Há 25 anos, Roda Viva com Maluf debatia 'polêmicas' como cinto de segurança e lei anti-fumo; em 2045, do que teremos vergonha?

João Conrado Kneipp
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Em 1995, Maluf debatia a necessidade de se proibir cigarros nos restaurantes de São Paulo. (Foto: Reprodução/YouTube)
Em 1995, Maluf debatia a necessidade de se proibir cigarros nos restaurantes de São Paulo. (Foto: Reprodução/YouTube)

Um vídeo com trechos de uma entrevista de Paulo Maluf, então prefeito de São Paulo, ao programa Roda Viva voltou a viralizar nas redes sociais, nesta quarta-feira (2). Há 25 anos, em outubro de 1995, quando o programa foi ao ar, o centro do debate era um “polêmico” decreto anti-fumo editado por Maluf que proibia o consumo de cigarros nos restaurantes paulistanos.

O apresentador e editor do jornal Folha de São Paulo, Matinas Suzuki Jr., abre a discussão perguntando ao prefeito se a medida não era “exagerada” e “radical demais”.

“Não, não acho que exagerei”, diz Maluf, certeiro, explicando, o que hoje é óbvio, o incômodo provocado pela fumaça do cigarro naqueles que não fumavam e compartilhavam o mesmo ambiente.

A bancada — formada inclusive por não-fumantes — apela para a ginástica argumentativa para tentar mostrar ao prefeito que o veto, para os anos 90, estava à frente demais do seu tempo.

Cogita-se, por exemplo, a contratação de garçons tabagistas para atender aos clientes fumantes, ou mesmo a abertura de restaurantes exclusivo para fumantes.

Em certa altura, Nirlando Beirão, então editor-sênior da Revista Playboy (quer algo mais anos 90 do que a Playboy na bancada do Roda Viva?) afirma que vê em Maluf um certo “prazer em proibir as coisas” e “ditar normas de comportamento pessoal”.

“O negócio do cinto de segurança. Eu tenho que andar com aquilo me amarrando?”, e, ao ser informado que, sim, o cinto salva vidas, completa: “mas eu posso decidir sobre isso, não posso?”.

Imitando um tweet profético de Eduardo Cunha, Maluf dispara: daqui 10 ou 20 anos vocês vão ver que as pessoas vão rir daqueles que se suicidavam fumando.

Chegamos aí ao ponto mais surrealista da conversa. Tirando, claro, o fato de Maluf aparentar ser a pessoa mais sensata nessa discussão específica. “Isso acaba com a ideia de que jornalista é intelectual”, disse-me um amigo jornalista, após ver o vídeo.

Caso alguém se interesse pela íntegra da entrevista:

Olhando de 2020, a conversa parece ter sido tirada de uma esquete de Hermes & Renato, ou do roteiro do famigerado Choque de Cultura, como disse o perfil que resgatou essa pérola jornalística.

Mas estamos mesmo tão longe assim de debates ilógicos?

É preciso lembrar que o presidente do mesmo país que hoje ri do debate anti-fumo prega a torto e a direito que é anti-vacinas, anti-máscaras, contrário ao distanciamento social, e que enfrentar a Covid-19 com essas medidas é coisa de “maricas”?

Esse mesmo presidente, que além de sapatear em cima de um suicídio para comemorar “vitória política” sobre um pretenso adversário à presidência em 2022, arrebanha seguidores em cercadinhos domesticando-os sobre o uso de remédios sem comprovação científica.

É ele também quem nega os dados da OMS de casos e mortes do novo coronavírus; quem nega os dados do INPE sobre queimadas e desmatamentos na Amazônia; e quem nega a existência de racismo no Brasil.

Por fim, e não menos importante, é ele e seus asseclas que questionam a inviolabilidade da urna eletrônica e retornaram com a desmiolada discussão do voto impresso. Mesmo ele e seus três filhos tendo colhido frutos e se beneficiado desse “frágil” sistema de votação durante toda a vida.

O ponto, no entanto, não é somente Jair Bolsonaro e sua agenda negacionista.

É o eco que ela encontra na sociedade, e como essas discussões saem das mesas de jantares e dos grupos de WhatsApp e passam aos salões das Câmaras Legislativas e dos gabinetes dos Executivos.

A proposta do jornalista do Roda Viva para a criação de restaurantes exclusivos para fumantes segue a exata lógica do decreto do governo federal que incentivava a criação de escolas e classes especializadas para pessoas com deficiência. A proposta foi suspensa nesta terça (1º) pelo ministro Dias Toffoli, do STF (Supremo Tribunal Federal).

Assim como a discussão de que é uma decisão pessoal a obrigatoriedade do uso de um item que comprovadamente salva vidas, seja o cinto de segurança ou uma máscara de proteção facial.

A deputada bolsonarista Bia Kicis (PSL-DF), por exemplo, é autora de um projeto de lei que desobriga o uso de máscaras para evitar a contaminação pela Covid-19. No texto, Kicis afirma que “não há evidências científicas para assegurar que o uso de máscara protege a população”.

Já a também deputada bolsonarista Caroline de Toni (PSL-SC) apresentou uma proposta que exige uso de máscara apenas por quem apresentar sintomas típicos da Covid-19 ou estiver em contato permanente com pessoa infectada.

Os dois projetos ainda não foram analisados e seguem em tramitação na Câmara.

A crença de que a máscara representa uma “focinheira ideológica” é repetida pelo deputado Daniel Silveira (PSL-RJ), que, por incrível coincidência, é também seguidor de Bolsonaro.

Em outubro, o parlamentar contou como um médico que desacredita a pandemia lhe ajudou a burlar a lei que obriga o uso de máscaras no Rio. No entanto, o inciso citado pelo deputado faz referência a PCDs (pessoas com deficiência), particularmente a pessoas autistas

Silveira é quem comanda a Frente Parlamentar Mista pela Contagem de Votos, lançada na Câmara no início deste ano, que é contra a apuração eletrônica e tenta negociar apoio para a volta do voto impresso.

Se em 2045 olharmos uma gravação da retrospectiva de 2020 — e tenho real pena de quem será responsável por fazê-la nas emissoras neste final de ano — do que vamos nos envegonhar de um dia ter debatido?