No faroeste caboclo nacional, violência política é regra, não exceção

A Câmara dos Deputados realiza sessão solene em memória de Marielle Franco e Anderson Gomes (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)


O relato do ex-procurador-geral da República, Rodrigo Janot, que em entrevista contou como planejou (e desistiu de) matar o ministro do STF Gilmar Mendes, pode levar o leitor desatento a imaginar que vivemos em um período excepcionalmente conturbado da história nacional. Puro engano.

Se há algo excepcional na história brasileira são os momentos de estabilidade e conciliação – conquistas proporcionalmente distantes quanto mais próximo o chefe do MPF armado está de um magistrado que pretende assassinar por vingança e desiste por obra divina.

Momentos de estabilidade e conciliação chegaram a ser desenhados em determinados momentos da nova República. A última distensão se esfarelou nos rastros das manifestações de 2013, quando grupos extremistas decidiram sair do armário e se apropriaram das pautas que deveriam levar a um salto civilizatório no país, e não ao seu regresso.

Quem se lembra das manifestações “isoladas” que pipocavam aqui e acolá pedindo intervenção militar e sangue na arena política pôde ver as primeiras avarias nas cascas dos ovos que chocavam as serpentes que hoje circulam por aí pedindo a volta de um regime que torturou e perseguiu adversários e que poderia ter ganho sobrevida se tivesse sido bem sucedido o atentado a bombas planejado por militares no Riocentro durante as celebrações do 1º de Maio de 1981. A ideia era incriminar a “oposição radical”. O fracasso do plano desmoralizou o governo militar e acelerou o processo de redemocratização do Brasil.

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As forças saudosas daquele período voltaram a circular com altivez de uns tempos pra cá fazendo pedindo votos com arminha na mão.

Um marco foi quando um deputado do baixo clero homenageou um notório torturador da ditadura em seu voto pelo impeachment de Dilma Rousseff; dois anos depois, estava eleito presidente prometendo armar um país inteiro. Jair Bolsonaro se tornaria, ele mesmo, vítima da violência política, ao sofrer um atentado a faca, durante um ato da campanha em 2018.

A história da formação política do Brasil é uma história escrita com sangue – a começar pelo massacre em Canudos, em 1897, que conteve uma rebelião messiânico-monarquista nos anos iniciais da Primeira República. Os ecos daquela revolta ressoam hoje em filmes como “Bacurau”.

Foi uma espécie de maldição que atravessou a modernização do país.

Em 1915, por exemplo, o influente senador José Gomes Pinheiro Machado, conhecido como “Mandarim da República”, foi atingido pelas costas, no saguão de um hotel do Rio de Janeiro, a capital do país na época, com duas punhaladas de uma faca cega e enferrujada usada por Manso de Paiva. A suspeita é que o crime ocorreu por encomenda de outros políticos, o que o assassino negou até o fim da vida.

Em 1930, Getúlio Vargas chegou ao poder após a comoção do assassinato, em uma confeitaria de Recife, do então governador da Paraíba João Pessoa. O episódio foi o estopim da chamada Revolução de 30, iniciada em Minas, Paraíba e Rio Grande do Sul. A era Vargas terminou, em 1954, como começou: de forma trágica. Após o envolvimento de sua guarda pessoal no crime da rua Tonelero, que visou Carlos Lacerda e vitimou o major-aviador Rubens Florentino Vaz, o presidente encerrou a crise com um tiro na boca.

Outro caso emblemático aconteceu em 1963, quando o senador Arnon Melo disparou contra o colega José Kairala. O tiro atingiu o senador eleito pelo Acre por engano: o alvo era Silvestre Péricles de Góis Monteiro, com quem Arnon Melo trocava insultos enquanto discursava na tribuna. Era o tempo em que política e coronelismo se misturavam, e as altas figuras da República desfilavam armadas no plenário. Impensável nos dias de hoje, não?

Quase 30 anos depois, Fernando Collor de Mello, filho do assassino, foi eleito presidente da República. Ele renunciaria ao cargo em 1992 após as revelações de seu envolvimento com o encrencado tesoureiro Paulo Cesar Farias. Em 1996, PC Farias e sua namorada, Suzana Marcolino, seriam encontrados mortos em uma casa de praia em Maceió.

Em 1992, o ex-governador do Acre Edmundo Pinto foi assassinato em um hotel na capital paulista com dois tiros. Ele iria depor no dia seguinte sobre seu possível envolvimento em irregularidades no FGTS.

Edmundo Pinto era conterrâneo do ex-deputado federal Hildebrando Pascoal, acusado de liderar um grupo de extermínio que atuou no Acre durante a década de 90. Sua “ferramenta de trabalho” era peculiar. Em 2009, ele foi condenado pela morte de Agilson Firmino no caso que ficou nacionalmente conhecido como “Crime da Motosserra”. A menção é autoexplicativa.

Em 1993, o então governador de Alagoas, Ronaldo Cunha Lima – que dá nome a um dos prédios do Senado – atirou duas vezes à queima-roupa em seu antecessor, Tarcísio de Miranda Burity. O episódio aconteceu em um restaurante em João Pessoa, em novembro de 1993. Cunha Lima havia “perdido a cabeça” após o adversário acusar o filho do então governador, Cássio Cunha Lima, de corrupção na Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste. Os tiros atingiram a boca e o tórax de Buriti, que sobreviveu.

No início dos anos 2000, o assassinato de dois prefeitos petistas chocou o Brasil. Em Santo André, Celso Daniel foi sequestrado em 2002 e encontrado morto em uma estrada em Juquitiba (SP) com 11 tiros. Ele era o coordenador da pré-campanha de Luiz Inácio Lula da Silva à presidência.

Um ano antes, o então prefeito de Campinas Antônio da Costa Santos, o Toninho do PT, foi morto a tiros quando voltava para casa. Em 2005, durante depoimento à CPI dos Bingos, a viúva Roseana Morais Garcia afirmou que o marido foi morto por questões político-administrativas, e não vítima de crime comum, conforme atestou a Polícia Civil de São Paulo.

Após um período aparentemente pacifico da história da nova República, a política voltou a representar risco de vida conforme as milícias, em conluio com autoridades eleitas, ganharam força nas franjas das grandes cidades. É o que leva a concluir o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e de seu motorista Anderson Gomes, em 2018. Eles foram metralhados dentro do carro em uma via pública da capital fluminense. As razões do crime até hoje não foram esclarecidas.

Um levantamento feito pelo Estado de S.Paulo na época apontou que o número de ativistas executados nos cinco anos anteriores ao caso Marielle chegava a 194 – 20 apenas no Rio.

Não parou por ali.

Na última semana, a deputada federal Flordelis dos Santos de Souza (PSD) faltou às sessões na Câmara para tratamento médico. Ela é investigada por envolvimento na morte de seu marido, o pastor Anderson do Carmo, com a suposta participação de filhos adotivos.

Alguém ainda se choca?