'Green Book - O Guia' fala sobre racismo de forma ingênua

(Imagem: divulgação Diamond)

Peter Farrelly, que construiu a carreira em cima de piadas consideradas grosseiras em filmes como ‘Quem Vai Ficar Com Mary?’ e ‘Debi & Lóide, agora quer falar sério. Em ‘Green Book – O Guia’, que chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, ele tenta tocar num assunto controverso, as tensões raciais típicas da sociedade norte-americana, com um viés água-com-açúcar. É até irônico que, num ano em que estão concorrendo ao Oscar outros filmes que passam pelo tema, como ‘Infiltrado na Klan’ e ‘Pantera Negra’, seja este (dirigido e escrito por brancos) o mais forte candidato ao troféu principal.

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O longa já ganhou o prêmio do público no último Festival de Toronto, o Globo de Ouro de melhor comédia e o prêmio do Sindicato dos Produtores como melhor filme. Foi indicado pela Academia em cinco categorias: filme, ator (Viggo Mortensen), ator coadjuvante (Mahershala Ali), roteiro original e edição.

A história é inspirada no caso real de Tony Vallelonga (Mortensen), um sujeito falastrão da comunidade italiana de Nova York, que durante os anos 60 arranjou um bico como motorista de Don Shirley (Ali), renomado pianista de jazz. A turnê do músico pelo sul dos Estados Unidos exigia um percurso especial, pois só podia parar em estabelecimentos que aceitassem a entrada de negros. Na época, a segregação racial ainda era comum em muitas partes do país.

Pelo contexto, o filme chegou a ser chamado de forma pejorativa de uma nova versão de ‘Conduzindo Miss Daisy’ (longa vencedor do Oscar em 1990), comparação que a equipe inteira rechaça em entrevistas, mas acaba sendo algo inevitável.

‘Green Book’ força um pouco a barra para identificar seu caricato protagonista, Vallelonga. Numa das primeiras cenas, ele se sente tão incomodado com a presença de dois encanadores negros em sua casa que joga fora os copos de vidro que a própria esposa emprestou a eles para que pudessem tomar água. Alguns momentos adiante, ele já está enturmado com seu novo patrão. Mesmo que o dinheiro pelo trabalho o tenha feito deixar o preconceito em segundo plano, a transformação soa radical demais.

Enquanto isso, Mahershala Ali merecia ainda mais espaço para desenvolver seu personagem. Nos poucos momentos em que Don Shirley é aprofundado, o ator brilha em falas e gestos que denotam seu sentimento de não-pertencimento a nenhum dos dois mundos que entram em colisão a todo momento diante de seus olhos. É um homem que só encontra a verdadeira casa quando está no palco e por isso se sujeita a tocar até mesmo por quem menospreza sua raça, na esperança que sua simples presença sirva para uma mudança de pensamento.

Durante todo o filme, Vallelonga é retratado como um homem rústico – aquilo que também pode ser chamado de “bronco”. Uma pessoa simples, que entende as coisas conforme as vive. Talvez até por isso ‘Green Book’ se furta de uma discussão mais aprofundada sobre a questão negra nos EUA, escapando das discussões políticas e estruturais para preferir uma abordagem pessoal, onde as coisas podem ser simplesmente resolvidas na camaradagem. Ainda que emocione a audiência e passe uma mensagem válida, o mundo já provou que nem sempre é o caso.

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