"Homens precisam urgentemente se reconhecer como abusadores", diz Fernanda Nobre

Daniel Blanco e Fernanda Nobre em
Daniel Blanco e Fernanda Nobre em "Não Foi Minha Culpa". Foto: Divulgação/Star+

Resumo da notícia:

  • Fernanda Nobre vive vítima de feminicídio em série sobre assédio

  • Em entrevista ao Yahoo, atriz fala sobre protagonismo em "Não Foi Minha Culpa"

  • Roteirista Juliana Rosenthal também comenta importância da trama disponível no Star+

Fernanda Nobre estreia o que pode ser o projeto mais tocante de sua carreira até então: uma série cujo enredo envolve casos reais de diversas formas de violência contra a mulher. Escrito por Juliana Rosenthal e Michelle Ferreira, "Não Foi Minha Culpa" aborda 10 episódios distintos com histórias de repressão física, psicológica, moral, patrimonial e sexual. Tudo é situado a partir de um bloco de Carnaval - um ambiente que reflete muitas contradições entre liberdade e abuso pela pluralidade de pessoas e assédios.

Disponível no catálogo do Star+ há algumas semanas, a produção fez a atriz reafirmar seu lugar na arte. Em entrevista ao Yahoo, Fernanda Nobre e a escritora Juliana Rosenthal refletem sobre a importância da narrativa prestar serviço à sociedade. "É um trabalho que me fez lembrar por que escolhi a minha profissão. O que todos nós queremos é um projeto que provoque a reflexão do público, seja pelo riso ou tristeza", afirma Nobre. "Além de perceber que não estou sozinha nos abusos que vivi, entendi como o patriarcado naturaliza muitas atitudes machistas e violentas", reflete Rosenthal sobre a produção que também aborda feminicídios.

Fomos ensinadas a aceitar, a competir e a nos calar. E esse silêncio mata"Juliana Rosenthal, criadora de "Não Foi Minha Culpa"

Questionada sobre o impacto da produção no público masculino, Fernanda acredita que a narrativa deve promover uma reflexão para os homens sobre o lugar deles no patriarcado. "Criar uma conscientização dos privilégios deles por serem homens. Dentro disso, vivemos uma estrutura hierárquica que eles nos esmagam por uma repetição de comportamento, muitas vezes sem ser consciente", desabafa a atriz.

Três mulheres morrem por dia no Brasil pela violência de gênero

De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2021, uma mulher é vítima de feminicídio a cada 7 horas no Brasil. O que significa que ao menos três mulheres morrem por dia no país pela violência de gênero. Um número ainda muito alarmante que ganha uma lente de aumento quando explorado no entretenimento com a intenção de alertar a população.

Basta da inconsciência privilegiada masculina! Os homens precisam urgentemente se reconhecer como abusadores por estarem inseridos nesse sistema"Fernanda Nobre

Para Juliana Rosenthal, "Não Foi Minha Culpa" também é a oportunidade dos homens reconhecerem o machismo intrínseco em muitas atitudes que podem ser relativizadas por eles. "Acredito que os homens também sofrem com essa cultura patriarcal milenar. Acho que muitos irão reconhecer algumas atitudes que já tiveram ou que algum amigo ainda tem. E é só entrando em contato com isso que pode haver alguma transformação", declara.

Bastidores "de cura"

Embora seja um tema extremamente sensível e delicado, a violência e o assédio, infelizmente, fazem ou fizeram parte de algum momento da vida da grande maioria das mulheres. Inclusive, é uma dor que não foge da realidade da própria equipe. Por conta disso, os bastidores promoveram um "espaço de cura", como define Fernanda Nobre.

"Claro que alguns momentos ficava mais difícil para uma ou outra a partir da experiência de cada uma, mas foi basicamente um espaço de cura, de todas nós juntas lidar com nossas histórias e medos no dia a dia do trabalho", completa ao destacar o sentimento de orgulho que dominou o clima do set.

"O dar-se conta de abusos começou conosco, na criação, porque naturalizamos muitas violências que precisam ser reconhecidas e nomeadas. Durante as leituras com os atores, nas filmagens, e agora com os espectadores, a série mexe muito com quem a vê", acrescenta a criadora Juliana ao destacar o orgulho em conseguir transformar dor em arte.

Um projeto de mulheres

Nada mais representativo do que uma produção que aborda a sofrimento das mulheres ser encabeçada por elas. Fernanda Nobre ressalta a importância da reunião de personalidades femininas para fazer a série acontecer. "Uma das coisas mais bonitas desse projeto é que ele foi todo capitaneado por mulheres. Escrito por mulher, produzido por mulher, dirigido por mulher e toda a equipe no set de filmagem era de mulheres", conta.

"Isso tem uma força de linguagem absurda: uma obra audiovisual que sempre foi um lugar basicamente masculino, contando histórias de violência contra as mulheres pelo o olhar do oprimido: o feminino", completa.

Juliana ainda pontua a espera do dia em que não precisemos mais fazer esse tipo de denúncia. "Mas, por enquanto, no Brasil, uma mulher é estuprada a cada 10 minutos e um feminicídio acontece a cada 7 horas, em sua grande maioria praticado por ex ou atuais companheiros da vítima. É uma loucura. Precisamos gritar!", declara.

"Não foi Minha Culpa"

Dirigida por Susanna Lira, "Não Foi Minha Culpa" é uma obra escrita por Juliana Rosenthal e Michelle Ferreira com o objetivo de reproduzir 10 casos reais de violência contra a mulher em diferentes âmbitos, um a cada episódio.

Com a intenção de questionar a culpabilização da vítima e mostrar como a violência atinge qualquer mulher, a série aborda histórias de mulheres de diferentes etnias, classes sociais, idades e sexualidades. Além disso, os abusadores também se revelam por diferentes personalidades, seja parceiros afetivos, filhos, chefes, pessoas do convívio social, que costumam estar próximas da vítima.

Além de Fernanda Nobre, o elenco ainda conta com Bianca Comparato, Aline Dias, Malu Mader, Lorena Comparato, Luana Xavier entre outros grandes nomes. "Não Foi Minha Culpa" está inteiramente disponível no Star+. Confira o trailer: