"Eu gosto de k-pop!": as alegrias de ser uma 'kpoppeira' 30+

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As fãs 30+ do BTS não só existem como tem uma apreciação diferente e mais madura pelo grupo (Foto: Divulgação)
As fãs 30+ do BTS não só existem como tem uma apreciação diferente e mais madura pelo grupo (Foto: Divulgação)

De forma muito bem humorada, um fantoche viralizou em toda internet. O que mais se via nos Stories do Instagram, era o compartilhamento do vídeo da marca Aff The Hype em que a sua Moça do Marketing (o tal fantoche) explicava por A + B que ainda era jovem (mesmo não sendo). Um dos motivos? "Mas eu escuto k-pop!".

Na briga entre millennials e Gen Z, o que mais se viu foi o choque de realidade da primeira geração, que entrou para internet "quando tudo isso aqui ainda era mato", e tinha certeza que ainda era superjovem. Na manga, usava como argumentos falas como a da Moça, e o uso do k-pop como gancho no vídeo foi simplesmente genial. Porque, sim, existe toda uma faixa de millennials, em especial 30+, que se tornaram fãs irrefutáveis do estilo musical vindo da Coreia do Sul.

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Tati Lopatiuk tem 37 anos e é redatora publicitária. Começou a se interessar pelo estilo aos poucos - primeiro, ouvia uma ou outra música que surgiam nas playlists aleatórias do Spotify ou nas partidas de Just Dance. Depois, viu boa parte do seu feed no Twitter se apaixonar pelos mais variados grupos e passou a buscar, ativamente, músicas diferentes para conhecer. Na sua gama de grupos favoritos estão o BTS (queridinho tanto da Moça do Marketing, como de boa parte da população ocidental), o girl group Mamamoo, os veteranos Super Junior e o fenômeno Blackpink.

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"Eu acredito que toda banda ou artista que a gente gosta tem o potencial de trazer boas energias, entusiasmo, alegria, pelo simples fato da gente gostar deles", explica. "O k-pop, no entanto, é um patamar acima nesse quesito, algo que não sei explicar. É um tipo de magia que traz um encantamento poderoso, você ouve e se sente parte de algo especial. Eu me sinto muito mais feliz quando ouço k-pop, às vezes até mais do que ouvindo outros artistas que gosto há muito mais tempo."

Tati pode ser uma fã "recente", mas compartilha o amor com outras que, hoje aos 30, começaram a cultivar esse carinho muitos anos antes. É o caso de Amanda Valéria de Almeida, assistente administrativa de 31 anos. Para ela, o interesse por k-pop começou de verdade em 2016 e, hoje, acompanha ativamente dois grupos: Super Junior e Exo. Para ela, o que mais impressiona é, sempre, o exemplo de determinação e dedicação ao trabalho dos "idols" (como são chamados os artistas musicais coreanos).

"Mesmo tendo toda a questão que envolve o universo, que nem sempre é muito saudável, mas o amor, dedicação e trabalho dos artistas me inspira. Além das canções que se encaixam perfeitamente em momentos da minha vida", explica ela. "Outra coisa que também me incentivou foi a resgatar aquela vontade de conhecer outras culturas fora do eixo Estados Unidos e Europa. Sempre fui uma consumidora de conteúdo Japonês/ Chinês por meio dos animes e alguns seriados antigos, contudo, foi depois que comecei a consumir k-pop que meu interesse se expandiu. Comecei a me interessar mais pela cultura e história dos países orientais e a ter um olhar completamente diferente do que tinha antes."

Aliás, esse descobrir de uma cultura diferente foi o que também atraiu a analista de marketing Marina Rocha, de 35 anos. Apesar de já ter ouvido falar de k-pop muito antes da pandemia de coronavírus, foi o isolamento social e o tempo livre que a transformaram numa verdadeira "kpoppera". Para ela, fã de Blackpink e BTS, principalmente, além de Mamamoo e do lendário grupo BIGBANG, entre outros, o principal foi a possibilidade de desligar da loucura do mundo para conhecer algo novo.

"Para a minha vida, fica o aprendizado de uma nova cultura, perspectiva e idioma (sim, estou aprendendo!)", disse ela.

E, mais uma vez, esse é um sentimento compartilhado. Para Amanda Regina Santos, analista de folha de pagamento e psicóloga de 32 anos, entrar de cabeça no universo do k-pop durante a pandemia se mostrou uma alegria em um momento muito complexo.

