Única 'vacina' contra o coronavírus hoje é o isolamento social, diz Helena Sato

A pediatra Helena Sato, 61, trabalha há três décadas no controle de epidemias no sistema público de saúde em São Paulo. Para ela, que está acostumada a combater surtos de sarampo, febre amarela e influenza, o que o novo coronavírus trouxe é assustador. “Nunca vi um aumento de casos e tamanha velocidade de dispersão de um vírus como este. É uma situação inusitada e desafiadora para todos nós”, diz, em entrevista ao HuffPost Brasil.

Com vasta experiência no campo da imunização, a médica ocupa o cargo de diretora do Centro de Vigilância Epidemiológica do estado e coordena uma equipe pequena, mas, segundo ela, “grande” em empenho, que está se esforçando para monitorar e traçar um perfil do caminho seguido pela covid-19 em todo o estado. Para isso, ha três diretrizes: tempo, espaço e pessoa. 

″É preciso conhecer a velocidade da infecção, onde ela está infectando, e quem são os grupos de risco – para que a gente saiba quem ele é e possa combatê-lo. E por mais que a gente tenha toda a tecnologia no momento, diante deste novo vírus, ela também precisa de tempo”, explica.

Em 25 de fevereiro de 2020, foi registrado o primeiro caso na cidade de São Paulo. Em 17 de março, a primeira morte. Em menos de três meses, o estado se tornou o epicentro da doença no Brasil e se mantém neste lugar desde o início da pandemia. Dados divulgados nesta sexta-feira (22), contabilizam 5.773 óbitos pela covid-19, com 215 novas mortes confirmadas nas últimas 24h. São 76.871 os casos confirmados no estado. A taxa de ocupação dos leitos de UTI reservados para o atendimento da doença é de 74,7% no estado e 91,4% na grande SP. 

Nunca vi um número de mortos tão alto em um prazo tão curto. Por isso que eu te digo: a esperança hoje é ficar em casa. Helena Sato, diretora do Centro de Vigilância Epidemiológica do Estado de São Paulo.

"Eu trabalho na saúde pública há 30 anos, e não me lembro de ter visto episódios como esses de pessoas negando a ciência", diz Helena Sato. (Photo: Luis Blanco/A2IMG)

São Paulo é o epicentro do Brasil, mas o País é considerado o mais preocupante em número de casos na América Latina, de acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde). Dados mais recentes do Ministério da Saúde, apontam 330.890 casos confirmados, o que coloca o País como o 2º com mais casos de covid-19 no mundo, ficando atrás apenas dos Estados Unidos, segundo a contabilização feita pela Universidade Johns Hopkins (EUA).

Só nesta semana, o País registrou, por 3 vezes, um aumento de mais de 1.000 mortes confirmadas em 24h. Na Itália, onde se desenvolveu um dos cenários mais dramáticos da pandemia, o pico havia sido de 919 mortes confirmadas em 24 horas, no fim de março.

Hoje, o mundo se junta em uma urgente corrida para desenvolver a vacina contra a covid-19, que pode levar de 12 a 18 meses para ser produzida e anos até que todos os testes de segurança e eficácia sejam realizados. “Se hoje você me perguntar: ‘Helena, as vacinas que já foram testadas são eficazes?’, eu te respondo que não dá para dizer. Os estudos estão sendo desenvolvidos em várias partes do mundo, mas não dá para fazer uma previsão no momento.”

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Para a especialista, a melhor vacina que temos no momento é o isolamento social. “Eu, que trabalhei tantos anos na área de imunização, sei muito bem que isso [a vacina] demora (...). O que nós temos são as ações de vigilância epidemiológica. A vacina que nós temos no momento é o isolamento social. Eu sempre digo… é tudo pela vida, né? A gente tem que proteger vidas. E o modo de fazer isso é falar para a população ficar em casa.”

Sobre o Ministério da Saúde ter flexibilizado o uso da hidroxicloroquina, medicamento utilizado para o combate da malária e doenças autoimunes como lupus, a médica prefere não comentar diretamente, mas diz que “quem responde é a ciência”. “Ainda não há estudos para dizer que todas as pessoas com infecção pelo novo coronavírus tem que tomar (...). Eu não vejo como positivo liberar de modo indiscriminado essa medicação.”

