo vai tomando conta."

Segundo Tânia, muitas vezes, os idosos perdem a função social, mesmo quando não precisam ficar isolados. Ter algo para fazer que beneficie a família é uma maneira de evitar a sensação de abandono. "Dê um papel importante para a pessoa mais velha. Ela pode ensinar o neto a fazer algo por telefone, por exemplo, ou em uma ligação por vídeo. Que tal relembrar uma antiga receita de família? Isso fará ela se sentir útil, pensar, pois precisa planejar a receita. Estimula a memória."

Cleide e Arlete, do começo deste texto, fazem bem em evitar procurar notícias em excesso, de acordo com Tânia. "Veja apenas dados em lugares confiáveis e as informações necessárias para estar seguro. Como o idoso está no grupo de risco, se ficar acompanhando tudo, ficará desesperado", fala a psiquiatra.

Quadros de ansiedade e depressão podem aparecer nas próximas semanas. Exercícios de relaxamento conduzidos, que tem uma fala que estimula a respirar mais lentamente -- há muitos na internet --, ajudam a ter equilíbrio. Praticar de duas a três vezes por dia tranquiliza. "Muitos pensamentos sobre morte, sentimento de desesperança, de abandono, preocupam. Nesses casos, será preciso procurar um médico."

A psicóloga especializada em gerontologia Maria Elizabeth Bueno Vasconcellos acredita que a disciplina é essencial para o equilíbrio mental. "Se a pessoa costuma acordar cedo, deve continuar acordando cedo. Se faz ginástica, mantenha uma rotina de exercícios", diz. Não precisa ser radical: pode dormir uma hora a mais por dia, só não é saudável ficar até meio-dia na cama. A psicóloga indica, também, outras atividades, além das habituais, para distrair a mente.

"Todos nós devemos procurar fazer algo que gostamos ou algo novo: ouvir músicas, rever fotos antigas, ler um livro ou reler um bom, dançar em frente ao espelho..." Ela também reforça que os vínculos afetivos precisam ser mantidos, mesmo que não haja encontros presenciais. "Pega o telefone e liga para um vizinho, conversa. Fala por vídeo, no WhatsApp. Você pode não estar pegando na pessoa, mas sentirá o calor dela."