"Sabe aquele sorriso em um dia com a rotina repetitiva de home office ou quando a mente está precisando de uma pausa ou 'um respiro'? A música sempre teve esse poder para mim e com o k-pop não foi diferente, é algo que me faz bem", explica. "Sempre ouvi música em todas as ocasiões possíveis: na rua, no transporte público, ou até mesmo no trabalho presencial, mas estar em casa com mais tempo livre me trouxe a possibilidade de explorar novos gêneros musicais, a continuar com meus fones de ouvido, a cantarolar em um idioma que não conheço e tentar 'imitar' os passos de dança de maneira tímida sozinha no meu quarto no intuito de tentar espantar o mal-estar psicológico que a pandemia trouxe direta ou indiretamente para minha vida."

"Você não tá muito velha pra isso?"

Pois é, em uma sociedade que coloca a juventude feminina como protagonista (e torna invisível as que passaram dessa "fase"), a visão do k-pop como algo de meninas mais novas, adolescentes, acaba mesmo aparecendo. E, de fato, é perceptível como esse costuma ser o público alvo - não à toa, muitos grupos masculinos, quando debutam, começam a carreira num estilo "escolar" como se fossem os crushes da escola. O próprio BTS teve uma fase assim, e todo grupo já adotou o conceito "escola" em um álbum.

Para Amanda Santos, inclusive, esse foi o caso - ela mesma se considerou "velha" e precisou quebrar a barreira da idade para assumir o seu gosto por k-pop. "Comecei a me familiarizar com o tema por volta de 2018 e em um primeiro momento pensei 'não entendo o idioma', 'nossa são muitos integrantes', ou 'tem muita dança e eu nem danço', pensamentos relutantes que, confesso, lá com meus 29 anos, se originavam de outro único pensamento: 'sou muito velha para curtir k-pop'", explica.

Por isso mesmo, ela conta que levou um tempo para se considerar fã de verdade, o que aconteceu só com a pandemia e o tempo livre em casa. "A música do BTS me salvou nos momentos de tristeza e monotonia! Assim, me tornei oficialmente Army em 2020 (bem no boom do hit Dynamite) e passei a acompanhar assiduamente tudo sobre o grupo, 'maratonei' e continuo maratonando os conteúdos sobre."

Interessante notar que a questão da idade não é algo novo - que millennial não foi questionada por gostar de boy bands, lá no auge da década de 1990, por pais e amigos? Ser fã de Backstreet Boys ou N'Sync (e a rivalidade entre as fãs dos dois grupos lembra muito a rivalidade entre as fãs de BTS, chamadas de Army, e as de Exo, as Exo-L) já foi muito motivo de piada e brincadeiras de mal gosto.

"Inclusive, meu aniversário desse ano, de 32 anos, foi 'tema BTS'. Comprei bexigas do BTS, pedi bolo com plaquinha do BTS, decorei uma pequena mesa e ganhei uma daquelas festas na caixa com tema, adivinha?, do BTS dos meus amigos", continua a analista. " Vergonha nenhuma tive de postar nos Stories ou de falar sobre (se alguém falou mal, não soube e nem ligo). Sempre fui muito fã do que me dispunha gostar, então, sempre estou demonstrando, seja indo em todos os shows das bandas e artistas de rock que admiro, falando sobre o que eu gosto e como isso me emociona, em resumo: o tempo passa e eu continuo amando ser fã."

Sou jovem pra ser velha e velha pra ser jovem

O preconceito e as supostas limitações com a idade podem, de fato, aparecer. Mas, segundo Tati, esses são julgamentos que rolam muito mais de fora do que de dentro. "É claro que existe um olhar questionador, quase maldoso, para quem ouve k-pop, como se fosse algo menor ou coisa de criança", diz. "Mas eu não ligo e, honestamente, a idade nesse ponto até ajuda você a perceber que a opinião do outro diz muito mais sobre ele do que sobre você. Quem tem que se preocupar com o que eu ouço sou eu, e se incomoda alguém, problema desse alguém."

