Grandes perdas nos adoecem, afirma psicóloga sobre Brumadinho

Colaboradores Yahoo Vida e Estilo
Mais de cem pessoas foram mortas com o rompimento da barragem em Brumadinho (MG). REUTERS/Washington Alves
Mais de cem pessoas foram mortas com o rompimento da barragem em Brumadinho (MG). REUTERS/Washington Alves

Por Eva Freitas

O rompimento da barragem da Vale em Brumadinho (MG) não só matou pessoas, contaminou o meio ambiente com rejeitos de mineração e deixou marcas profundas na saúde mental de sobreviventes e de familiares e amigos das vítimas. “Grandes perdas nos adoecem, e as pessoas que passam por elas têm de ser cuidadas”, afirma a psicóloga e psicanalista Blenda de Oliveira.

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Angelita Corrêa Scardua, mestre e doutora em psicologia, concorda com a necessidade de algum tipo de apoio. “O ideal seria combinar tratamento psiquiátrico e psicológico.”

Para Angelita, indivíduos que passaram por episódios como o de Brumadinho tendem a experimentar consequências graves, como depressão, ansiedade, síndrome do pânico e mesmo transtorno de estresse pós-traumático (conjunto de sinais e sintomas físicos, psíquicos e emocionais em decorrência de situações traumáticas).

“Às vezes, a vida não dá tempo de a pessoa sofrer e ela vem a desenvolver algo muito tempo depois, sem nem estabelecer uma relação com o trauma pelo qual passou”, comenta Angelita.

Pesquisa sobre Mariana

Pode ser cedo para medir as consequências do que aconteceu em Brumadinho, mas o rompimento da Barragem do Fundão, também da Vale, em Mariana (MG), já foi alvo de pesquisa e corrobora o que as especialistas ouvidas nesta reportagem dizem acreditar.

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Segundo estudo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), atingidos pelo acidente ocorrido em 2015 – e que matou 19 pessoas – apresentaram “extrema vulnerabilidade” psicológica anos depois. Na pesquisa, foram entrevistadas 271 pessoas que residiam em sete distritos da zona circunscrita de Mariana.

Entre as pessoas ouvidas foram identificados diagnósticos de cinco tipos de transtornos mentais relacionados ao estresse: depressão, ansiedade, estresse pós-traumático, risco de suicídio e transtornos relacionados ao uso de substâncias químicas, como álcool.

Rede de apoio

Além da ajuda profissional de psicólogos e psiquiatras, uma rede social de apoio disponível é imprescindível em situações como a de Brumadinho. “A pessoa vai precisar de disponibilidade em termos de atenção e afeto, além de suporte material. Ela precisa ter um espaço para poder expressar essa angústia”, diz Angelita.

Quem se dispor a ajudar emocionalmente deve, em primeiro lugar, respeitar a forma como a pessoa escolhe viver o luto. Há quem goste de falar, de ficar em silêncio, chorar muito… “Não diga ‘vai passar’, porque, no momento, o enlutado nem consegue vislumbrar que a dor diminuirá. Também não vale ficar martelando sobre a tragédia”, diz Angelita Scardua.

Para Blenda de Oliveira, a rede social sempre mais ajuda do que atrapalha. “Os seres humanos sempre surpreendem na tragédia. O apoio de amigos e parentes não substitui a ajuda profissional, mas pode ser um incentivo para que a pessoa procure por ela.”

Cuidar de quem cuida

Bombeiros, assistentes sociais e outros profissionais que estão trabalhando ou trabalharam no resgate de pessoas e corpos também devem ter sua saúde mental cuidada. A psicóloga Sarah Rosado Pereira, que atendeu funcionários do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), no Espírito Santo, teve a comprovação na prática dos efeitos de acidentes graves naqueles que trabalham para atender as vítimas. “Depende de pessoa para pessoa, mas há impacto [na saúde emocional] sim.”

A psicóloga Angelita Corrêa Scardua vai além. “Tenho certeza que, neste momento, o nível de estresse de um trabalhador da Vale deve estar altíssimo. Conscientemente ou inconscientemente, tem gente que vai pensar que o que houve em Brumadinho poderia tê-lo atingido ou vai sentir culpa por fazer parte de uma empresa que prejudicou tanta gente.”

Por fim, o fato de que nem todos os corpos das vítimas podem ser encontrados faz com que o apoio emocional – profissional ou não – seja ainda mais necessário. “Um morto que não passa pelos rituais de velório e enterro é como se estivesse perdido. É a perda mais angustiante que existe“, afirma Angelita.