Greve de sexo em "Pantanal" mostra realidade cruel e machista de mulheres no Brasil

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Juliana Paes é Maria Marruá em
Juliana Paes é Maria Marruá em "Pantanal" (Foto: Reprodução/Globo)

Uma cena de Maria Marruá, personagem de Juliana Paes, negando sexo ao marido no capítulo desta quarta-feira (30) em "Pantanal" (Globo) chocou alguns internautas. A mulher queria transar, mas o medo de engravidar depois de perder três filhos era muito maior. O marido ficou irritado e parte do público levou a sequência na brincadeira, questionando a falta de preservativos para que ela realizasse o desejo.

Nos comentários do Twitter, alguns telespectadores lembraram que a trama foi escrita por Benedito Ruy Barbosa originalmente em 1990 e, talvez por isso, métodos contraceptivos não foram utilizados. Infelizmente, porém, a personagem traz à tona o que ainda é realidade ao redor do Brasil. Maria Marruá representa mulheres que precisam apelar para a "greve de sexo" por falta de dinheiro, informação, tabus religiosos e mais.

A distribuição gratuita de preservativos masculinos pelo SUS foi iniciada somente em 1994, com o objetivo de prevenir a infecção pelo HIV e controlar a epidemia de outras doenças sexualmente transmissíveis. Além disso, é claro, evitar a gravidez não planejada. Ainda assim, 26 anos depois, as camisinhas não chegam com facilidade em muitos lugares do Brasil. Sem falar nos problemas corriqueiros de desabastecimento. Em 2018, por exemplo, unidades de saúde do noroeste paulista ficaram zeradas. Se em regiões mais afastadas faltam médicos, comida e saneamento básico, o que dizer sobre os preservativos?

A falta de informação também entra no combo. O conservadorismo atrelado a resistência pela educação sexual nas escolas contribui para que muitos jovens cresçam sem dar a devida importância ao preservativo e até mesmo sem conhecer as várias opções de métodos contraceptivos. Na maioria das vezes, a contracepção fica a cargo da mulher, o que explica a preocupação da personagem de Juliana Paes em "Pantanal" quando, na verdade, a responsabilidade de evitar a gravidez, levando em consideração os traumas do casal, também deveria ser do marido.

O machismo é tão forte que em 2022, ainda se fala em pesquisas para o desenvolvimento de anticoncepcionais masculinos que deveriam existir há muito tempo. Até aqui, apenas as mulheres sofrem com o desconforto e os efeitos colaterais das pílulas. Pensando em tudo isso, muitas desistem das relações sexuais com medo de engravidar ou pegar alguma doença, como é o caso de Maria Marruá. Há também as que acabam se arriscando para agradar o parceiro, o que não deixa de ser violento e cruel. Nos próximos episódios, inclusive, a personagem cederá aos caprichos do marido e acabará engravidando de Juma.

Mais que uma questão de acesso aos métodos contraceptivos, a "greve sexual", ou melhor, "abstinência sexual", passa por um projeto de governo e é mais atual que nunca. Em 2020, a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, iniciou a campanha “Tudo tem seu tempo: adolescência primeiro, gravidez depois” para incentivar os jovens a não fazerem sexo. A iniciativa foi vista como problemática e até mesmo uma imposição da doutrina evangélica. Muitos acreditam que a contracepção já seria um aborto.

As bancadas ruralista e evangélica são unidas e têm força no Congresso. Não é de hoje que seus parlamentarem tentam impedir que as mulheres tenham controle sobre seus corpos. Um exemplo disso é a própria discussão sobre a legalização do aborto ser um tabu. Não se pode tocar no assunto. Fica cada vez mais evidente que falar de "Pantanal", mesmo com um texto de 1990, é falar do Brasil atual em várias esferas e camadas.

Métodos contraceptivos

Entre as opções no mercado estão as já tradicionais camisinhas masculinas e femininas (que, vale lembrar, também evitam doenças sexualmente transmissíveis), as pílulas anticoncepcionais, o diafragma, o DIU (dispositivo intrauterino) de cobre ou Mirena. Há, ainda, métodos definitivos como a laqueadura e vasectomia.

DIU

DIU (Foto: Getty Images)
DIU (Foto: Getty Images)

Há dois tipos de DIU, que nada mais é do que um pequeno aparelho flexível colocado dentro do útero: os que contém cobre em sua composição e o Mirena, que contém hormônios (progesterona ou levonorgestrel). O Mirena dura cinco anos e durante seu uso a paciente geralmente não menstrua ou tem um fluxo bem reduzido. Já o DIU de cobre dura entre cinco e 10 anos e a mulher continua menstruando, podendo apresentar aumento do fluxo menstrual e cólicas.

De acordo com Adriana Bittencourt Campaner, gerente médica do Centro de Estudos e Pesquisas do SalomãoZoppi Diagnósticos em São Paulo, não são todas as mulheres que podem recorrer ao DIU.

“A contraindicação para o uso do DIU acontece em pacientes com as seguintes condições: gravidez confirmada ou suspeita, inflamação do colo do útero, sangramento genital de natureza desconhecida, infecção pós-parto ou pós-aborto, doença inflamatória pélvica atual ou recente, tuberculose pélvica, câncer genital ou pélvico e ainda para aquelas que possuem alguma alteração anatômica do útero”, explica.

Tabelinha

Há também os métodos comportamentais para prevenção da gravidez – o mais popular é o Ogino-Knaus, também conhecido como tabelinha, quando evita-se relações sexuais durante o seu período fértil. “Esse método não apresenta elevada eficácia. Para melhorá-lo, pode-se associar a outros métodos comportamentais, como o sintotérmico (análise da temperatura corporal basal - que é a temperatura de logo depois da pessoa acordar -, com observação do surgimento de secreções cervicais e outros sinais de fertilidade)”, analisa a dra. Adriana.

Preservativos (Foto: Getty Images)
Preservativos (Foto: Getty Images)

Outras mulheres, no entanto, preferem os métodos de barreira. É o caso da bióloga Fernanda Maria Franzin, 35 anos. “Parei de usar pílula por uma concepção pessoal de querer ter um controle natural sobre o meu corpo e o meu ciclo. O método que uso hoje é a camisinha, que além da gravidez previne também as doenças sexualmente transmissíveis”, revela.

Vale lembrar que a escolha do melhor método contraceptivo sempre deve ser conversada com o ginecologista. “Para cada método existem contraindicações determinadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS). As objeções são definidas pelo conjunto de características e histórico da paciente, que indicam se aquela pessoa pode ou não utilizar determinado método”, explica a dra. Adriana.