“Hospedeiro”, de Bong Joon-Ho, é alerta para tempos de pânico e coronavírus

Cena o filme Hospedeiro, de Bong Joon-Ho. Foto: Reprodução

Está no catálogo da Netflix um filme de 2006 que deveria servir de roteiro para quem quiser entender o que (não) fazer em caso de emergência como o que assombra cientistas e autoridades diante do coronavírus.

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“Hospedeiro”, do diretor sul-coreano Bong Joon-Ho -- sim, o mesmo de “Parasita”, grande vencedor do Oscar 2020 -- conta a história de uma cidade em polvorosa com o surgimento de um monstro que poucos, além dos espectadores, sabem como surgiu.

Fustigado pela população após aparecer como uma mancha estranha no rio, o bicho promove uma carnificina e leva para o esgoto uma criança que, dali em diante, tenta desesperadamente entrar em contato com o pai, um vendedor de espetinhos e outras iguarias interpretado por Song Kang-ho (o pai da família Kim de “Parasita”).

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O pai tenta a todo custo localizar a filha sequestrada, mas é barrado pelo pânico que acomete o país inteiro: por ordem das autoridades, todas as pessoas que tiveram contato com o bicho devem ser isoladas numa quarentena sem hora para acabar. São também alvo de todo tipo de testes e experiências na busca pelo vírus que o monstro supostamente lançou em seu ataque.

Os cidadãos se tornam vítimas de maneira dupla: do monstro que ninguém sabe exatamente onde localizar e como lidar e da ignorância de quem vê em possíveis corpos infectados outros monstros que devem ser eliminados e retirados de circulação.

É o que acontece quando o pânico toma conta das decisões antes mesmo de se saber exatamente o que está em risco (no filme, a construção de outro monstro, uma máquina gigante que passa pela cidade borrifando veneno a rodo, colocando assim a população inteira diante de outros riscos, é a alegoria perfeita dessa histeria).

Pelo mundo, bolsas despencaram e até a projeção de crescimento econômico no Brasil precisou ser revista diante da confirmação das primeiras vítimas do coronavírus.

O medo da contaminação contagiou o mundo todo, e já coloca em dúvida a realização de megaeventos como a Olimpíada de Tóquio. Tudo para evitar aglomerações.

A história da humanidade é a história de populações dizimadas por doenças. Na Idade Média, estima-se que um terço da população tenha sido devastada pela peste negra.

Já o século 20 foi marcado pela pandemia do vírus influenza, que matou entre 50 a 100 milhões de pessoas e ficou conhecida como a gripe espanhola -- que nada tinha de espanhola -- além da AIDS, doença crônica causada pelo vírus HIV que até hoje desafia a medicina e condena suas vítimas às bolhas da estigmatização.

Até a semana passada, a China, epicentro da doença, havia confirmado mais de 77,2 mil casos de pessoas infectadas pelo coronavírus -- com 2,5 mil mortes. No mundo, outros 2.101 casos haviam sido notificados, com 24 mortos. 

Os números mostram que com o vírus não se brinca mas, assim como no filme, existe um grande risco de a paranoia em torno dele alimentar outros estragos. Preconceito de classe e xenofobia, em outras palavras.

No thriller de Joon-Hoo, o pobre vendedor de iguarias promove uma batalha contra a criatura ao lado de um militar americano. O primeiro, que tem uma informação primordial para resolver a questão, é tratado como um louco que precisa ser ignorado, jamais ouvido; o segundo vira herói. (O filme foi lançado em 2006, no auge do pânico causado pela gripe aviária, e carrega nas tintas da ironia ao mostrar o espírito colonizado dos países periféricos diante das potências estrangeiras).

No Brasil, há relatos de que a comunidade chinesa se isolou em razão das notícias do avanço do coronavírus pelo mundo. Em São Paulo, segundo o jornal O Globo, imigrantes evitam sair às ruas, enquanto restaurantes e hotéis que costumam atender a comunidade viram o movimento cair entre 25% e 30%.

O caso mais emblemático, porém, aconteceu em um condomínio comercial em São Paulo que "determinou algumas condições" para funcionários chineses de uma das empresas poderem acessar o prédio. O comunicado dizia que eles deveriam usar máscaras cirúrgicas e utilizar "apenas o elevador privativo", além de "higienizar as mãos com álcool gel".

"Recomendamos que os demais usuários usem os outros elevadores, deixando o carro privativo somente para os chineses”, dizia a administração.

Vale lembrar que, mesmo na China, a grande maioria (80%) dos infectados apresenta sintomas leves, e que as vítimas fatais são pessoas idosas ou indivíduos com pré-disposição à doença -- como acontece com uma gripe comum, que também pode ser fatal.

Especialistas e entendidos no assunto dizem que não há motivo para pânico, apenas vigilância.

Como comum nessas horas, pouca gente sabe exatamente o que fazer. Lembrar, como faz Bong Joon-Ho, que o combate é contra a doença, não seus possíveis hospedeiros, é só o primeiro passo.