Fetiche, caridade e amizade: tudo sobre o grupo onde homens pagam ifood para mulheres

Já pensou fazer amigos e ainda comer de graça? (Foto: Getty Images)

Por Laura Reif

Ficar todo o tempo dentro de casa pede por boas comidas para enfrentar o tédio, tanto que existe um grupo no Facebook dedicado a garantir comida para quem está em busca de um lanchinho da tarde. O "Grupo onde homens param ifood para mulheres" uniu a vontade de beliscar algo durante o dia com a possibilidade de conhecer pessoas e até realizar fetiches. Tudo começou em 17 de junho como uma brincadeira, mas até o momento em que a reportagem foi escrita, a comunidade já conta com 89.119 membros.

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Para participar do grupo privado é fácil, basta solicitar a entrada. Um dos oito administradores avalia se a pessoa é ou não maior de idade e aceita o novo membro. Passeando pelas publicações existem várias formas de pedir por um lanche ou encontrar uma pretendente disposta a ser mimada com comida. Homens anunciam que estão em busca de alguém para enviar uma refeição e até publicam imagens do extrato bancário para comprovar que a empreitada é legítima. 

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Mulheres em busca de um lanche também fazem solicitações como "Alguém para salvar a noite?" ou postando fotos do que gostariam de comer esperando que alguém se manifeste para saciar a vontade. Quem recebe a entrega, posta uma foto no grupo depois. Algumas vezes, a pedido dos pagantes, as mulheres que recebem os mimos divulgam os nomes deles, outras vezes preferem não se identificar. As postagens das fotos não são somente para alimentar fetiches, mas para brincar também.

"Gente, realmente deu certo! Pensei que era meme" são publicações comuns de quem entrou na brincadeira, fez um amigo e ainda ganhou um Burger King. Mulheres que bancam lanches para as amigas também são parte recorrente das postagens.

"Estava vendo um moço fazendo live e pedi para ele sortear ifood para as meninas da live, ele apenas negou. Como eu já tinha experiência em criar grupos aleatórios no Facebook, resolvi fazer isso", conta a dona do grupo, Carol Ribas, 19, que mora em Rolândia, no Paraná. 

Vai um fetiche para acompanhar?

Carol explica que a brincadeira ganhou um público bem variado com objetivos diferentes, além de beliscar comidas. Alguns buscam conhecer pessoas novas, fazer amizades e até desabafar. Outros ficam sensibilizados pela situação de algumas mulheres que pedem alimento pela falta de dinheiro. O grupo também chamou a atenção de fetichistas.

"Sejam homens que gostam de dominar/mimar, ou homens que gostam de meios de submissão. Sempre fazemos avisos de que existem pessoas aptas ao moneyslave/dominação financeira por muitas pessoas não conhecerem e exigimos respeito para cada tipo de membro existente no nosso grupo", enfatiza Carol, que não é praticamente de nenhum fetiche, mas passou a estudar por conta do grupo, já que precisa administrar as relações entre os membros.

Para tanto, ela criou posts fixos para os submissos se identificarem, por exemplo. Assim fica mais fácil cada um encontrar seu objetivo em um mar de quase 90 mil perfis. É só ter um pouco de paciência e ler todas as regras que, entre outras, incluem:

- Sua segurança é muito importante!

Tomem MUITO cuidado em divulgar suas informações. Optem pelo cartão presente do ifood ou transferências (pelo picpay é mais seguro) ou por transferência bancária.

Não passe seu endereço!

- Respeitem os membros

Não vai ser tolerado nenhum tipo de preconceito, xenofobia, machismo, racismo, lgbtq+fobia NADA e você será automaticamente banido.

- Não permitimos menores de idade

Como preservação, não permitimos de MANEIRA ALGUMA menores de idade, caso veja um no grupo, denuncie e marque a moderação.

- Não é um grupo de troca x coisa por ifood!

