Hollywood está faturando com a tal mídia podre

'O Escândalo' expõe assédio sexual na Fox News (Foto: Reprodução/Paris Filmes)

Por James Cimino

A partir desta sexta-feira (17), o público brasileiro terá a oportunidade de conhecer Megyn Kelly, uma das mais famosas âncoras do canal de notícias americano Fox News, quando assistirem ao filme 'O Escândalo’.

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O longa mostra a queda do diretor executivo do canal, Roger Ailes (John Lithgow), após a âncora Gretchen Carlson, (Nicole Kidman), processá-lo por assédio sexual. O processo inicia uma onda de denúncias dentro da empresa, que acaba chegando a Megyn Kelly (Charlize Theron), até então a jornalista de maior credibilidade dentro da Fox News e considerada uma “cria” de Ailes.

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Após engrossar a lista de vítimas e entrar em embate direto com o então candidato republicano à presidência em 2016, Donald Trump, Kelly vê sua carreira cair em desgraça. Chamada de traidora por questionar os comentários misóginos de Trump durante a campanha, ela é forçada a se afastar do canal por uma semana após ser ameaçada de morte, além de sofrer bullying do próprio Trump.

Ao voltar, acaba sendo pressionada a fazer uma entrevista super chapa branca com o então candidato, que em linhas gerais diz que era tudo brincadeirinha, mas o estrago já estava feito. Logo depois da eleição do presidente, seu contrato vence, e Kelly se demite do canal. Mais tarde alegaria que, imagine só, o local era um ninho de cobras. E surpreende zero pessoas. 

Kelly, que abandonara a oportunidade de ser sócia de uma firma de advocacia para seguir a carreira de jornalista, tenta então uma carreira como apresentadora de um programa de entrevistas na concorrente NBC, mas o projeto não vai para a frente. A âncora de voz grave e cheia de credibilidade, a jornalista que odiava ter virado notícia, teria que agora se transformar em uma apresentadora matutina. Sorrir para donas de casa no supermercado... Não deu certo. A audiência foi fraca e ela acabou novamente demitida.

A carreira de Gretchen Carson tampouco se recuperou após o escândalo, mas pelo menos ela levou uma bolada de indenização — US$ 20 milhões — e um pedido de desculpas público do canal, algo até então sem precedentes na história. Assim como Kelly, também escreveu um livro, 'Be Fierce', tornou-se ativista por mudanças na legislação americana sobre assédio no ambiente de trabalho. Isso porque, após fazer o acordo milionário, teve de assinar um termo de confidencialidade sobre o caso. Ou seja: ela está proibida de contar sua própria história, por isso hoje se define nas redes sociais como “jornalista, mãe, dedo-duro e feminista durona”. 

“Chega de empoderamento feminino!”

Nada disso é spoiler. É história real, embora, em se tratando de uma obra de ficção baseada em fatos e personagens reais, algumas passagens não condigam com a realidade, conforme apontou Megyn Kelly e três das outras vítimas retratadas no filme (Julia Huddy, Rudy Bakhtiar e Julie Zann) em um vídeo no canal de Kelly no YouTube. 

As quatro jornalistas e o marido de Kelly, Doug Brandt, assistiram ao filme juntos. Todas choraram bastante, especialmente na cena do elevador, que aparece no trailer do filme.

As quatro foram unânimes em um ponto: o filme pegou muito leve. “Foi muito pior do que é retratado no filme”, disse Julie Zann. Ela e Julia Huddy nunca mais conseguiram trabalho na televisão.

Megyn Kelly disse que, ao contrário do que mostra o filme, a pergunta sobre o tratamento de Trump com as mulheres não foi ideia dos Murdoch (a família que controla a Fox News) e que Roger Ailes tampouco gostou da pergunta (no filme ele aplaude a pergunta porque a polêmica renderia audiência). “Ele gritou comigo e disse: ‘Chega de empoderamento feminino!’”

Millennial evangélica

A parte totalmente fictícia vem a seguir: No elenco do longa também está Margot Robbie, que interpreta a personagem Kayla, uma jovem jornalista de família conservadora da Flórida cujo objetivo máximo é fazer carreira na Fox News, um canal que se tornou de fato um grande veículo de propaganda do partido Republicano, de suas pautas ultraconservadoras e reacionárias que têm grande consumo entre o americano cristão e conservador. Não à toa é o canal de notícias de maior audiência dos Estados Unidos.

A revista 'Esquire’ publicou uma reportagem dizendo que a personagem de Robbie, que se define como uma “millennial evangélica”, é baseada em pelo menos 20 influenciadores da internet com perfil conservador e que ganharam projeção como comentaristas dentro da Fox News. A mais notória é Tomi Lahren, que tem 1,5 milhão de seguidores no Twitter devido a seus comentários inflamatórios sobre uma suposta conspiração socialista do partido Democrata ao promover pautas como controle de armas, o perdão da dívida estudantil (na casa dos US$ 1,5 tri, maior que o PIB da Espanha) e um sistema de saúde pública universal. 

O filme, no entanto, não entra nesta seara e apenas mostra Kayla como a nova presa de Roger Ailes, morto em 2017 e considerado um dos maiores responsáveis pela eleição de três presidentes republicanos, entre eles Trump, Bush pai e Bush filho.

