HQ mostra negro que se passa por branco para se infiltrar na Ku Klux Klan

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WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - O gibi "Incognegro" não narra uma história de super-heróis de roupas apertadas e capas esvoaçantes. Seu protagonista, porém, tem uma espécie de poder excepcional. Negro, o repórter Zane Pinchback nasceu com a pele tão clara que consegue se fingir de branco quando necessário.

É uma habilidade e tanto. Zane vive nos Estados Unidos dos anos 1930, marcados pela segregação e pela violência racial. Aproveitando-se da cútis, que engana, ele se infiltra em encontros da Klu Klux Klan e em linchamentos de negros para escrever reportagens de denúncia.

Essa graphic novel de 2008 chega em um bom momento ao Brasil pela editora Veneta. "Incognegro" toca fundo em um debate que segue sem resolução, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil: a persistente e brutal discriminação contra as populações negras.

A mensagem estapeia o leitor já na primeiras páginas, com o enforcamento de um homem negro por racistas. Eles mutilam o corpo e o vestem de palhaço. Depois, tiram fotos ao lado dele para guardar de lembrança, um cartão postal macabro. Essa é uma referência histórica, e não uma invenção da graphic novel.

O roteirista, Mat Johnson, conta uma história que ele conhece bem. Como seu protagonista, nasceu negro com uma pele que a sociedade percebe como branca. Ele conta, no prefácio, que cresceu se imaginando como um espião na guerra contra a supremacia branca. Chamava-se de "Incognegro", mistura de "incógnito" e "negro" --o jogo de palavra soa mais natural em inglês.

Quando chegou à faculdade, Johnson ouviu falar em Walter White, líder da Associação Nacional pelo Avanço das Pessoas de Cor, que no início do século 20 de fato se infiltrou em comunidades racistas nos Estados Unidos para investigar linchamentos.

Foi assim que o roteirista teve a ideia de "Incognegro", que um personagem do gibi define como um "supernegro sarará capaz de se passar por um nórdico num piscar de olhos". O próprio protagonista se vê como uma espécie de Zorro, disfarçado para lutar por aquilo em que acredita. O disfarce, nesse caso, envolve alisar o cabelo, vestir roupas caras e mudar o seu modo de falar.

O debate é fascinante porque provoca o leitor a repensar categorias que podem enganar e parecer naturais. A pergunta que paira sobre todo o gibi é como, afinal, definir quem é branco e quem é negro. Se não é determinada pela cor da pele, Johnson sugere, a ideia de raça está ligada a outras coisas. Um modo de viver, quiçá, ou um conjunto de experiências compartilhadas por um grupo social. É uma invenção, diz o personagem.

Zane define seu "poder" como o resultado de uma história que os Estados Unidos ainda hesitam em debater: "escravidão, estupro e hipocrisia". É justamente porque a sociedade não quer olhar para o seu passado que ela não consegue enxergar bem as cores de Zane. Nesse contexto, as andanças do personagem entre os mundos segregados, o branco e o negro, é um ato revolucionário.

O roteiro de Johnson flui e bate forte na mensagem. Os leitores brasileiros vão, é claro, encontrar bastante material para ruminar também. Um dos poucos pecados do livro talvez seja o seu didatismo excessivo. A pedagogia, por outro lado, é capaz de ser sua vantagem nestes anos, marcados pelos protestos Black Lives Matter (vidas negras importam).

O pano de fundo histórico de "Incognegro" é valioso, apesar de acabar soterrado pela violência do enredo. O jornalista Zane faz parte de um importante movimento cultural negro conhecido como Renascimento do Harlem, que aconteceu nos anos 1920 e 1930. É seu círculo social.

A arte de Warren Pleece, que ilustra "Incognegro", é menos impressionante que o texto. Os tons de cinza que ele usa parecem um pouco achatados, em especial no fundo das cenas, espaços preenchidos sem detalhes.

Mas o uso do preto e branco é parte da mensagem e tem um mérito óbvio. Faz com que o leitor, como os personagens do gibi, pelejem para distinguir a cor de Zane e, assim, reexamine o significado da raça.

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INCOGNEGRO

Preço R$ 49,90 (144 págs.)

Autor Mat Johnson e Warren Pleece

Editora Veneta

Tradução Gabriela Franco

Avaliação: Muito bom

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