Há uma tendência autoritária no mundo todo, diz autor de peça na MITsp

GUILHERME HENRIQUE

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A respiração ofegante ganha cada vez mais espaço à medida que a peça transcorre. O microfone no centro do palco recebe palavras atropeladas, vindas de homens e mulheres que se revezam para contar histórias que não se completam, vítimas de uma sociedade refém da urgência.

Criada em 2015, "O que Fazer Daqui para Trás", do português João Fiadeiro, procura retratar uma espécie de sufocamento das artes e também social, diante do futuro incerto que compunha o panorama do país após as medidas de austeridade propostas pela união entre Banco Central Europeu, Comissão Europeia e Fundo Monetário Internacional.

"Muitas pessoas perguntavam o que fazer daqui para frente, como transformar aquela crise em uma nova realidade que tivesse a dinâmica e a força às quais estávamos habituados. Mas, para mim, o mais importante era sentir o que nós tínhamos de memória, afeto, e que estavam em perigo naquela crise. Eu quis suspender o tempo, não pensar em passado ou futuro, para mapear e traduzir uma sensação de falta de ar que atingia muitos de nós", conta Fiadeiro.

Ao longo do espetáculo, as performances de Adaline Anobile, Carolina Campos, Márcia Lança, Iván Haidar e Daniel Pizamiglio são influenciadas pela exaustão do corpo, uma espécie de confusão mental agravada pelo cansaço físico.

Correndo e falando, pensando e correndo. A urgência gera repetição, que cria um desequilíbrio. "A peça funciona como um loop. A partir do modo que a exaustão aumenta, as diferenças entre cada performer começam a despontar, mesmo que tudo pareça repetitivo", diz Fiadeiro. "Me interessa o discurso, a presença física que se revela nesse momento de cansaço extremo, porque é quando estamos em desequilíbrio."

As experiências corporais de Fiadeiro começaram ainda na década de 1980, quando o coreógrafo despontou num grupo que, mais tarde, ficaria conhecido como Nova Dança Portuguesa, herdeiro da dança pós-moderna americana e influenciado pelas escolas da Bélgica e da França. Formado também em Berlim e Nova York, ele foi bailarino na Companhia de Danca de Lisboa e no Ballet Gulbenkian.

Ao longo das últimas três décadas, Fiadeiro tem intercalado trabalhos teatrais com pesquisas que envolvem a sensibilidade e o afeto. "Existe algo que se perdeu, uma espécie de sensibilidade na relação com o outro. Estamos presos num cotidiano intolerante e com uma tendência autoritária em todo o mundo, então precisamos estar atentos", afirma.

Suas "formulações-situações", como ele as denomina, que na peça aparecem a partir da vivência que os atores tiveram fora do espetáculo, procuram reestabelecer um pacto com a verdade. "A palavra e o discurso carregam uma estrutura de poder. Sofremos com o modo como as palavras são abusadas, com as fake news e um discurso violento e manipulador em sua forma mais extrema. O resultado é a falência da palavra como tradutora de sensações e percepções", diz. "Nesse contexto, o corpo exausto, vulnerável, ganha o poder de criar empatia, de transparecer uma verdade que dificilmente pode ser manipulada."

No ano passado, Fiadeiro ajudou a organizar a exposição "Esboços de Técnicas Interiores", em Lisboa. A mostra é o primeiro olhar retrospectivo do trabalho e legado de Steve Paxton, coreógrafo americano que, nos anos 1970, criou a técnica do "contato-improvisação", baseado na exploração do corpo para criar movimentos a partir do improviso.

O QUE FAZER DAQUI PARA TRÁS

Quando: Sáb. (7), dom. (8) e seg. (9), às 19h

Onde: Teatro Cacilda Becker, r. Tito, 295, Lapa