"Gordofobia não é uma luta de pessoas gordas, é social", diz ativista

  • Opa!
    Algo deu errado.
    Tente novamente mais tarde.
·5 min de leitura
Neste artigo:
  • Opa!
    Algo deu errado.
    Tente novamente mais tarde.

Você já parou para pensar se realmente luta contra a gordofobia? Ou melhor: já parou para analisar quantas vezes repreendeu algum comportamento preconceituoso contra pessoas acima do peso? Essas são perguntas que devem ser pertinentes e aparecer todos os dias, principalmente em um país preconceituoso e que caminha, a cada dia, para um retrocesso.

Aqui, é preciso deixar claro: a obesidade é uma doença e, assim como nenhum outro diagnóstico, não deve ser zombado - nem nas casas dos amigos e muito menos nas mesas de bares.

Leia também

Lutar contra a gordofobia é um dever de todos, mesmo que não seja o seu lugar de fala. "Não ser o seu lugar de fala não te impede de dar sua própria opinião", diz Polly Oliveira, influenciadora que traz discursos importantes sobre o corpo real no Instagram. Inclusive, reforçar que não é seu lugar de fala só promove um debate saudável e interessante, que pode desmistificar pensamentos e construir uma sociedade mais justa e menos preconceituosa. Afinal, como a própria Polly diz, "a gordofobia não é uma luta de pessoas gordas, é uma luta da sociedade".

Não apenas nesse tema, mas em tantos outros, que abordam diferentes tipos de preconceito, pessoas com mais visibilidade - seja nas redes sociais ou em outras plataformas - são capazes de atingir determinados públicos. Polly reforça que, atualmente, as pessoas que são classificadas como "padrão" conseguem ter vozes, ou seja, serem efetivamente ouvidas.

Mas, aqui, além da gordofobia, falamos de um preconceito estrutural, onde a sociedade dá mais importância aos dizeres de um corpo que, "teoricamente", se encaixa nos moldes nos quais fomos ensinados a respeitar. Por aqui, leia-se pessoas magras, altas e com a pele clara. Então, de acordo com Polly, é importante que influenciadores que se encaixem nesse arquétipo se sintam no dever de ajudar a desconstruir essa barreira de um corpo irreal, que não existe e que não faz parte do biotipo de mulher brasileira.

"Precisamos entender a importância de mulheres magras, gordas, pretas, trans e lésbicas lutarem pela mesma pauta, porque todas nós somos um alvo ambulante". Mesmo que seja para uma causa social, é válido lembrar que a internet não faz carinho e não é o melhor palco para determinadas situações.

Polly, inclusive, reconhece esse tipo de comportamento. "Têm mulheres que têm receio de falar sobre isso [gordofobia], porque elas vão ser julgadas por pessoas que não entendem que elas podem falar sobre isso". "É uma linha tênue entre você se apropriar de uma pauta que não é sua e de você defender a mesma pauta".

O debate da gordofobia, aliás, também traz outro tema importante, a sororidade. Palavra que Manu Gavassi trouxe à tona na 20a edição do BBB. "Tem uma militância na internet onde muitas pessoas não sabem que a magra pode falar de gordofobia", diz Polly. "É importante que essas mulheres dentro do padrão entendam a dor de uma mulher gorda ou obesa, mas também reconheçam que não se compara às dores de uma menina magra que só encontra roupas na área infantil. São dores completamente diferentes, mas que não podem ser diminuidas". Nesse caso, a influenciadora reforça a importância do suporte que as mulheres precisam dar umas às outras e que todo apoio é fundamental, seja qual for a luta.

E, afinal, qual é esse padrão e quem impôs essas regras? Polly acredita que a "indústria da beleza é o grande maestro de tudo isso", ou seja, que esse ramo cria o problema para que possa oferecer a solução. "As mulheres não têm problemas com o corpo. Esses problemas foram inventados e criados pela indústria da beleza para que elas lhe tragam as soluções".

Por aqui, quando falamos em soluções, não nos referimos às marcas que oferecem produtos para o bem-estar da mulher ou que realmente ajudam a prevenir determinadas doenças. Estamos dizendo sobre as cirurgias plásticas, setor no qual 82% do público é feminino. Já imaginou? É o reflexo de uma sociedade que exige um corpo que não existe e que, consequentemente, traz desconfiança e mexe diretamente com a autoestima das mulheres.

Nesta pauta, Polly ainda reforça a importância de grandes marcas investirem em corpos reais e mulheres reais. No entanto, será que a sociedade está pronta para abraçar uma campanha onde a modelo aparece com estrias ou celulites? Esses sinais são, na maioria das vezes, reflexos de um corpo que tem história, de um corpo que lutou e sobreviveu para estar presente. "Se as marcas deixassem de manipular as imagens já seria um grande passo".

Aliás, diversas pessoas relacionam as marcas naturais do corpo, como citadas acima, à alimentação. "A gente tem essa mania de relacionar gordo à comida: porque come muito ou come errado". Mas sabia que até o algoritmo pode ser gordofobico? Polly Oliveira já fez um experimento em sua conta no Instagram e publicou fotos de lingerie. Em seguida, conteúdos de fast food ou doces e comidas não-saudáveis começaram a ser entregues.

"A pessoa pode estar acima do peso por um distúrbio alimentar, por problemas hormonais, distorção de imagem ou estar saudável, mesmo com quilos a mais na balança". Neste caso, então, é de extrema importância reforçar que, não, os gordos não comem apenas 'besteiras' e podem se alimentar bem.

"Nós não podemos receber sugestões e aceitá-las como uma verdade ou imposição". Então, sempre que possível, discuta e traga um diálogo justo e enriquecedor para a mesa. "É uma responsabilidade de todos, inclusive de homens. É uma nova educação que não chegou para a atual geração", diz Polly.

"A desconstrução de preconceitos acontece no lugar invisível, lugar onde ninguém está vendo". Ou seja, sempre que possível, corrija piadas ou falas, esteja presente e saiba como conduzir o processo de reeducação. "Você tem permissão de fala, você pode e deve falar sobre isso. Nós não temos mais tempo para brincar com a autoestima", finaliza Polly.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos