História em Quadrinhos de direita combate poder das big techs e ‘vírus chinês’

FÁBIO ZANINI
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em 2045, as “big techs” dominam 80% do planeta. Controlam todos os aspectos da vida e sufocam a liberdade. Apenas alguns focos de guerrilha tentam reverter a tirania de conglomerados que buscam transformar toda a população mundial em escrava. Neste cenário sombrio, João Destro, um ex-fuzileiro naval que vive na mendicância, torna-se um herói improvável e lidera a resistência contra a tirania dos algoritmos. Este é o enredo básico de “Destro”, uma autêntica história em quadrinhos de direita, e não apenas porque o nome do personagem entrega seu viés. A defesa da liberdade nas redes, que estaria ameaçada por empresas como YouTube e Twitter, é uma das grandes bandeiras dos conservadores atualmente, no Brasil e no mundo. “Destro 2” é apenas uma das produções de uma editora surgida no ano passado para fazer HQs assumidamente conservadores. A Super Prumo é comandada pelo designer gráfico Luciano Cunha, 48, e tem uma série de histórias lançadas, ou em projeto, que passam longe do formato convencional dos quadrinhos. “A gente quer fazer quadrinhos como se fazia antigamente, até os anos 1990. Naquele tempo, o prazer de ler estava na trama, não é como agora, que é só a questão da lacração pura e simples”, diz ele. Por lacração, ele entende quadrinhos que privilegiam muito mais a questão identitária do super-herói do que o enredo em si. “Hoje em dia é tudo baseado em se o herói é gay, negro, não-binário, indígena, muçulmano, e assim por diante. A gente não é anti-minorias, mas achamos que não é assim que se faz um bom HQ”, afirma. Um exemplo recente, diz ele, é uma versão lançada pela Marvel do Capitão America gay. “Não dá para pegar um símbolo da cultura mundial como esse e mudar transformar em bandeira política”, diz. Outros títulos da editora seguem esse mesmo padrão. Um dos carro-chefes é o Doutrinador, um vigilante que começou combatendo corruptos e depois ampliou seu foco para ameaças mais contemporâneas. Sua última aventura é contra o vírus vermelho, vindo, obviamente, da China. O Doutrinador acabou virando filme, série de TV (no canal TNT Series) e chegou até ao Japão, Coreia do Sul e França. Há ainda projetos como uma história sobre as proezas do Tenente Bravo, um herói da FEB (Força Expedicionária Brasileira) que lutou na Segunda Guerra Mundial, e o resgate de figuras históricas que se tornaram alvos preferenciais dos progressistas nos últimos anos, como os bandeirantes e expoentes do período colonial. Uma HQ prevista retrata uma figura real, João Ramalho (1493-1580), explorador português que viveu entre os índios tupiniquins. “É um personagem histórico fantástico, que foi perseguido em Portugal, fugiu e chegou ao Brasil após um naufrágio. Se fosse nos EUA, já teriam feito vários filmes dele”, afirma Cunha. Outro HQ histórico em gestação tem como protagonista o coronel baiano Francisco Dias Coelho (1864-1919). “É o primeiro coronel negro do Brasil. É esse tipo de personagem que a gente quer ressaltar, um negro que não tem vitimismo nenhum”, diz. Cunha trabalha com quadrinhos desde os 16 anos. Desenhou gibis conhecidos, como O Menino Maluquinho e trabalhou também em jornais e agências de publicidade. Também teve uma editora com um amigo, resultado do sucesso do Doutrinador. Como o amigo só queria saber de “lacração”, tiveram um desentendimento e ele saiu para montar a Super Prumo, onde atualmente se dedica mais a roteirizar histórias e contar com o trabalho de diversos designers, responsáveis pelo grafismo. “Eu tinha certeza que haveria público cativo para uma editora com perfil conservador no Brasil”, afirma ele. As tiragens geralmente têm 2.000 exemplares, embora Destro tenha tido uma reimpressão que a dobrou. O exemplar capa dura custa R$ 63, e o tradicional sai por R$ 44,90. Muitos dos projetos são custeados por meio de crowdfunding. As HQs são vendidas apenas pela internet, e podem ser adquiridas pelo site da editora (https://www.superprumo.com/portfolio). Como acontece com muitos na direita, Cunha se descobriu conservador há relativamente pouco tempo. Em 2016, causou burburinho entre amigos ao desenhar o Doutrinador dando um soco no ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “Eu era super de esquerda, de andar com camisa do Che [Guevara]. Mas a gente amadurece’, diz.