O homem no funk brasileiro: “A masculinidade é diferente da de homens brancos de outras classes sociais”

Ana Ignacio
·Especial para o HuffPost Brasil
·6 minuto de leitura
Masculinidade e o Funk. Arte: Tiago Limón
Masculinidade e o Funk. Arte: Tiago Limón

“Tudo que entendemos por sociedade, nação e cultura aparece em produtos culturais”. Este é o lembrete do produtor cultural e pesquisador Vini Rodrigues. Sendo assim, é de se esperar que músicas, shows e eventos sempre tenham uma assinatura social.

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“E quando a gente pega o funk e hip hop, por exemplo, estamos falando de movimentos culturais majoritariamente construídos por pessoas negras e majoritariamente homens e por isso o modo de pensar desses homens aparece nesse produto”, explica Vini que atualmente desenvolve seu trabalho no doutorado em antropologia sobre a produção, representação e performance de masculinidades negras entre os jovens do funk.

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Então, tudo que é criado nesses espaços é um reflexo direto do que acontece fora deles e das pressões e expectativas que recaem sobre as pessoas que produzem tudo isso. Quando falamos de masculinidade, a imagem e o pensamento desses homens também é representada de maneira bem clara nesses espaços.

“Os funkeiros estão reproduzindo os comportamentos que lhes foram ensinados. Os homens costumam ter muito mais liberdade pra sair (e talvez por isso sejam a maioria nos bailes); muito mais liberdade sexual, então são menos julgados do que mulheres por falarem sobre sexo; são ensinados que a mulher existe pra lhes servir, e por isso muitos (e não todos) objetificam e hiperssexualizam elas…” , diz Thiago Torres, conhecido como Chavoso da USP. O estudante de Ciências Sociais tem um canal no YouTube onde fala sobre seus estudos e também sobre sua realidade enquanto um homem jovem, negro, periférico, homossexual e funkeiro.

Além disso, há uma outra particularidade que é importante ser considerada. “A gente não pode esquecer que, quando falamos do funk, estamos falando principalmente de homens pretos e favelados. A masculinidade desses homens é diferente da masculinidade de homens brancos de outras classes sociais”, completa o estudante. Essa é uma questão relevante para se pensar nesse contexto específico: a masculinidade negra. “Seria uma masculinidade dissidente que tenta recusar o máximo possível o padrão e construir uma outra a partir da sua perspectiva e sua localização, pautada em valores afro-brasileiros e porque não periféricos”, explica Vini.

Assim, alguns padrões são ainda mais reforçados nesse ambiente. “O homem periférico é criado na base de uma violência extrema, vinda de todos os lados. É ensinado a ser muito mais duro, a reprimir todos os seus sentimentos, a ‘marcar território’, é ensinado que precisa ser rico pra ser um homem pleno, e não conseguir isso é motivo de frustração muito grande”, pontua Thiago. E daí vemos muito das letras do funk e do hip hop que abordam situações com polícia, brigas, o funk ostentação e o funk proibidão.

“A masculinidade entendida como hegemônica, que nunca será alcançada, pesa para todos os homens mas como a sociedade não é igual ela não vai afetar todos os homens igualmente. [Em relacao ao homem negro] espera-se um desempenho sexual acima da media quase aproximando ele a uma certa animalidade, essa coisa do ‘negão cheio de paixão’, espera-se que ele tenha uma pré-disposicao quase genética pra a violencia. São expectativas negativas e outras que são falsos positivos baseadas em estereotipos”, analisa Vini.

Para Thiago, apesar de saber que parte desses comportamentos naturalizados realmente não são sempre saudáveis, ele enxerga um grande valor de representatividade que é importante ser frisado. “Enquanto muitos usariam as características machistas presentes no funk pra deslegitimar, eu digo que poder fazer parte dessa cultura é uma das coisas mais importantes na vida dos homens negros e favelados, por ser um espaço de expressão das suas habilidades artísticas (canto, dança..) e dos seus sentimentos. Nada mais bonito do que ver homens negros, que são animalizados pela sociedade racista e elitista, embrasando no baile, sorrindo, com outros homens que ele gosta, ou até mesmo com desconhecidos”.

Letra nova

Mas, assim como em todo processo que é social, as coisas tendem a mudar aos poucos. Isso também é possível ver nesses espaços e produções culturais. Tanto no hip hop quanto no funk, pode-se também identificar novos olhares para algumas questões. “Acredito que as mudanças no comportamento masculino dentro do funk têm acompanhado, em certa medida, as próprias mudanças na sociedade. Claro que não no mesmo ritmo, não da mesma forma, mas os homens tendem a respeitar mais o espaço das minas, a entender que é errado tratar elas de determinadas formas… Porém, o posicionamento de ‘macho alfa’, ‘dominante’, ‘viril’, permanece forte. Mas o interessante é que isso geralmente é demonstrado mais entre homens, ou seja, é como se eles quisessem demonstrar essas características uns para os outros, mas quando sozinhos com as suas namoradas, familiares, ou amigos íntimos, geralmente são menos ‘grosseiros’, demonstram mais afeto e até chamam parceiros de ‘amor’, ‘vida’, etc..”.

Vini concorda com essa avaliação e destaca que faz parte, como um todo; das reflexões sobre gênero que tem ocorrido e mexendo com diversas estruturas, mesmo que aos poucos. “O Rincon Sapiência dentro do hip hop dá indícios de que há uma mudança do homem preto acontecendo. ‘Se tiver permissão estamos dando sarrada’ [da música Ponta de Lança (Verso livre)]. O problema não é a sarrada, é o consentimento. Sabe-se que nos bailes as meninas não eram e ainda não são sempre respeitadas, mas é isso… se tiver consentimento, vamos lá. Então percebemos algumas mudanças. Algumas letras que fazem críticas a si mesmo, por exemplo, dúvidas sobre a própria existência na relação, isso mostra que tem uma masculinidade em crise”.

Mas nem todas as questões conquistaram espaço. “Eu sou homem, negro, periférico e gay. Me identifico com muitas coisas no funk, mas com outras não. Enquanto a sexualidade heterossexual é hiper-explorada nas letras, a homossexual (pelo menos a masculina) é totalmente apagada. Não há grandes funkeiros gays ou bissexuais assumidos. Mulheres, até há, mas a gente percebe que elas conseguem mais espaço pra falar da sua sexualidade porque, infelizmente, os homens cis-héterossexuais têm fetiche por ver mulheres se pegando. Já o homem gay precisa reprimir sua sexualidade, esconder ela”, avalia Thiago.

Para o jovem, esses assuntos ainda não são debatidos da maneira que poderiam. “Quando essas conversas acontecem, geralmente é porque uma pessoa específica levantou elas, mas de um modo geral ainda não é uma preocupação coletiva tão grande. Até porque, como eu disse, crescemos na base de muita violência, a violência é naturalizada e banalizada. Vivemos numa bolha onde o ‘ser homem’ é algo muito delimitado, e a maioria das pessoas não concebe formas diferentes de expressar masculinidades. Porém, vira e mexe amigos levantam debates entre si sobre a forma como um tratou uma mina, sobre como ele se sente sendo tratado mal pelo seu pai, ou ele próprio não sabendo exercer sua paternidade.. Mas esses debates ainda são muito pequenos, fechados e limitados”, finaliza.

Aos poucos as letras novas vão nascendo. Mas cada mudança no seu ritmo.

**Concepção e Coordenação de Amauri Terto e Diego Iraheta

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