Horror da era Bolsonaro ecoa o absurdo de Beckett em espetáculo de Mika Lins

  • Opa!
    Algo deu errado.
    Tente novamente mais tarde.
Neste artigo:
  • Opa!
    Algo deu errado.
    Tente novamente mais tarde.
SÃO PAULO, SP, BRASIL, 06-05-2022 - Fotos do ensaios da  peça Play Beckett, dirigida por Mika Lins e com Simone de Lucia, Marcos Suchara e Diego Machado, no Teatro Aliança Francesa. (Foto: Bruno Santos/ Folhapress)
SÃO PAULO, SP, BRASIL, 06-05-2022 - Fotos do ensaios da peça Play Beckett, dirigida por Mika Lins e com Simone de Lucia, Marcos Suchara e Diego Machado, no Teatro Aliança Francesa. (Foto: Bruno Santos/ Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Não sei, não o saberei nunca, no silêncio não se sabe, é preciso continuar, não posso continuar, vou continuar." Assim termina "O Inominável", o terceiro livro da trilogia pós-Guerra do irlandês Samuel Beckett, que fez sua carreira na França. O romance é precedido por "Molloy" e "Malone Morre".

A solidão, a realidade que gira em falso, a angústia, a falha. Essa trilogia e, claro, "Esperando Godot", textos dos anos 1940 e 1950, abordavam esses assuntos, que seriam lapidados nas décadas seguintes pelo autor.

Um dos mais influentes dramaturgos do século 20, Beckett soube captar a insegurança e o mal-estar que envolveram o mundo, sobretudo a Europa, depois das atrocidades da Segunda Guerra Mundial, na qual morreram mais de 40 milhões de civis e cerca de 20 milhões de soldados.

O Brasil, evidentemente, não vive sob os escombros como esteve a Europa àquela altura. Mas tem sido derrotado por uma pandemia, que já deu cabo de mais de 660 mil vidas no país, e enfrenta crescentes ameaças autoritárias, que nos fazem lembrar os idos de 1964.

Prevalece, portanto, a sensação de mal-estar neste Brasil de 2022, um mal-estar que muitas vezes se confunde com torpor. A arte transgressora de Beckett, que rendeu a ele o Nobel de literatura em 1969, faz todo o sentido aqui e agora --logo ele, o autor modernista que defendia a inexistência de sentido sob qualquer circunstância.

Depois da remontagem de "Esperando Godot" pelo grupo de Zé Celso, no Sesc Pompeia, entra em cartaz nesta quinta-feira "Play Beckett", dirigida por Mika Lins no teatro da Aliança Francesa, em São Paulo.

Com duração de cerca de uma hora, o espetáculo reúne quatro criações curtas do autor, publicadas em duas diferentes fases de sua trajetória. São encenadas justamente nesta ordem --"Ato sem Palavras 2", de 1956, "Play", de 1963, "Catástrofe", de 1982, e "Improviso de Ohio", de 1981.

Embora Beckett seja o dramaturgo das crises --existenciais sobretudo, mas também políticas e sociais-- e, por isso, sua obra ganha ainda mais pertinência nos dias que correm, não foi essa a motivação inicial para a montagem. É um desejo acalentado há de mais de 40 anos pela atriz Simone de Lucia.

A leitura de "Godot" aos 14 anos fez dela uma admiradora obstinada do escritor nascido em Dublin. "O Beckett que me fascina é aquele que rompeu com o teatro clássico", diz a atriz, de 55 anos. "Ele mostra aspectos inusitados da condição humana. Os personagens estão presos em situações sem solução, resistem e recomeçam, vivem dentro de uma situação cíclica. E há sempre um tom tragicômico."

Lucia começou a atuar profissionalmente nos anos 1980 e esteve nos palcos paulistanos até meados da década seguinte. Mais adiante, morou na Argentina e na Itália e teve uma filha, circunstâncias que não a afastaram totalmente do teatro, mas tornaram as atividades cênicas menos presentes no cotidiano dela.

Numa conversa em meio à pandemia, em São Paulo, o marido de Lucia disse a ela "precisamos ver como vamos passar os próximos anos, a gente não está ficando mais novo". Aquilo soou para a atriz, que não fazia teatro havia quase 20 anos, como um baque.

Ao participar do curso de iniciação à leitura em voz alta, conduzido por Mika Lins, ela sugeriu à diretora que montassem "Improviso de Ohio". Dessa forma, em novembro do ano passado, começava a nascer "Play Beckett".

Como escreveu a professora emérita de literatura Leyla Perrone-Moisés, da Universidade de São Paulo, "Improviso de Ohio" trata "da perda de um ser amado". "Da relação a dois, amante e amado, quando só resta um, a sós com uma sombra. Do passado lido a dois num mesmo livro, até a exaustão da história." Segundo a professora, "é talvez a única peça de amor de Beckett".

É de Perrone-Moisés, aliás, a tradução escolhida para o espetáculo. O texto foi publicado pela primeira vez numa edição dedicada aos 90 anos de nascimento de Beckett no extinto caderno Mais deste jornal, em 1996 --ele havia morrido sete anos antes, aos 83, em Paris.

"Improviso de Ohio" é, em suma, uma pequena peça sobre o luto. "Com tantas mortes ao longo da pandemia, ainda estamos nos consolando", diz Mika Lins. "Fiquei apaixonada por 'Ohio' e fiquei pensando em quais outros textos de Beckett falariam mais ao momento que a gente vive."

Surgiu, então, a ideia de encenar "Catástrofe", outro "dramatículo", como o autor classificava as peças curtas. Essa apresenta um diretor de teatro bastante autoritário que, ao lado de uma assistente, decide os ajustes finais de uma cena. Dão ordens, com desdém, a um ator.

"Catástrofe" é um dos textos de Beckett de tom mais abertamente político e foi dedicado ao também escritor e dramaturgo Václav Havel, preso político àquela altura na então Tchecoslováquia. "Ele usa o trabalho do diretor como uma metáfora para algo obscurantista, ditatorial, que é o que a gente vive hoje no Brasil, sobretudo na área cultural", comenta Lins.

A opção seguinte foi "Play", que narra as razões e os conflitos de um triângulo amoroso, no qual os personagens têm só a cabeça à mostra. Por fim, "Ato sem Palavras 2" é uma pantomima (expressões apenas gestuais, sem texto) em que os personagens A e B expõem suas rotinas, desde que acordam. Um é mais circunspecto; o outro age de maneira expansiva.

Essas duas últimas escolhas mostram a graça, ainda que amarga, presente na obra de Beckett. "Os personagens são gente que deu errado na vida, que vive na impossibilidade, na falha. E Beckett fala dessa gente com angústia e humor", conta a diretora. "Há dor, solidão, mas tem um sorriso de canto de boca nas suas peças."

Para mergulhar nesse mar beckettiano, além de Simone de Lucia, Lins convidou para o elenco dois antigos parceiros --Marcos Suchara, que havia atuado em "Dueto para Um" e "Tartaruga de Darwin", ambas dirigidas por ela, e Diego Machado, que esteve em "Tartaruga". Também trouxe um colaborador de longa data, o iluminador Caetano Vilela, que fez um trabalho especialmente intrincado em "Play", na qual a luz cumpre o papel de um quarto personagem, o inquisidor.

Eles se dedicaram aos estudos durante um mês, período de muitas leituras, trabalhos de corpo e voz. Também tiveram palestras com especialistas na obra do irlandês, como a dramaturga Claudia Vasconcellos, autora de "Samuel Beckett e seus Duplos", o diretor e tradutor Rubens Rusche e o professor de literatura Fábio de Souza Andrade, da USP, autor de "Samuel Beckett - O Silêncio Possível".

Passada essa etapa, foram três meses de ensaio. A preparação vinha bem até que Lucia, justamente uma das idealizadoras do projeto ao lado de Lins, descobriu que tinha um câncer na mama. "Felizmente, era pequeno. Depois de oito dias da cirurgia, eu já estava de volta aos ensaios", conta. "As pessoas do espetáculo foram incríveis. Quando soube do diagnóstico, eu insisti para que Mika me substituísse, mas ela não desistiu de mim."

Ao final, como este repórter pôde constatar no ensaio na última sexta-feira, "Play Beckett" é ora uma homenagem reverente ao escritor, ora um gesto de subversão em relação aos textos dele. "Se o Zé Celso matou o Godot, eu posso fazer o que eu quiser. Estou autorizada, não é?", diz a diretora, rindo.

Em "Ato sem Palavras 2" e "Improviso em Ohio", Lins segue, de modo geral, as indicações minuciosas de Beckett. Existem algumas inovações cenográficas em "Play". As "desobediências", como diz Lins, estão concentradas em "Catástrofe". O protagonista (o ator sob as ordens do diretor prepotente) se movimenta de modo suave em um trepa-trepa, formando desenhos corporais que expressam dor e melancolia -nada disso está nos apontamentos do autor.

"Quis lembrar um pouco a tortura, o pau de arara. O Diego Machado fez um trabalho de corpo muito intenso com o [coreógrafo e bailarino] Diogo Granato", conta Lins.

"Meu assunto é o fracasso", dizia Beckett. Numa época de heróis infalíveis das redes sociais, o teatro acolhe a vida, sempre marcada pelo erro e pelo tédio. Bem-vindo, Beckett.

*

PLAY BECKETT

Quando: Estreia na quinta (12), às 20h. Até 26 de junho; qui., sex. e sáb.: às 20h; dom.: às 18h

Onde: Teatro da Aliança Francesa - r. General Jardim, 182, Vila Buarque, São Paulo

Preço: R$ 60 (sex., sáb. e dom.) e R$ 20 (qui.) à venda em sympla.com.br

Classificação: 14 anos

Autor: Samuel Beckett

Elenco: Simone de Lucia, Marcos Suchara e Diego Machado

Direção: Mika Lins

Telefone: (11) 3572-2379

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos