O Oscar de 'Hair Love' e o período em que não consegui amar o meu cabelo

(Jordan Strauss/Invision/AP)

A vitória de 'Hair Love’ como Melhor Curta Animado no Oscar de 2020 é, antes de tudo, um grito de afirmação preta em uma premiação tão embranquecida (até então, apenas 2% das estatuetas foram para profissionais negros).

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Mas, além de ecoar como uma voz de resistência para uma indústria hegemonicamente pálida e (sim) racista, o filme de Matthew A. Cherry tem uma mensagem muito potente para nós negros: “a autoestima é libertadora”.

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O curta, que mostra um pai aprendendo a arrumar o cabelo crespo da filha, me remeteu à minha infância, na década de 90, quando o mercado de cosméticos ainda não sabia que pessoas negras penteavam ou até mesmo lavavam o cabelo (pasmem, em 2020 ainda tem gente que pergunta se meu cabelo molha ou se é à prova d’água).

“Apenas um pouco de trabalho e um montão de amor” é a frase da mãe da protagonista de ‘Hair Love' que resume as longas horas que eu passei na varanda de casa com o cabelo coberto com máscaras de hidratação caseiras que levavam babosa, abacate ou banana amassada.

Depois de enxaguar a mistura, que algumas vezes continha ovos, minha mãe pegava um pente de dentes largos e, com todo o amor, desembaraçava cada mecha. Por fim, prendia meu crespo com pequenos elásticos coloridos que faziam eu me sentir divertida.

Mas, naquela época, só o amor de pai e mãe não bastavam. Porque a sociedade nunca nos viu como belos. Ir pra aula ou para o shopping com o cabelo solto só virou uma opção quando, mais ou menos aos oito anos, conheci a química, para “amaciar” os cachos e fazer com que eles crescessem para baixo, como o das meninas brancas.

Segundo Cherry - que se inspirou em vídeos recentes postados nas redes sociais de pais negros cuidando do cabelo de suas filhas - “Hair Love” surgiu do desejo dele e da produtora Karen Rupert Toliver verem “mais representatividade nas animações e normalizar o cabelo negro”.

Se eu e outras milhares de meninas negras tivéssemos assistido 'Hair Love’ na infância, possivelmente não teríamos sucumbido a um padrão de beleza branco que nos escravizou com guanidina, sódio, pasta americana e outros produtos químicos alisantes.

Felizmente (ainda que a passos curtos), a minha geração acordou e fez da transição capilar não apenas exercício de autoestima, mas um ato político. Resgatamos o amor que os nossos ancestrais tinham não apenas pelo cabelo crespo mais por toda e qualquer estética negra. E a nossa resistência, olha só, está virando filme e ganhando Oscar.

Siga Luciana Pioto no @pretatambem