Guta enfrenta Maria Bruaca e mostra limites da militância de discurso em "Pantanal"

Maria Bruaca (Isabel Teixeira) em Pantanal (Foto: Divulgação/TV Globo)
Maria Bruaca (Isabel Teixeira) em Pantanal (Foto: Divulgação/TV Globo)

Um diálogo entre Guta (Julia Dalavia) e Maria Bruaca (Isabel Teixeira) foi um dos pontos altos do capítulo mais recente de "Pantanal". Revoltada com a descoberta de que Tenório (Murilo Benício) tem outra família, Maria Bruaca mostrou bem o desequilíbrio de poder causado pelo machismo e a misoginia em famílias tradicionais, especialmente em dinâmicas nas quais a mulher foi ensinada a vida toda que virtude é obedecer o marido a todo custo.

"A essa hora meu pai deve estar lá com a outra família dele e a senhora sofrendo. O problema é que você não se queixa. Agora, você sabe de tudo, e nem isso está fazendo", disparou Guta, com desprezo. "Preferia ver você birrenta do que assim, desanimada". Chorando, Bruaca disparou: "É assim que eu sou, filha. Uma bruaca. Uma vida inteira casada, sendo fiel, sendo obediente, casta que diz, para ele além de ter outra mulher, botar três filhos macho nela. Nem pra isso eu vou prestar. Ele teve os três filhos varões que ele queria, tem uma outra lá para satisfazer os desejos dele, e tem ainda essa Bruaca aqui".

Em uma tentativa de "empoderar" a mãe, Guta respondeu: "E você vai continuar se submetendo? Olha só mãe, longe de querer justificar o mal que ele te fez, mas ele é o único que tem que carregar a responsabilidade pelos atos dele, não você". "Que responsabilidade, filha? O bicho homem pode tudo. E nós temos que ficar lá, abanando o rabo. Só quem peca nesse mundo, aos olhos de Deus, é a mulher", completou a personagem, em uma interpretação cheia de talento e melancolia de Isabel Teixeira.

A trajetória de Bruaca em "Pantanal" segue um modelo cada vez mais visto na televisão nos últimos anos: o da mulher que passou décadas submissa ao marido por violência e imposições sociais, mas que começa a tomar gosto pela liberdade após um trauma definidor. O que chama a atenção na cena, entretanto, é o roteiro dado à Guta, que mostra os limites de uma militância que não é orientada pela vida real e está mais preocupada com termos corretos do que empoderar verdadeiramente camadas da sociedade que não passam pela panfletagem de redes sociais.

Limites da personagem

Guta (Julia Dalavia) e Tenório (Murilo Benício) conversam sobre Zuleica (Aline Borges) e Maria Bruaca (Isabel Teixeira) em Pantanal (Foto: Divulgação/TV Globo)
Guta (Julia Dalavia) e Tenório (Murilo Benício) conversam sobre Zuleica (Aline Borges) e Maria Bruaca (Isabel Teixeira) em Pantanal (Foto: Divulgação/TV Globo)

Em um momento que rendeu piadas sobre a personagem, Guta se irritou com uma das consequências da decisão de Maria Bruaca de não aguentar mais os desmandos de Tenório. Revoltada com as traições do marido e a descoberta de outra família do pecuarista, a esposa se recusou a fazer a comida e mandou o peão levantar da mesa e esquentar a própria refeição.

Nesse momento, em vez de defender a mãe e entender que papeis de cozinhar e prover domesticamente para a família sempre foram impostos às mulheres pelo patriarcado, Guta olhou apenas para si e se irritou ao entender que teria que fazer a própria comida. Embora em outros momentos a jovem tenha defendido a mãe, esse momento é essencial na hora de compreender os limites de uma militância que fica apenas no papel e não é refletida na vida real da personagem.

Guta não parou para pensar nisso, mas a escravização da mãe nesse papel de empregada da família sempre a beneficiou diretamente, já que a jovem sempre teve tempo de fazer o que quisesse. Viajar, se divertir e estudar, enquanto Bruaca permanecia cuidando da estrutura doméstica. Guta só pensou em si porque a mãe nunca pensava nela mesma. Caso precisasse dividir as tarefas igualmente, a jovem dificilmente teria tido tempo para passear com Jove, conhecer a natureza do Pantanal e cuidar apenas de seu lazer.

Em outra cena emblemática da personagem, Bruaca fez seu primeiro passeio de barco ao lado de Alcides, e se emocionou ao ver a beleza do rio, o sopro do vento e as belezas pantaneiras. A personagem morou a vida toda no bioma, mas só após mais de 40 anos presa em casa pôde sair e desfrutar de algo que é completamente banal para jovens como Guta e Jove, que não enfrentam as mesmas dificuldades e amarras sociais que a geração de Bruaca.

Bruaca (Isabel Teixeira) e Alcides em passeio de barco na novela Pantanal (Foto: Divulgacão/TV Globo)
Bruaca (Isabel Teixeira) e Alcides em passeio de barco na novela Pantanal (Foto: Divulgacão/TV Globo)

Mulheres no campo

Em trabalhos como lavoura, colheita, plantações de grandes latifundiários e cuidados com os filhos, mulheres no campo tiveram seus direitos negados por décadas. Apenas recentemente o governo brasileiro começou a garantir a chegada da educação em locais mais remotos, e mesmo assim as aulas são majoritariamente voltadas para crianças. De acordo com dados do IBGE de 2021, apenas uma em cada dez mulheres brasileiras entre 15 e 29 anos continuou estudando após ter um filho. 48% largaram a escola sem terminar a educação básica. Muitas chegam ao fim da vida sem saber ler e escrever.

Apenas em 1986, aconteceu o primeiro Encontro Nacional de Trabalhadoras Rurais, em Brasília. Em 1995, foi criada a Articulação Nacional de Mulheres Trabalhadoras Rurais, e em 1997 o movimento Nenhuma Trabalhadora Rural Sem Documento garantiu a legalização do nome e do acesso a direitos sociais para mulheres que até então nunca tiveram direito de ter um RG ou um CPF. Em 2020, aconteceu a primeira Marcha das Margaridas, conseguindo que contratos e títulos de terra da reforma agrária estivessem sempre no nome do homem e da mulher, o que contribuiu para o acesso à terra, assistência social e diminuição da violência contra a mulher em espaços rurais.

Em um país dominado pela pecuária e o latifúndio, acesso à terra é equivalente ao acesso à vida. Iris Pacheco e Rosineide Pereira, integrantes da Direção Nacional do Movimento Sem Terra), pontuam que proibir mulheres, especialmente pretas, de terem direito a serem donas das terras nas quais trabalham é mais um capítulo do colonialismo extrativista. "A superexploração das mulheres negras no campo remonta ao período escravista colonial, onde estas eram vulneráveis à todas as formas de violência, principalmente a violência sexual". Em "Torto Arado", de Itamar Vieira Junior, são contadas histórias de filhos de pessoas pretas que foram escravizadas pela branquitude e até hoje trabalham em situações análogas à escravidão sem nunca chegarem perto de possuir algo parecido com a escritura de posse de um pedaço de terra.

Destino de Bruaca

Nesse contexto tão agressivo para a independência da mulher, Maria Bruaca tem razão ao afirmar que Tenório provavelmente nunca precisará se responsabilizar pelo mal que fez. Rico, latifundiário, branco e extrativista, o personagem é a personificação do vilão do agronegócio, algo que o ator Murilo Benício afirma que foi proposital.

"A primeira conversa que tive com o Bruno Luperi, autor de 'Pantanal', foi falar sobre machismo. Falamos sobre estes lugares, onde chegar com o Tenório. E eu falei para ele não segurar, não. Vamos mostrar sim. Pessoas como o Tenório ainda existem aos montes. Acho que vai ser uma boa forma de espelho para uma parcela de pessoas que não conseguiram evoluir deste lugar", explicou o ator para o "Gshow".

Embora o ar caricatural de Tenório dê o tom perfeito ao personagem em "Pantanal", o mesmo não se diz de Guta: embora a personagem tente mostrar o esclarecimento da nova geração e como a informação pode ajudar a libertar mulheres de amarras sociais, ficou faltando empatia para a jovem, que condena a mãe, mas não percebe que foi beneficiada, mesmo que involuntariamente, por essa estrutura social nociva.

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