O ministério ampliou, na última quarta-feira (20), a recomendação de uso do remédio para tratamento da covid-19, embora não haja comprovação científica de sua eficácia para combater o novo coronavírus, ao mesmo tempo que há indícios de que esta substância aumenta o risco de problemas cardíacos. 

Davi Uip (à esq), Helena Sato e Alberto Nakamura em coletiva de imprensa sobre o primeiro caso de coronavírus em São Paulo, em fevereiro de 2020. (Photo: Sergio Andrade/Governo de São Paulo)

Acostumada a lidar com o público e a estar na linha de frente no combate de epidemias, Sato assumiu, no final de março, a coordenação-geral do Centro de Contingência do novo coronavírus no estado no lugar do médico infectologista Davi Uip, que testou positivo para covid-19 e entrou em quarentena à época. “Ele [Davi Uip] é uma pessoa que nos escuta, que trabalha em conjunto. Essas qualidades são muito importantes em um gestor e, principalmente, em um momento como esse, junto com o conhecimento científico, que é um guia.”

Em abril, Uip reassumiu as atividades e Sato voltou a se dedicar apenas à direção do centro de vigilância epidemiológica. 

Trabalhando intensamente desde que o vírus chegou ao País, a médica, que prefere não se aprofundar na tensão política em torno da gestão da pandemia, diz que, neste momento, “está enfrentando uma dor”. “A ciência está tentando acompanhar [a evolução e a rapidez do vírus] e a gente está enfrentando uma dor. Eu não sei te explicar. É doído você falar de uma doença que, no prazo de dois, três meses, infelizmente fez com que 5 mil pessoas viessem a falecer. São vidas. São pessoas que tinham família.”

Leia a entrevisa completa:

HuffPost Brasil: Há pelo menos três décadas a senhora trabalha controlando epidemias no serviço público, em São Paulo. A crise provocada pelo novo coronavírus é a maior que a senhora já enfrentou?

Helena Sato: Sim. É o nosso maior desafio. É também o maior desafio do SUS e um dos maiores desafios da saúde pública no Brasil. Por que? Estamos diante de um vírus que começou a circular na China em dezembro do ano passado. E, em menos de dois meses, tivemos o primeiro caso em São Paulo. Agora, estamos em maio e já ultrapassamos a linha dos 5 mil mortos no estado. Este vírus está circulando no mundo há quatro meses em uma velocidade impressionante. Nesses 30 anos, eu nunca vi um aumento de casos e tamanha dispersão de um vírus como este. É uma situação inusitada e desafiadora para todos nós. Nós não temos uma vacina específica para ela: o que nós temos são as ações de vigilância epidemiológica. A vacina que nós temos é o isolamento social. Eu sempre digo… é tudo pela vida, né? A gente tem que proteger vidas. E o modo de fazer isso é falar para a população ficar em casa - e falo isso porque o isolamento ele também é importante para criar condições seguras para aqueles que precisem são impedidos de ficar em casa por conta do trabalho.

A senhora falou sobre o isolamento social como ‘uma vacina’ no momento. Mas, na sua visão, há alguma perspectiva de quando teremos uma vacina de fato, segura e com imunização garantida? 

Neste momento, a saída que nós temos para uma pandemia como essa, com a tamanha dispersão do vírus, é, sim, o isolamento social – e, em seguida, a vacina. Eu não digo que essa vai ser a única salvação, mas ela é uma medida muito importante para que a gente contenha a dispersão do vírus. Para que a gente evite que pessoas infectadas fiquem doentes e tenham complicações, necessitem de leitos - e venham a falecer por falta de acesso ao sistema de saúde. A gente torce, sim, por uma vacina. Se hoje você me perguntar: “Helena, as vacinas que já foram testadas são eficazes?”, eu te respondo que não dá para saber. Sabemos muito pouco. Não temos estudos aprofundados no momento. Mas torcemos para que seja um produto que possa passar para as fases finais de estudo [que envolvem humanos e testes às cegas, com placebo e são apelidadas de “fase de ouro”, por especialistas da área]. 

