Grammy demite presidente que acusou Academia de fraude e delitos de conduta

LUCAS BRÊDA

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A Academia de Artes e Ciências de Gravação, a organização responsável por organizar e julgar os prêmios Grammy, comunicou oficialmente a demissão de sua presidente e executiva-chefe, Deborah Dugan. O anúncio encerra uma disputa que durou semanas, entre ela e membros da Academia.

"Demos a ela nossa confiança e acreditamos que ela efetivamente lideraria a organização", diz o comitê da Academia na carta que revelou a demissão de Dugan. "Infelizmente, não foi isso o que aconteceu."

=A carta critica o que chama de "campanha midiática injustificada e prejudicial", que ela teria feito, com o objetivo de "atrapalhar a premiação do Grammy" e "suas consistentes deficiências e falhas de gestão".

Dugan falou à imprensa logo depois de ter sido afastado de seu cargo pela Academia de Gravação, cerca de dez dias antes da edição de 2020 da premiação, que aconteceu em 26 de janeiro. Ela havia recebido uma acusação de má conduta.

Em queixa à Comissão de Igualdade no Emprego, Dugan disse que sua remoção do posto aconteceu como retaliação por ter exposto diversos delitos de conduta na organização, entre os quais assédio sexual, procedimentos de votação inapropriados e conflitos de interesse no conselho.

O documento afirma, por exemplo, que o predecessor de Dugan, Neil Portnow, havia sido acusado de estupro por uma artista e que o conselho da academia tinha marcada uma votação sobre o pagamento de uma bonificação a ele, embora nem todos os membros tivessem sido informados sobre a queixa.

Dugan rotulou a Academia como um "clube dos meninos", onde homens poderosos enchem seus bolsos e promovem uma cultura misógina com impunidade e observou que artistas indicados estão presentes nos conselhos de votação de suas categorias.

O documento ainda diz que a própria Dugan foi alvo de avanços sexuais indesejados por parte de Joel Katz, um poderoso advogado do setor. Ele negou as acusações.

Na época, a Academia de Gravação respondeu dizendo ser "curioso que Duggan jamais tenha mencionado essas graves acusações até uma semana depois de ser alvo de uma queixa judicial". Nela, uma subordinada afirma que a presidente criou um ambiente de trabalho "tóxico e intolerável" e que tinha conduta "abusiva e intimidante".

Dugan chegou à presidência depois de anos em que a Academia ouviu reclamações de ser muito branca, masculina e velha --o que se reflete nas premiações. Aos 61 anos, ela assumiu o cargo em 1º de agosto do ano passado, como primeira mulher presidente e executiva-chefe da entidade.

Em comunicado, Dugan se diz desapontada mas não surpresa pela decisão do conselho, "dado o padrão da Academia de lidar com delatores". "É surpresa para alguém que as investigações deles não incluíram entrevistas comigo ou perguntas sobre as grandes acusações de conflito de interesse e irregularidades nas votações?"

Na carta de demissão, a Academia diz que até pensou em fazer um acordo com Dugan, mas decidiu não seguir em frente. "Não poderíamos recompensá-la com um acordo lucrativo e depois querer estabelecer que um comportamento com o dela não tem consequência. Nossos membros e empregados, e toda a indústria da música, merece mais que isso."