Não é sobre Harry Potter: J.K. Rowling está perpetuando ideias transfóbicas

Marcela De Mingo
·6 minuto de leitura
NEW YORK, NEW YORK - DECEMBER 11: J.K. Rowling attends the premiere of "Finding the Way Home" at Hudson Yards on December 11, 2019 in New York City. (Photo by Taylor Hill/FilmMagic)
Questionar a responsabilidade social de J.K. Rowling é importante para entender a polêmica envolvendo comentários transfóbicos (Foto: Getty Images)

Não há como negar que os livros de J.K. Rowling marcaram uma geração. Afinal, Harry Potter não tem tantos fãs à toa - e já se mostrou uma história atemporal. Isso claro, se deixarmos de lado os comentários pós-fim da trama feitos pela autora, que tem gerado polêmica atrás de polêmica nas redes sociais nos últimos meses.

Baixe o app do Yahoo Mail em menos de 1 minuto e receba todos os seus e-mails em um só lugar

Siga o Yahoo Vida e Estilo no Google News

Siga o Yahoo Vida e Estilo no Instagram, Facebook e Twitter

A confusão mais recente diz respeito ao seu novo livro, chamado ‘Troubled Blood'. Lançado sob o pseudônimo Robert Galbraith, conta a história de um serial killer cis que se veste de mulher para cometer feminicídios. Não à toa, ativistas do movimento LGBTQIA+ se manifestaram, principalmente no Twitter, chamando atenção para a contínua transfobia demonstrada pela autora.

Segundo a mídia internacional, especificamente o jornal britânico The Telegraph, o questionamento principal era o que o público acharia de um livro que parecia deixar uma única mensagem: "nunca confie em um homem de vestido". Considerando que a autora é um dos tópicos mais comentados nas redes sociais desde segunda-feira (14), já é possível saber (muito bem) o que o público pensa.

Leia também

Esta não é a primeira vez que Rowling deixa clara a sua posição em relação às pessoas trans e travestis - e chegou a ser contestada pelos atores que deram vida aos seus personagens mais famosos no cinema, Emma Watson, Daniel Radcliffe e Rupert Grint. Sem perspectiva de mudar de ideia, o questionamento em relação à autora passou a ser outro. Não é mais sobre "quem escreveu Harry Potter", como brinca os usuários do Twitter, mas sobre quem apoiamos, inclusive financeiramente.

O Brasil é um dos países que mais mata pessoas trans no mundo inteiro. E só em 2020, os números são assustadores: de acordo com um boletim liberado pelo Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) na última semana, foram assassinadas entre janeiro e agosto deste ano 129 mulheres transexuais e travestis. É o período com o maior número de mortes desde 2017 - isso considerando o fato de que estamos no meio de uma pandemia de coronavírus, em que a recomendação é o isolamento social. O número, inclusive, superou o total de assassinatos em todo o ano de 2019, quando a Antra contabilizou 124 mortes.

Como é comum com a internet, parece que comentários como os de Rowling não têm efeito algum, mas é o ponto de partida para casos extremos como os assassinatos que vemos nos noticiários. Este ano, vimos a importância de questionar o papel dos influenciadores que insistiam em agir como se nada estivesse acontecendo quando uma pandemia se desenrolava do lado de fora. Aqui, o questionamento deve ser o mesmo.

Qual o impacto de uma mulher branca, cis, bilionária, com influência global, tem ao fazer comentários transfóbicos na internet? Qual a responsabilidade social que ela tem, quando milhares de pessoas são impactadas pelos seus livros, mas não necessariamente aprendem sobre questões de gênero e sobre sexualidade e se inspiram no que ela fala?

A questão, como muitos ativistas travestis e trans reforçaram no Twitter não é invalidar a importância que obras como Harry Potter tiveram na infância de centenas de milhares de crianças e adolescentes. Mas questionar até que ponto é válido colocar panos quentes sobre as visões de alguém tão influente em um mundo que, cada vez mais, busca igualdade no tratamento entre as pessoas e o fim da violência gerada pela intolerância e o preconceito.

Se você não entendeu a polêmica como um todo, aqui vai um pouco de contexto do porquê os comentários da autora são problemáticos. Pessoas trans são aquelas que nasceram com um gênero biológico designado (masculino ou feminino), porém não se identificam com ele. São homens que não se veem como homens ou mulheres que não se veem como mulheres em um nível profundo, estranham a sua fisiologia e buscam tratamentos hormonais e até cirurgias para adaptar o corpo à sua identidade de gênero.

Travestis são aqueles que investem em roupas e até tratamentos hormonais para se assemelhar à um gênero diferente do biológico, mas não necessariamente sentem incômodos em relação à própria fisionomia a ponto de buscarem cirurgias de redesignação sexual.

Ou seja, quer ironizando artigos que falam sobre “pessoas que menstruam” (uma válida tentativa de incluir homens trans e pessoas não-binárias, além das mulheres), quer escrevendo sobre um assassino que se veste de mulher para cometer seus crimes, o que a autora faz é excluir trans e travestis de sua narrativa, de forma que ou elas não são reconhecidas por serem quem e como são ou são marginalizadas e vistas como criminosas (o que é comum quando se fala em travestis). Qualquer que seja o caso, Rowling perpetua ideias que são, sim, geradoras de exclusão social e violência.

Por mais que seja autora de uma obra tão querida por muitos, há um momento em que é preciso questionar o quanto é válido continuar defendendo e apoiando uma pessoa que faz questão de excluir parte da população de suas narrativas e até de sua visão de vida como um todo.