'Hitler e Stálin' costura a barbárie da guerra por meio de relatos anônimos

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Josef Stálin nasceu na Geórgia, uma ex-república soviética, em dezembro de 1878. Adolf Hitler nasceria na Áustria pouco mais de dez anos depois, em abril de 1889. Tinham pouco em comum, como uma infância medíocre e nenhum desempenho escolar que os marcasse, mais para a frente, como personagens singulares na Alemanha nazista e na Rússia soviética.

Stálin e Hitler foram os ditadores mais sanguinários do século 20. Por um único critério, o das mortes que provocaram fora da esfera militar, o ditador nazista foi diretamente responsável por 20 milhões de mortos, sobretudo os 6 milhões de judeus. O ditador comunista tem nas costas 14 milhões, entre os que pereceram de fome na Ucrânia ou foram prisioneiros no gulag.

Mas Hitler vence em monstruosidade, pois mandou matar por critérios étnicos e religiosos. O Holocausto e seus milhões de cadáveres são um grande fardo na história da humanidade. Essa contabilidade mórbida está nas 592 páginas de "Hitler e Stálin", novo livro do historiador britânico Laurence Rees.

A obra não traz revelações inéditas, mesmo porque os dois personagens têm diversas biografias já publicadas. O charme de Rees está em dar a palavra a protagonistas que, soviéticos ou do Terceiro Reich, participaram anonimamente da trágica aventura da Segunda Guerra Mundial.

Um exemplo: Irma Eigi tinha 16 anos quando deixou com seus pais a Estônia para, como cidadã de cultura germânica, instalar-se na Alemanha. Mas os planos dos nazistas eram outros. Levaram sua família até uma região recém-ocupada da Polônia e lhe deram um apartamento que trazia os indícios de ex-moradores desalojados às pressas --com camas desarrumadas e restos de comida à mesa.

Os pais de Irma tentaram ir para outro lugar. Mas os alemães responderam que a única alternativa seria um campo de refugiados. Então, conformada, a família estoniana participou do plano alemão de colonização de um país, a Polônia, ocupado à força.

Outro exemplo: em 1941, os russos estavam para perder Rostov para os alemães. Durante um contra-ataque, "um soldado muito jovem e inexperiente ficou com medo de sair da trincheira", conta um ex-militar. "E eu vi com meus próprios olhos um oficial político [promovido pelo Partido Comunista] atirar na cabeça dele como se fosse um desertor. O soldado estava com medo. Não era um traidor, mas o comissário queria dar o exemplo."

Detalhe curioso. Laurence Rees não é um historiador acadêmico. É documentarista e dirigiu por algum tempo as séries de história da TV pública britânica, a BBC. Mas ele tem o estilo narrativo tão atraente quanto o de qualquer bom historiador de uma universidade de prestígio.

Em agosto de 1939, a Alemanha e a União Soviética --inimigas históricas-- assinaram um inesperado pacto de não agressão. Meses depois, Hitler invadiria o solo polonês pelo leste, e Stálin faria o mesmo pelo lado oposto.

Em seguida, o Terceiro Reich conseguiu se apoderar da Bélgica, da Holanda e de metade da França, sem que a Rússia, por causa do pacto, desse qualquer palpite.

Hitler queria servir à Alemanha um banquete de novos territórios, em que a Polônia viria para palitar os dentes. Em seguida, os alemães rasgaram o pacto de não agressão e desencadearam, ainda em 1940, a Operação Barbarossa: invadiram a Rússia, de olho nas terras férteis da Ucrânia e do petróleo do Cáucaso, aproximando-se perigosamente de Moscou.

Os dirigentes alemão e soviético foram figuras pretensiosas. Cometeram erros primários que poderiam afundar seus planos estratégicos, diz Laurence Rees. Erraram bem mais que Franklin Delano Roosevelt (1882-1945), o presidente dos Estados Unidos, na guerra em 1941, ou que Winston Churchill, primeiro-ministro britânico, cuja participação bélica foi de início mais discreta.

Vejamos Stálin. Ele invadiu a coitadinha da Finlândia, porque ela estava muito próxima da fronteira russa. Queria de início forçar uma troca de terras, mas os finlandeses não concordavam. Lançou então suas tropas contra o pequeno país vizinho, contudo, com o inverno chegando, houve o inevitável atolamento dos blindados.

Hitler cometeu um erro atrás do outro, a começar pelo envio à Rússia de uma infantaria que não tinha roupas para o frio. Julgava-se mais patriota e preparado que os oficiais de seu Estado-Maior. Foi o que aconteceu em 1943, com o fim do cerco a Stalingrado. Cerca de 250 mil militares alemães e aliados menores foram feitos prisioneiros. Com o desastre consumado, Hitler declarou que lançaria uma contraofensiva para a qual não dispunha nem de homens, nem de armamentos. Foi assim que o Exército do Reich foi engolido pelos soviéticos.

O livro do historiador é entrecortado por episódios por vezes leves. O principal foi a compreensível obsessão de Stálin em pedir a Churchill e a Roosevelt a abertura de uma segunda frente, que forçaria os alemães a dividirem seus esforços, até então concentrados nos territórios da Rússia.

Stálin, por cartas, encontros pessoais ou por meio de Vyacheslav Molotov, seu ministro do Exterior, insistiu desde 1941 na urgência de um plano que se concretizaria só em 1944, com a libertação da Normandia, a partir do desembarque pelo Canal da Mancha.

Roosevelt, recém-chegado à guerra depois dos estragos que o Japão provocou em Pearl Harbor, recebeu Molotov em Washington. O presidente americano não se comprometeu. Mas enviou um assessor aos aposentos de Molotov, na Casa Branca, e fez a promessa de que os Estados Unidos desembarcariam na França, tão logo o presidente conseguisse convencer seus generais hesitantes. Era só de mentirinha.

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Hitler e Stálin

Autor: Laurence Rees.

Tradução: Claudio Salles Carina.

Editora: Crítica. R$ 124,90 (592 páginas); R$ 99,90 (ebook)

Avaliação: Ótimo

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