Mídia podre é tendência na TV

'O Escândalo’ integra um pacote de produtos de entretenimento que retratam o lado podre da mídia e que estão fazendo muito sucesso na TV americana desde 2019. 

Um deles é a primeira grande estreia da Apple TV: a série 'The Morning Show’. Estrelada por Jennifer Aniston, Reese Witherspoon e Steve Carell, a série, cuja primeira temporada tem oito episódios, trata do mesmo tema, mas dessa vez nos bastidores do mais famoso programa de jornalismo/variedades matutino dos Estados Unidos. A história toda neste caso é fictícia, beirando ao folhetinesco, mas com um elenco, roteiro e direção impecáveis. 

Carell, como o macho alfa predador pego pela onda do movimento #metoo, e Witherspoon como a jornalista ética que quer expor as entranhas do machismo no ambiente de trabalho, estão como de costume excelentes. Mas é Jennifer Aniston quem entrega a melhor performance da série. Sua personagem é a mais complexa e bem elaborada das três, como a âncora super carismática que foi omissa por conveniência e para preservar sua posição — mais ou menos como Megyn Kelly, que disse se arrepender de não ter tomado uma atitude antes.

Mas o melhor desse pacotão “mídia podre” é, de novo, da HBO e está em sua segunda temporada. 'Succession’ levou o Globo de Ouro de melhor série de drama deste ano, além do merecidíssimo de melhor ator para Brian Cox, o protagonista da série.

Ele interpreta Logan Roy, um bilionário que construiu um império de mídia, com um canal de jornalismo extremamente sensacionalista e ultraconservador, parques temáticos e até cruzeiros onde funcionárias são estupradas, assassinadas e jogadas ao mar. Seria como se o 'The New York Post' se juntasse à Disney e ambos fossem comandados pelo deus Saturno, que devora seus filhos um por um.

A crítica americana vê nele uma representação de Rupert Murdoch, o magnata americano da mídia que controla a Fox News e o New York Post, mas o personagem construído pelo ator escocês é mais que isso. É mítico e teatral na medida exata. Suas entradas em cena são sempre construídas de forma a causar medo, desconforto, repulsa e, ao mesmo tempo, curiosidade e admiração. Em uma das cenas, um dos filhos diz que ele é como um planeta, que atrai todos ao seu redor. É uma delícia odiar Logan Roy, porque todos que ele maltrata são pessoas tão desprezíveis quanto ele.

O restante do elenco também é sensacional. Os puxa-sacos, os covardes, os que dão sempre razão, os filhos mimados, todos aqueles arquétipos do ambiente de uma grande corporação e suas relações pessoais fazem de ‘Succession' uma série, como bem destacou o jornal 'El País', que não tem um episódio ruim. Aliás, não tem um episódio nem mediano. O fim da primeira temporada faz você aplaudir a televisão. O fim da segunda também.

Águas passadas

Só um aviso após consumir esse pacote: economize na empatia com Megyn Kelly. É totalmente compreensível ver uma mulher que passa por cima de agressão sexual em nome de uma carreira, que opta por não denunciar para não ser desmentida, descreditada, desqualificada e acabar em desempregada e sem ter onde morar, como ocorreu com Julia Huddy. 

Gretchen Carson saiu da Fox News com US$ 20 milhões, mas seu assediador, Roger Ailes, levou US$ 36 milhões “de acerto”. Portanto, é mais que necessário ter empatia por tudo que ela e qualquer mulher passe ou tenha passado no ambiente de trabalho de qualquer empresa no que se refere a assédio sexual. 

É totalmente estranho, no entanto, vê-la nas redes sociais criticando a parcialidade do canal a cabo MSNBC em favor do partido Democrata. Dois dias atrás, ela repostou o comentário do âncora Lawrence O’Donnel, que dizia que jamais chamaria defensores de Trump em seu programa de entrevistas porque a MSNBC não dava “voz a mentirosos”.

Kelly veio imediatamente em defesa do presidente americano: “Quer dizer que todo mundo que apoia o Trump é mentiroso? A MSNBC nunca vai mostrar nada de bom que ele fez? A mídia acabou...”

Chega a ser engraçado ver alguém que fez carreira, se não publicando editoriais sensacionalistas, dando credibilidade ao canal como um todo, criticando a parcialidade do coleguinha. O que a Fox News fez e ainda faz em grande escala é validar os preconceitos e reforçar o patriotismo armamentista cristão que também começa a se formar no Brasil. 

Além disso, foi a Fox News, sob regência de Roger Ailes, que transformou em modelo de negócio a má informação, os “fatos alternativos” e as teorias conspiratórias. O canal é, portanto, responsável direto pelo surgimento de um canal como o MSNBC. Se a mídia acabou, a Fox News é o primeiro ícone dessa ruína.

E a grande pergunta é: mas já estão amiguinhos de novo, Megyn? “A gente se trata bem. O que aconteceu são águas passadas”, disse ela ao ser questionada sobre sua relação com o presidente hoje. Talvez ela, e não Charlize Theron, devesse ser indicada ao Oscar...