Ideologia de gênero existe? Contribui ou interfere na infância? Entenda

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Por: Roseane Aguirra

A expressão “ideologia de gênero” foi muita citada durante o período eleitoral e também no discurso de posse do presidente eleito Jair Bolsonaro, no dia 1º de janeiro de 2019, quando disse que iria combatê-la em seu governo.

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Notícias falsas que circularam no período deixaram muita gente confusa quanto à definição do termo e o perigo que poderia oferecer às crianças.

Mas o que é ideologia de gênero?
Para Rosana Schwartz, historiadora e professora da PUC-SP, o termo não existe. “Gênero é uma categoria de análise da história. Não existe ideologia de gênero. O que existe é um método que foi criado nos anos 1980 para que você estude a história pela perspectiva da mulher e das categorias menorizadas,” explica Rosana, ao se referir aos grupos que foram pouco considerados na história tradicional, como trabalhadores do campo, homossexuais, mulheres e negros.

“Antes, alguns sujeitos entraram para a história, considerados heróis, mitos. O que era importante mesmo, não aparecia. Por exemplo, a ação das mulheres na guerras, lutas por direitos e igualdades, correções salariais tanto por homens como por mulheres”, explica.

Gênero, como uma categoria de análise, pode ser pelo feminino, pelo masculino e pelas múltiplas sexualidades. A gente estuda qualquer fato por esse viés.

Igualdade acima de tudo
Segundo a historiadora, o estudo do gênero busca por igualdade e tolerância. “Estudar gênero é respeitar o outro como ele é, é ter tolerância pela diversidade, pelas diferenças. Porque os preconceitos e estereótipos são construídos historicamente. Então a gente consegue debater, desconstruir.”

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A partir dessa perspectiva, segunda ela, é possível discutir a violência, o sexismo, a desqualificação dos indivíduos, as questões étnicos-raciais e de sexualidade.

“Não tem ligação direta com questões políticas e ideológicas. É um desconhecimento teórico muito grande dessa fala. Ele proporciona voz para as pessoas menorizadas, elas acabam aparecendo nos estudos acadêmicos, nas mídias, então é lógico que alguns setores da sociedade acabam não gostando,” afirma.

E nas escolas?
Segundo Claudia Vianna, professora da Faculdade de Educação da USP e líder do grupo de Estudos de Gênero, Educação e Cultura Sexual (Edges), tratar a questão de gênero nas escolas parte do mesmo princípio: acolher e respeitar as diferenças, independente do pertencimento racial, étnico ou religioso.

A intenção não é ensinar como ser menino ou ser menina ou acabar com a família como uma instituição, mas abrigar todas as formas de ser menino ou menina ou diferentes modelos de organização familiar

Para a professora, é importante que o currículo escolar trabalhe a diversidade para além de datas comemorativas, como a questão da mulher no mês de março, a questão indígena no mês de abril e a racial em novembro.

“Em coerência com essa lógica de organização, as ciências, os mapas, as narrativas históricas e os textos literários reforçam no restante dos dias letivos, os valores ligados à identidade do homem, branco, heterossexual, cristão, classe-média, tomando-os como referência central e mantendo à margem as identidades da mulher, negra, homossexual, não-cristã, pobre”, explica.

“No ambiente escolar, também não podemos esquecer que o planejamento curricular ensina tanto em razão do que está representado nele, quanto em razão daquilo que está silenciado.”

Para ela, incluir o debate sobre gênero e diversidade sexual nas escolas poderia, então, contribuir para reduzir a violência escolar contra mulheres, e “ampliar o olhar dessas pessoas sobre a exclusão de gays, lésbicas, bissexuais, transexuais, englobando as dimensões de classe, raça, etnia e geração na perspectiva de um projeto democrático de educação de crianças e jovens, homens e mulheres capazes de acolher e construir uma sociedade mais justa”, conclui ela deixando claro a importância da tolerância.