Governo Bolsonaro e nazismo: existe validez na comparação?

Em 2018, em protesto em Curitiba, manifestantes tinham cartazes que comparavam presidente Jair Bolsonaro a Adolf Hitler (Foto: Henry Milleo/DPA via Getty Images)

“O trabalho liberta” é a frase que está nos portões de Auschwitz, maior campo de concentração nazista na Polônia, onde foram assassinadas mais de um milhão de pessoas. Essa mesma frase foi usada pela secretaria de Comunicação do governo Jair Bolsonaro.

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“O trabalho, a união e a verdade nos libertará”, diz a peça publicitária divulgada pelo governo federal no último fim de semana. A ideia é reforçar a importância da reabertura do comércio em meio à crise do coronavírus.

A campanha foi muito criticada pela similaridade com a frase nazista. E não é a primeira vez que a associação é feita. Em janeiro, Roberto Alvim foi demitido da secretaria de cultura após gravar um vídeo em que cita Joseph Goebbels, ministro da propaganda nazista.

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Após a divulgação do vídeo e a péssima repercussão, Alvim foi demitido do cargo.

Em ambos os casos, a justificativa do governo federal para se defender da das associações ao regime nazista foi de o Brasil está alinhado a Israel e que tem uma ótima relação com a comunidade judaica. O secretário de Comunicação, Fabio Wajngarten é judeu e usou isso como argumento.

Mas é suficiente?

Michel Gherman, pesquisador do Núcleo Interdisciplinar de estudos judaicos da Universidade Federal do Rio de Janeiro e diretor de conteúdo do Instituto Brasil-Israel, afirma que Jair Bolsonaro tenta fazer uma “kasherização” do governo.

O termo diz respeito às leis de alimentação judaica, a comida kasher. O processo de kasherização garante pureza à comida e estabelecimentos que cumprem as leis estabelecidas pela Torá, livro sagrado do judaísmo.

“Bolsonaro conseguiu trazer para si judeus de estimação, que kasherizam o discurso dele”, explica.

Gherman lembra que, além dos casos já citados, há 22 anos Bolsonaro defendeu o direito de alunos do Colégio Militar de Porto Alegre poderem escolher Adolf Hitler como personagem histórico mais admirado. “Isso que Bolsonaro faz não é novo, ele tem uma relação com a figura de Hitler há muito tempo”, afirma.

No discurso, o então deputado afirmou que os alunos escolheram “aqueles que souberam, de uma forma ou de outra, impor ordem e disciplina”, mesmo que não “concordemos com as atrocidades cometidas por Adolf Hitler”.

O pesquisador ainda afirma que o discurso feito no clube “A Hebraica” do Rio de Janeiro, em que ofende minorias, também é típico do nazismo.

“Não dá para falar sobre isso sem falar sobre Israel imaginário e o judeu imaginário. Bolsonaro fala sobre essa questão sob uma lógica de não-história, não-estado, é imaginação. Não tem nada a ver com o judeu real, é sobre o judeu que não passo pela modernidade, é o judeu que ficou na Judéia”, opina. “É um judeu que dialoga com os apoiadores dele. Ele precisa dessas pessoas e precisa, fundamentalmente, que o judeu real não incomode. ”

Michel Gherman ainda critica o fato de as pessoas não perceberem a gravidade das falas de Bolsonaro por ele não falar nada parecido com Auschwitz.

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Já Carlos Reiss, Coordenador Geral do Museu do Holocausto de Curitiba, avalia que há duas maneiras de associar o governo Bolsonaro ao nazismo: a primeira usa o nazismo como uma “metonímia do mal”, o que é visto pelo Museu com muita preocupação; a segunda são as analogias elogiosas ao nazismo.

No primeiro caso, ele fala sobre algumas comparações. “São muitas vezes estéreis, porque são improdutivas e se baseiam em um uso simplório do nazismo. As pessoas usam esses atributos para reforçar o ponto delas”, explica.

No entanto, Reiss acredita que nem toda comparação pode ser condenada. É o caso da peça da Secom aparece no segundo. “Causa indignação, repulsa, e nesses casos a gente precisa repudiar, condenar”, afirma. “Não sei o que se passa pela cabeça de quem cria esse tipo de material, como da Secom ou da secretaria de Cultura”.

Ele relata que o Museu do Holocausto tem sido muito cobrado para se posicionar publicamente sobre ações do governo. “É papel de instituições como o Museu se posicionarem sempre em prol da memória, do resguardo.”