Governo quer transformar Museu Nacional em Palácio Imperial e deixar acervo fora

RICARDO DELLA COLETTA - PAULO SALDAÑA
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BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O governo Jair Bolsonaro atua para transformar o Museu Nacional —cujo prédio e parte do acervo foram parcialmente destruídos por um incêndio em setembro de 2018— num centro turístico dedicado à família imperial que governou o Brasil até a proclamação da República, em 1889. A iniciativa é articulada por entusiastas da monarquia de dentro e de fora do governo. O principal defensor na Esplanada é o ministro Ernesto Araújo, das Relações Exteriores, expoente da ala ideológica do governo e próximo ao movimento monarquista. Ele realizou reuniões sobre o tema e destacou auxiliares para acompanhar o processo de reconstrução do museu com o objetivo de alterar sua finalidade. O Iphan, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, e o Ministério do Turismo têm participado de articulações junto ao MEC, Ministério da Educação. O deputado Luiz Philippe de Orléans e Bragança, do PSL, descendente da família real brasileira, também é um dos impulsionadores. A ideia do grupo monarquista é que o palácio de São Cristovão, antiga residência dos monarcas Pedro 1º e 2º, seja reconfigurado para abrigar um centro dedicado ao Brasil imperial. O argumento é que a reconfiguração teria apelo turístico e preservaria a memória histórica do país. O acervo científico do museu seria destinado a um anexo da propriedade. O Museu Nacional é um equipamento de perfil acadêmico e científico, e tem papel central para pesquisas nas áreas como antropologia social, arqueologia, zoologia e botânica. É ligado à Universidade Federal do Rio de Janeiro, a UFRJ, desde a década de 1930 —por isso a articulação dos monarquistas junto ao MEC. O palácio é a casa do Museu Nacional desde 1892, sendo a mais antiga instituição científica do país. A iniciativa desvirtuaria, portanto, o uso que vem sendo dado ao espaço desde o início do período republicano no Brasil. O plano envolve uma tentativa de alienar o prédio da UFRJ para que a gestão Bolsonaro tenha autonomia para tocar o projeto. A possibilidade é monitorada pela equipe de Ernesto, que articula possível apoio financeiro internacional. Uma supervalorização da monarquia é tema de apreço entre os conservadores aliados de Bolsonaro. Ernesto já fez diversas deferências ao passado monárquico brasileiro, assim como Abraham Weintraub, ex-ministro da Educação. Na linha de frente da iniciativa também está o superintendente do Iphan no Rio, Olav Schrader, ligado ao Movimento Brasil Real, pró-monarquia. Ele chegou ao cargo em meados do ano passado. Em 2019, Schrader lamentou que, após o incêndio, o prédio voltasse a abrigar coleções científicas. "Ao Brasil, sequer é dado o direito de resgatar o seu berço simbólico onde, entre tantos fatos importantíssimos, se assinou a nossa Independência e o nosso país 'nasceu'. Vão 'reconstruir um museu' e ficaremos simbolicamente órfãos sob aplausos incautos", escreveu ele, em artigo publicado pelo movimento monarquista. Schrader participou, em março, de reuniões em Brasília sobre o tema a pedido do secretário especial da Cultura, Mario Frias, outro membro do governo saudoso do Brasil imperial. Uma das agendas foi com Ernesto, no Itamaraty. As operações dos monarquistas ocorrem sem a ciência da universidade ou da diretoria do museu. A movimentação envolvendo o MEC sem conhecimento da UFRJ causa estranheza na universidade —o registro de propriedade do prédio é da instituição, e uma intervenção da pasta teria impacto em sua autonomia e também no projeto de reconstrução em andamento. Por isso, tudo tem sido tratado com discrição dentro do MEC. A iniciativa foi abordada com um diretor da pasta em ao menos uma audiência, em 11 de março, a pedido de Mario Frias. Schrader se reuniu com o secretário de Cultura no mesmo dia. A presidente do Iphan, Larissa Peixoto, também está envolvida nas articulações, segundo documentos obtidos pela reportagem. Como o prédio é protegido pelo patrimônio histórico desde 1938, ao Iphan cabem autorizações para a continuidade de obras no local. Questionados, MEC e Iphan não responderam. Em nota, o ministério das Relações Exteriores confirmou que Ernesto recebeu Frias e Schrader em 19 de março. A pasta afirma também que o chanceler teve encontro recente com o deputado Luiz Philippe de Orléans e Bragança. "Foram exploradas iniciativas de cooperação internacional na área de patrimônio, incluindo projetos de valorização do Museu Nacional", afirma nota da pasta. Orléans e Bragança afirmou que o edifício do museu perdeu suas referências históricas e que o objetivo da proposta é valorizar o passado do país. "Ao invés de expor, de se tornar um ambiente publico para valorizar a história brasileira —a nossa história nesse território— passou a valorizar um cometa, um meteorito, pedras de descobrimento arqueológico. Nada contra isso", disse. Mas, segundo ele, a "missão principal" do imóvel deveria ser "representar a história do Brasil". Questionado, o deputado também afirmou que tem em Ernesto um aliado na causa. "Ele [Ernesto] tem algumas ideias, ele vê que se o Brasil não for ajudar podemos até pedir ajuda externa. Porque as embaixadas de vários países, muitos deles repúblicas, entendem a importância", disse. O diretor do museu, Alexander Kellner, diz que a instituição não foi consultada sobre qualquer alteração no projeto de restauração em andamento. "Essa ideia é uma das mais estapafúrdias que já ouvi, nunca vi mais absurdo e ridículo. Seria matar o museu mais uma vez", disse. "Aquele palácio sempre foi museu de história natural". As negociações causaram também surpresa na reitoria da UFRJ. Segundo a reitora, Denise Pires de Carvalho, a movimentação "parece um golpe". "Não acredito que o MEC vá tomar uma iniciativa de enfraquecer a érea de antropologia social, arqueologia, zoologia, botânica, sem que a universidade seja avisada", disse. "Há pós-graduações envolvidas de excelente nível, não é uma instituição estanque da academia, é importante para a universidade e também para o museu que ele permaneça aqui." O palácio teve suas fachadas preservadas, mas telhado e interior foram imensamente atingidos com incêndio que chocou o país. De um total de 37 coleções —nas áreas de antropologia, botânica, entomologia, geologia e paleontologia, invertebrados e vertebrados—, 17 foram total ou parcialmente perdidas, 13 foram ou estão sendo resgatadas e sete não foram atingidas porque estavam em outros prédios. Mais de 10 mil peças dos acervos foram restauradas —o crânio de Luzia, o fóssil humano mais antigo na América do Sul, foi resgatado. Em fevereiro, saiu o vencedor de licitação para o desenvolvimento do projeto de arquitetura e restauro. O orçamento total da reconstrução é de R$ 379 milhões, e R$ 244 milhões já foram captados. Unesco, Instituto Cultural Vale, Bradesco e BNDES apoiam o projeto, que envolve reforma e nova museologia. Os bancos Bradesco e BNDES firmaram aporte de R$ 50 milhões cada um. A reinauguração do bloco frontal do Museu Nacional está prevista para as festividades do bicentenário da Independência no ano que vem.