Hollywood prefere revisão da década em tapete a enfrentar tom bélico do noticiário

PEDRO DINIZ

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Se tapetes vermelhos guardassem uma conexão mínima com a realidade, haveria uma outra parada de vestidos pretos -ou camuflados, para combinar com o clima desse domingo (5)- aos moldes daquele que as atrizes fizeram em 2018 para criticar o assédio nos bastidores do cinema.

"Mas aqui é Hollywood", como logo lembrou o apresentador Ryan Secrest, do canal E!, no início da transmissão deste Globo de Ouro, quase em tom de lamento pelo desfile fora de época.

A escalada bélica exposta no noticiário poderia ser o tema principal da noite, mas, sendo Hollywood, o pote de ouro costuma ficar em algum lugar além do arco-íris. E não faltaram os brilhos, mais de prata do que de ouro como pregou a última temporada de desfiles, e cores para contar o conto de fadas vendido pela indústria do glamour.

Um branco paz e amor ali, tipo o smoking-vestido de Billy Porter ("Pose"), e pretos acolá de Cristina Applegate ("Dead to Dead") e Jennifer Aniston não falaram mais alto que o longo azul profundo de Ana de Armas ("Knives Out"), assinado por Ralph & Russo com "pitadas de Tiffany" segundo a própria disse, o Dolce & Gabbana vinho de Sofía Vergara, o amarelo ovo de Zoey Deutch ("The Politicians") e o conjunto de branco e top florido Chanel de Margot Robbie ("Bombshell").

Tudo correu como esperado, com uma internet impiedosa ao analisar combinações bufantes como a verde-amarelo de Jodie Comer ("Killing Eve") e a verde-dourado de Jennifer Lopez ("As Golpistas").

A cantora chegou a ser comparada a uma garrafa de espumante Salton e levou pra casa outras maldades típicas de se ler em premiações como essa. O script seguiu sem atropelos.

Até atrizes engajadas como Saoirse Ronan ("Adoráveis Mulheres") e Kristen Dunst não fugiram do mundinho cor-de-rosa. A primeira apostou no onipresente nude, forrado com brilhos, e a segunda vestiu o rendado rosado de sempre dos tapetes vermelhos.

Esse vaivém de tendências soou mais como uma retrospectiva dos tapetes vermelhos da década de 10 do que um flerte com novidades.O discurso de Charlize Theron ("O Escândalo") na entrevista para a TV relembrou os últimos anos de conflito entre atrizes e poderosos na esteira do Me Too. 

Seu vestido verde com faixa preta traspassada estendia a ideia para o "ask her more", a hashtag criada em 2015 para pedir aos apresentadores perguntas para além da grife escolhida. O pedido foi atendido, ate porque não havia mesmo o que perguntar sobre a escolha de Theron.

Entre a enxurrada de paetês, lantejoulas e transparências, houve ainda espaço para plissados como os amarelos de Cate Blanchett ("Cadê Você, Bernadette") e os vermelhos majestosos de Scarlett Johansson ("História de Um Casamento"), Nicole Kidman ("Big Little Lies") e Olivia Colman ("The Crown").

Até a ala masculina, que nos últimos dois anos ensaiava algum tipo de quebra nos padrões da alfaiataria de gala, deu passos para trás em seus smokings conservadores. De Brad Pitt ("Era Uma Vez... em Hollywood") aos fashionistas de ocasião Rami Malek e Taron Egerton ("Rocketman"), quase ninguém saiu do preto no branco.

Talvez os tempos sejam belicosos demais até para Hollywood, que provou preferir o escapismo, o porto seguro da beleza cinematográfica, a enfrentar o mundo real fora das salas de cinema.