Não venha querer pedir nudes, fotos, ou qualquer coisa. É um grupo para HOMENS que sentem prazer em pagar comida e não que dá "condições" para tal coisa.

Após o devido estudo das regras, é hora de encontrar um pagante para ganhar um lanche de presente. A reportagem conversou com três homens, que tiveram os nome alterados para preservar as identidades.

Alexandre Moreira*, um homem educado que usa como imagem de perfil uma foto do personagem Coringa, da versão interpretada por Heath Ledger, conta que, aos 36 anos, é praticante do BDSM há 10.

No grupo há uma semana, diz que já encontrou diversas mulheres com fetiches em comum. No caso, ele é submisso, o que significa que gosta de ser mandado por uma mulher. Conversa vai, conversa vem, ele oferece um lanche para a reportagem. Nenhuma forma de contato ou endereço é solicitada, a transação de R$ 39,99 foi feita por TED, que caiu em pouco tempo. Em troca, ele perguntou se seria possível publicar a foto do lanche no grupo. Dito e feito. Ele retornou o contato: "Parece gostoso mesmo. Gostei do post, bem singelo."

Imagem do lanche recebido pela reportagem (Foto: Arquivo Pessoal)

O estudante de 20 anos Thiago Silva*, conta que entrou no grupo por ser adepto do fetiche de femdom, ou dominação feminina, "até o talo". Mas, por ser um rapaz tímido, ainda não conseguiu ter essa conversa com as mulheres que mimou. No caso, compartilham vídeos engraçados e o grupo até garantiu novas amigas para ele, ao ponto de revelar uma foto do rosto para elas. O avatar do submisso tímido é um personagem de um quadrinho japonês, GhostBlade. 

Um prato de solidariedade, por favor

Tem gente que está em busca de praticantes de BDSM, mas acaba mudando o foco ao encontrar outras histórias. Lucas Pereira é dominador e, para ele, a ideia de pagar algo para uma mulher não significa ser submisso, mas de dominar. Porém, recebeu diversas mensagens privadas de mulheres que perderam o emprego durante a pandemia e até vítimas de violência doméstica que tiveram que sair de casa às pressas e sem dinheiro. 

Em duas semanas no grupo, o dominador de coração mole já fez 12 transações com intuito de ajudar quem precisa. Foi além do lanche e pagou leite para um casal que precisava, e ajudou a alimentar uma mulher que enviou fotos com o rosto machucado após fugir do marido abusivo. Ele diz que toda hora é hora de lembrar de ajudar o outro. "Não gosto dessa palavra, 'lembrar', pois remete a esquecer e não deveríamos esquecer", explica. A reportagem desejou sorte para que ele encontre uma submissa para pagar um lanche, mas, enquanto isso, ele continua a mimar quem está realmente carente. 

O que é um fetiche?

A sexóloga e consultora em saúde e Educação Sexual Vanessa Inhesta, explica: "Fetiche é um desejo que pode ter cunho sexual ou não. Há mulheres que gostam de homens de terno, homens com uniforme, e isso é um fetiche. Não quer dizer que ela queira já transar com o cara, mas tem um desejo, uma fantasia sobre isso." 

"BDSM" é acrônimo para bondage e disciplina, dominação e submissão, sadomasoquismo e outros comportamentos sexuais derivados, como dominação financeira, polodatria e muitos mais que se encaixam em alguma dessas definições. 

"Tem pessoas que realmente se satisfazem recebendo dinheiro, pagando as contas em troca de uma submissão", explica e acrescenta: "Quando a gente fala sobre fetiche, ele tem esse cunho sexual, por isso muita gente acha que as pessoas que praticam são 'depravadas', porém todo mundo tem um fetiche."

No fim das contas, o "Grupo onde homens param ifood para mulheres" virou um espaço para ganhar lanches, ajudar o próximo, brincar, fazer amigos e realizar alguns fetiches de forma inofensiva e consensual. Como já diz o ditado: o que não mata, engorda.