Eu que trabalhei tantos anos na área de imunização sei muito bem que isso demora. Mas é do meu jeito ter esperança. Que seja uma vacina de qualidade, segura, e que possa ser liberada o mais rápido possível para todos. Enquanto isso, a gente precisa lidar com uma pandemia que se alastrou pelo mundo. Nunca vi um número de mortos tão alto em um prazo tão curto. Por isso que eu te digo: a esperança hoje é ficar em casa. A gente sabe o quanto é difícil, que implica em uma série de questões – mas ficar em casa é proteger a nós mesmos e aos outros. 

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Somos educados para fazer a melhor escolha diante daquilo que se apresenta para nós – e a ciência é uma aliada nisso, ela aponta qual é a melhor escolha a fazer. Helena Sato, diretora do centro de vigilância epidemiológica do Estado de São Paulo.

Governo de São Paulo inaugurou em 20 de maio o hospital de campanha em Heliópolis, na Zona Sul.  (Photo: Sipa USA via AP)

Especialistas dizem que a humanidade estava mais preparada há 100 anos do que hoje para combater a pandemia, mesmo com a evolução da tecnologia e da ciência. A que se deve esse despreparo que é apontado? Há um retrocesso da sociedade no que tange a informação de saúde e práticas de prevenção?

É uma boa pergunta essa, e eu te digo que não tenho a resposta pra ela. Mas tenho algumas reflexões: Por que ocorreu essa pandemia? O que fez um vírus, com tamanha virulência, se espalhar assim tão rapidamente? Eu não tenho o conhecimento aprofundado, mas sei que ele é muito mais rápido do que foi a gripe espanhola, por exemplo. Será que o desequilíbrio que há no meio ambiente tem influência nisso? O que há no nosso dia a dia que pode ter, de certa forma, influenciado a disseminação do vírus? O que pode ter ocorrido com o coronavírus – que é um vírus que a gente já conhecia, mas que agora está diferente e muito mais agressivo? Enquanto a gente não tem as respostas, os epidemiologistas trabalham para apontar quais são as melhores medidas para conter essa situação e monitorar em que locais precisamos agir. Tudo o que está acontecendo hoje é muito desafiador para nós.

Como você vê a cruzada anticiência e o negacionismo de governantes e de parte da população? De que forma isso acaba comprometendo o combate ao coronavírus e a adesão aos tratamentos comprovados pela ciência?

Primeiro, assim: é a ciência, gente. Não dá para negar a ciência. Nós estamos no século 21. Está comprovado que ela serve ao bem de todos. Só chegamos onde estamos, com uma sociedade conectada, informada, tecnológica, por causa dela. Mas tem gente que nega, que prefere se prender ao passado. Nós somos seres humanos e temos que exercer a escolha. Somos educados para fazer a melhor escolha diante daquilo que se apresenta para nós – e a ciência é uma aliada nisso, ela aponta qual é a melhor escolha a fazer. Mas pessoas que usam a ciência para pensar na pior escolha… Isso não é ciência. Fazia tempo que eu não via passeatas na [avenida] Paulista deste tipo, de gente que não acredita na ciência. Essa gente aprende também com a vida.

Hoje, com o conhecimento que temos em relação a essa medicação, não dá para garantir nem segurança, nem eficácia. Isso quem diz é a ciência. Helena Sato

O Ministério da Saúde ampliou, nesta quarta-feira (20) a recomendação de uso da cloroquina para tratamento da covid-19. (Photo: ASSOCIATED PRESS)

Como a senhora se sente ao ver profissionais da saúde sendo xingados e, eventualmente, agredidos? A senhora chegou a sofrer algum tipo de ataque por estar na linha de frente?