A questão dos gostos femininos sempre permeou as discussões em sociedade, principalmente porque a visão de um mulher madura segue arquétipos difíceis de acompanhar - seja o de mãe ou da esposa perfeita. O foco desses grupos, muitas vezes, ser o público feminino mais jovem também gera uma visão dúbia: por um lado, as adolescentes viram objetos de desejo e gostar de boy bands ou de k-pop vira algo "fofo", quase desejável aos olhos masculinos. Por outro, a partir de certa idade esses gostos, supostamente, devem ser abandonados porque não são mais compatíveis com a idade de uma mulher.

"Algumas pessoas simplesmente não levam esse gosto em particular a sério. Acham que é coisa de adolescente", explica Amanda de Almeida. "Alguns amigos soltam piadinhas e brincadeiras. Outros são mais incisivos na hora de depreciar, mas eu particularmente não ligo. Continuo gostando e compartilhando. Foi dessa forma que acabei doutrinando duas primas, que acabaram doutrinando outras a gostarem do universo. Acho que quando as pessoas estão dispostas a simplesmente ouvir e conhecer elas acabam gostando de alguma coisa, no fim".

O mesmo, é claro, não vemos acontecendo com os homens. Se um homem gosta de futebol, por exemplo, a vida toda, esse gosto não é questionável, mesmo que beire o fanatismo. O mesmo vale para os videogames. As mulheres gamers comumente enfrentam preconceito no meio, enquanto os homens podem jogar à vontade.

Ao mesmo tempo, a maturidade coloca esse gosto em outro patamar, e Marina explica muito bem como lidar com esses olhares tortos: "Passei por isso na época de Backstreet Boys e Britney Spears, então só dou risada e ainda panfleto links de vários clipes. Tem que dar stream!".

O legado do k-pop para o mundo

Décadas atrás, os Beatles viraram um fenômeno da música tão grande que se tornou impossível para o próprio grupo lidar com a fama - que foi a níveis extremos. Michael Jackson passou por um patamar de estouro semelhante. Madonna, Britney Spears, os Backstreet Boys e o N'Sync, também. Todos eles se tornaram grandes nomes da música e, polêmicas à parte, deixaram e ainda deixam o seu legado no mundo.

Com o k-pop não teria como ser diferente. Os meninos do BTS já quebraram tantos recordes com os lançamentos de 2020 para cá que é difícil acompanhar. Os fandoms de k-pop são tão engajados politicamente que foram comparados ao movimento punk. Ainda é cedo para saber exatamente o que o estilo musical vai deixar, mas uma coisa é certa: tirar o foco do eixo Estados Unidos - Europa é um feito e tanto.

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"K-pop não é algo tão recente, mas há pouco tempo ele rompeu a barreira do eixo asiático e foi para o mundo. Um mundo que tinha seus padrões pré-estabelecidos, seja na música, aparência, moda ou cultura", reflete Amanda. "É incrível perceber que o mundo não se resume ao estilo americano e que outros mercados estão ganhando espaço e se consolidando. Essa diversidade pode gerar muitos frutos. Quem sabe um dia o respeito prevaleça e as pessoas possam simplesmente apreciar as coisas boas que ele tem a oferecer."

A boa notícia é que, quer o reconhecimento venha agora ou não, esses grupos têm sorte de terem mulheres adultas e tão conscientes sobre si mesmas acompanhando o seu trabalho. Não só isso, mas elas provam, também, que gosto não se discute e que é possível aprender algo novo a todo momento, independente de idades.

"[Os grupos de k-pop] Ensinam sobre esperança para um mundo melhor, inspiram na busca de conhecimento sobre uma cultura diferente e aceitar todo e qualquer modo de ser, influenciam na quebra de preconceitos e esteriótipos, afinal são artistas de outra cultura, idioma e vivência levando uma mensagem para um mundo de fãs que se identificam através das canções que falam sobre amor-próprio, aceitação, além de trazer em pauta reflexões sobre outros temas, enchendo nossos corações de alegria", diz Amanda Santos.

"Todos deveriam dar uma chance, de coração aberto, ao k-pop. É um tipo de música que traz todo tipo de sentimento embalado em um senso muito forte de pertencimento, algo que é muito genuíno, muito puro. Na minha experiência como alguém mais velho ouvindo k-pop, o que ele me ensinou é que posso ser quem eu quiser, que eu pertenço a algo, a mim mesma. E, por isso, não existem barreiras. E ter a liberdade de ser quem você é de verdade é uma das atitudes mais poderosas que se pode ter, que se reflete de maneira positiva em todos os aspectos da sua vida", finaliza Tati.

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