Grávida de oito meses, médica conta como superou a falta de ar provocada pela Covid-19

Maria Eduarda, Maria Luisa e André: à espera de Maria Isabel

"Sou médica intensivista, tenho 38 anos e trabalho em dois hospitais: Copa D’Or e Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into). Meu marido, André Maia, com quem sou casada há 6 anos, é oftalmologista e já temos uma filha, Maria Luisa, de 4. No começo de março, entrei no sexto mês de gestação da nossa segunda menina, a Maria Isabel. Até então, eu estava trabalhando normalmente; sabia da gravidade da Covid-19 e tinha consciência de que a doença já tinha chegado ao Brasil, mas não havia muito o que fazer. Atuo em dois CTIs: um neurológico, no Copa D’Or, e outro ortopédico, no Into. Ambos, teoricamente, não teriam relação direta com a doença. Em meados de março, poucos dias depois de a pandemia ter sido decretada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e de as aulas da minha filha serem interrompidas, lembro de ter acordado tossindo bastante. Era uma tosse seca, estranha, que chamou a minha atenção. Mesmo assim, segui na rotina diária. Dois dias depois, fui tomada por uma dor no corpo, típica de uma forte gripe. Nesse ínterim, as médicas gestantes do Into foram afastadas do trabalho por serem consideradas grupo de risco. Reportei os meus sintomas e, diante do quadro, a chefe do Copa D’Or pediu que eu fizesse o exame. Até aquele momento, ninguém do staff do hospital havia sido contaminado pelo novo coronavírus. Eu também não achava que seria. Cheguei, inclusive, a mandar mensagem para meus colegas de trabalho num grupo de WhatsApp falando que não deveria estar com coronavírus e, sim, com dengue.

Fiquei três dias em casa esperando pacientemente o parecer. Nesse intervalo, vieram os calafrios e a dor no corpo se tornou mais intensa. Quando o resultado do teste saiu e deu positivo, entrei em desespero, foi realmente inesperado. Chorei muito. Pensava: ‘Estou grávida, não posso ter nada’. Fui uma das primeiras profissionais de saúde do Copa D’Or a ficar doente. Naquele momento, os hospitais ainda estavam se organizando para dar conta da pandemia. Meu marido, por sua vez, relatou os mesmos sintomas, porém, bem mais brandos. Fui afastada por, pelo menos, 14 dias e ele interrompeu todas as consultas. Ficamos atordoados.

Decidimos, então, ir para a casa do meu pai em Teresópolis, que estava vazia. É um espaço amplo, verde e arejado. Lá, minha filha poderia brincar à vontade, não precisaria ficar presa num apartamento. Só que, geralmente, a Covid-19 costuma piorar na segunda semana. Na Serra, passei a ficar supercansada e, pior, a sentir falta de ar. Precavida que sou, levei o oxímetro, aparelho que tem a função de medir a saturação de oxigênio no sangue e comecei a me monitorizar. Ofegante, comprovei que a oxigenação do meu sangue estava caindo e o nervosismo tomou conta de mim. Liguei para uma grande amiga, que também é médica intensivista, e narrei o que estava acontecendo. Ela recomendou que eu fosse para o hospital receber oxigênio. Optei por não seguir o seu conselho; sabia que poderia ter de fazer uma tomografia. E isso eu não toparia de jeito algum pelo fato de exames com raio X serem contraindicados a gestantes. Telefonei, em seguida, para minha obstetra e perguntei a ela se havia risco para a minha bebê. Ela me disse que minha filha estaria bem se eu estivesse bem. Fiquei durante 12 horas sentada, sem me movimentar, medindo a oxigenação do sangue. Ao meu lado, meu marido, também muito estressado e achando que eu estava com sintomas de pânico. Adormeci, exausta, com medo de que algo acontecesse. Vale ressaltar que só tomei essa decisão por ser médica; pacientes com falta de ar devem procurar um hospital.

Na manhã seguinte, acordamos, fizemos as malas e voltamos imediatamente para o Rio para eu ficar perto de clínicas e equipes médicas conhecidas. A falta de ar diminuiu, a saturação de oxigênio no sangue se normalizou, mas o cansaço se estendeu por uma semana.

Depois de tudo isso, redobrei os cuidados com a gravidez. Passei a fazer exames de ultrassom mensalmente e, nesta fase final (estou com 8 meses), a cada duas semanas. No vigésimo primeiro dia da doença, realizei a sorologia, comprovando a existência de anticorpos no meu organismo. Também comecei a pesquisar o assunto com afinco e a ler diversos artigos científicos sobre a doença. De acordo com a literatura médica produzida até agora, o coronavírus não passa pela placenta. Num estudo realizado na China, o vírus não foi encontrado nem na placenta nem no líquido amniótico de bebês cujas mães tiveram Covid-19. Existem relatos de que o coronavírus pode provocar abortamento no primeiro trimestre de gravidez e, em alguns casos específicos, os médicos recomendam a mulheres que tiveram Covid-19 no final da gestação que façam cesariana, por exigir menos esforço físico. Mas, como minha capacidade pulmonar está boa, optei pelo parto normal.

Desta vez, tudo será diferente. Na maternidade, as visitas estão restritas. Minha filha mais velha não conhecerá a bebê no berçário, não vou preparar lembrancinhas a familiares e amigos anunciando a chegada de Maria Isabel nem pretendo ter enfeite na porta. Sinto muito pelas mães de primeira viagem, que romantizam esse momento. Porém, frente ao caos que estamos atravessando, não dá para sofrer com isso. É fundamental cuidar da cabeça, não se desesperar e ter positividade. Eu, graças a Deus, sempre a mantive. Durante todos esses meses, sigo mentalizando: ‘Minha bebê está bem’. Tenho absoluta certeza disto.”