Não sofri pessoalmente nenhum tipo de ataque. Mas, independente disso, eu fico triste. Eu trabalho na saúde pública há 30 anos, e não me lembro de ter visto episódios como esses de pessoas negando a ciência. Eu não me recordo de momentos como esses – ou de pessoas ou de linhas de pensamento negando a ciência da forma como existe hoje. Nesse tempo todo de trabalho na área de imunização, eu vivi e refleti muito sobre como é importante o avanço da ciência. Sobre quantas pessoas deixaram de ter paralisia por conta da vacina da pólio, quantas deixaram de morrer por causa da vacina do sarampo. Quer coisa mais fantástica do que a vacina contra o HPV, que previne o câncer de colo do útero, uma das maiores causas de morte entre as mulheres? Na área da saúde a gente vê o quanto é importante o conhecimento, a ciência, o nosso trabalho. A gente tem que ter esperança no conhecimento. Ela mora nele.

Nesse ponto, há um embate político ligado à cloroquina e à hidroxicloroquina. De que forma as tensões e o embate político estão prejudicando a tentativa de combate ao vírus no Brasil?

A gente sabe que a esse medicamento não é 100% eficaz. Pelo contrário, ainda não há estudos suficientes para dizer que todas as pessoas com infecção pelo novo coronavírus tem que tomar a hidroxicloroquina.

A ciência nos aponta, por meio de testes e experimentos, o que é melhor a fazer com dados e informação, seja em vacinas ou em medicamentos como esse. Existem algumas regras na ciência que sinalizam o que é melhor. Na epidemiologia nós costumamos dizer que há três coisas muito importantes: tempo, espaço e pessoa. É preciso conhecer a velocidade da infeção, onde ela está infectando, e quem são os grupos de risco – para que a gente saiba quem ele é e possa combatê-lo. E por mais que a gente tenha toda a tecnologia no momento, diante deste novo vírus, a ciência também precisa de tempo.

Se antes ele [coronavírus] pegava as classes mais favorecidas, hoje ele não vê mais classe social. Todas estão sendo acometidas. Helena Sato

Moradores de Paraisópolis, uma das maiores favelas de São Paulo, exigindo que o governo do estado prestasse mais atenção às favelas da pandemia da covid-19. (Photo: ASSOCIATED PRESS)

Na sua visão, o governo federal está errando ao flexibilizar o uso deste medicamento?

É a ciência que diz o que está certo e errado. O que a ciência diz? O que é o certo é que qualquer produto – quer seja vacina, quer seja medicação – tem que passar não só por testes de segurança, mas por testes de eficácia. Hoje, neste momento, nós não temos estudos que avaliam que este produto é eficaz. Então, não dá para ficar liberando, assim, sem um estudo que aponte um mínimo de eficácia dessa medicação. Eu não vejo como positivo liberar de modo indiscriminado essa medicação. 

Hoje, com o conhecimento que temos em relação a essa medicação, não dá para garantir nem segurança, nem eficácia. Isso quem diz é a ciência. A ciência está tentando acompanhar, e a gente está enfrentando uma dor. Eu não sei te explicar. É doído você falar de uma doença que, no prazo de dois, três meses, infelizmente fez com que  5 mil pessoas viessem a falecer. São vidas. São pessoas que tinham família. 

A senhora viu de perto a ação da doença? Esteve em alguma UTI?

Não, não. A gente trabalha para que isso [as mortes] não ocorra. Mas tenho amigos que trabalham na linha de frente e cada vez que a gente recebe notícias que alguém mais próximo ficou doente é uma dor no coração. Eu acho que a gente que trabalha com vigilância, prevenção, pede para as pessoas ficarem em casa... Esse lado da emoção, ele existe. Por mais que às vezes a gente não demonstre, o nosso dia a dia não é fácil. Mas temos que ir em frente. Essa é a fase. E com conhecimento e serenidade. Neste momento isso é primordial. E eu quero deixar claro: isso é fruto de um grande trabalho de uma grande equipe. O SUS é muito importante. Se antes ele [coronavírus] pegava as classes mais favorecidas, hoje ele não vê mais classe social. Todas estão sendo acometidas. E eu repito: a nossa vacina é ficar em casa.

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