Governo que manda recolher livros não é só estúpido. É também covarde

Imagem da capa do livro Fahrenheit 451, de Ray Bradbury. Foto: Reprodução

Convocado pelo chefe da repartição, o funcionário chega aflito tentando justificar uma postagem recente: apesar da foto na Bienal, o chefe poderia ficar tranquilo. Ele odiava exposições e coisas do tipo.

O chefe desconfia.

Num tom de voz envergonhado, diz que foi orientado pelo andar de cima a limar todo mundo que havia manifestado nas redes qualquer posicionamento considerado esquerdista.

O funcionário explica que não tinha nada a ver com aquilo, que não votava no PT nem nada, mas era tarde: o expurgo não distinguia o que era esquerdismo e o que era erudição.

O funcionário era o próximo a ser exonerado porque não massacrava a língua portuguesa, o que havia se tornado um problema na idioticracia reinante da repartição.

Ali a ordem era promover apenas os estúpidos, os que não questionavam, os que não entendiam ordem, os que tinham qualquer casca cultural, enfim.

É quando entra na cena um outro funcionário, incapaz de falar e servir café ao mesmo tempo, atributos ideias para o futuro ministro da Educação, que a partir dali preencheria os espaços vazios da formação intelectual e humana com performances nas redes dançando e cantando com um guarda-chuva.

Divulgado na quinta-feira (6), o esquete do coletivo Porta dos Fundos fazia o espectador pensar que qualquer semelhança com a vida real não era mera coincidência, mas nem o brasileiro mais pessimista poderia supor que naquele mesmo dia saberia, pelos portais, que o governo de Rondônia, comandado pelo coronel Marcos Rocha (PSL), aliado de primeira hora de Jair Bolsonaro, iria mandar recolher das escolas 43 livros considerados inadequados para crianças e adolescentes.

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Entre as obras estavam clássicos como “Os sertões”, de Euclides da Cunha, “Macunaíma”, de Mário de Andrade, e “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis.

No memorando, assinado pelo secretário estadual da Educação, Suamy Vivecananda Lacerda de Abreu, ninguém explicava o que havia de inadequado nos tais livros. Não que os responsáveis pela educação em seus estados tenham obrigação de conhecer alguma das obras citadas, claro, mas eles poderiam se esforçar ao menos em fazer um balaio menos genérico sobre idades adequadas.

Quem já foi criança e adolescente um dia sabe dos mares que distanciam um jovem de 12 com um de 17 anos.

Perto da vida adulta, seria inclusive recomendável conhecer o legado da miséria de personagens como Brás Cubas, o exemplo mais bem acabado da elite fundadora e sem escrúpulos do país. Ajudaria, inclusive, a reconhecer um quando visse pela frente.

Se a preocupação era evitar “constrangimentos e desconfortos” dos alunos, talvez os gestores fizessem melhor se olhassem com mais atenção às centenas de alunos ribeirinhos e da zona rural de Porto Velho que desde 2018 não conseguiam frequentar a sala de aula por falta de ônibus escolar e voadeiras. Mais fácil enfrentar inimigos imaginários.

Ao que parece, a guerra cultural promovida pelos novos templários encontrou outros nomes que jamais leram para chamar de inimigos. Paulo Freire não está só.

Questionado após a repercussão, o secretário responsável pela queima dos livros correu para chamar a história de “fake news”.

Precisou ser confrontado com os prints do processo no sistema de sua própria pasta para dizer, liso, que estava fora da secretaria ao longo da semana e não sabia da medida. Ainda assim, mandou desdizer a ordem.

Caricaturas capazes de superar as tintas de qualquer paródia, os jênios da nova educação que querem definir o novo bom gosto da literatura brasileira não são apenas estúpidos. São também covardes. Imprecionante.