Hello Kitty e Gatinha da Cracolândia: por que espanta mulheres criminosas?

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As traficantes Nayane Nazareth, a Hello Kitty, e Lorraine Romeiro, a Gatinha da Cracolândia (Foto: Reprodução/Rede Social)
As traficantes Nayane Nazareth, a Hello Kitty, e Lorraine Romeiro, a Gatinha da Cracolândia (Foto: Reprodução/Rede Social)

Nas últimas semanas, duas notícias envolvendo mulheres criminosas ganharam espaço na mídia. A primeira foi a morte da traficante Nayane Nazareth, a Hello Kitty, em uma operação policial no Rio, aos 21 anos. A segunda foi a prisão de Lorraine Romeiro, a Gatinha da Cracolândia, por tráfico de drogas, aos 19. A pergunta que fica é por que tanto espanto ao ver mulheres envolvidas no crime?

"Não se associava a figura feminina à criminalidade, a não ser aos chamados crimes domésticos, de paixão. É o rompimento de um arquétipo cultural secular. Na nossa sociedade patriarcal, a mulher é atrelada à domesticidade, à obediência. Já o homem está vinculado à agressividade, ao mundo externo. A mulher que transgride rompe esse padrão. Daí o espanto", explica a socióloga e cientista política Jacqueline Pitanguy.

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Mulheres e o tráfico

Além da transgressão, casos como o da Hello Kitty e o da Gatinha da Cracolândia apontam na mesma direção: o aumento cada vez maior de mulheres no tráfico. Segundo Jacqueline, pesquisas sobre a população carcerária feminina indicam que mais de 60% das presas foram detidas por causa do envolvimento com o tráfico de drogas.

Há poucas visitas e muita solidão em um presídio feminino

Ainda que as histórias de Nayane e Lorraine mostrem a mulher ocupando um espaço no qual se viam homens majoritariamente, a lógica patriarcal ainda está presente fortemente.

"Pelo que foi divulgado da história, a Nayane era o braço direito do pai. A Lorraine teria começado a traficar por influência do companheiro. Nos dois casos, elas entraram para o tráfico de drogas pelo envolvimento com homens. Permanece um padrão patriarcal, no qual homens exercem posições de poder sobre mulheres", afirma Jacqueline.

"Escudo"

A socióloga destaca o fato de muitas serem usadas como "escudo". "No crime, as mulheres são usadas pelos homens como buchas de canhão, sendo colocadas nas funções mais vulneráveis."

No fim, o que parecia incomum – mulheres se destacando em atividades criminosas – ainda guarda uma grande semelhança – com questões de subalternidade que afligem as mulheres no dia a dia, em outras esferas da vida.

O peso da classe e da raça

Jacqueline também chama a atenção para o desfecho diferente para Hello Kitty e para a Gatinha da Cracolândia e uma provável relação com a condição social e a etnia de ambas. Enquanto a primeira vinha de uma família humilde, a segunda é branca, originária de uma família de classe média.

"A Lorraine vai ter a chance de resolver na Justiça. Já a Nayane não. Os fatores raça e classe social fazem diferença sim", arremata Jacqueline.

Na prisão, a situação da mulher continua desfavorável em relação a do homem. "Grande parte das mulheres que são presas são abandonadas pelos companheiros, pela família. Há poucas visitas e muita solidão em um presídio feminino", finaliza a socióloga e cientista política.

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