Gorda de calça de jeans: como a peça icônica é estigma para pessoas grandes

Natália Eiras
·7 minuto de leitura
O item é “obrigatório” em qualquer armário fashion, mas pessoas gordas “ficam traumatizadas” por não encontrarem um jeans para chamar de seu. Foto: Arquivo pessoal
O item é “obrigatório” em qualquer armário fashion, mas pessoas gordas “ficam traumatizadas” por não encontrarem um jeans para chamar de seu. Foto: Arquivo pessoal

Por Natália Eiras (@naeiras)

Você não precisa ser um consultor de moda para saber que a calça jeans é uma peça básica em qualquer guarda-roupa. Mas qualquer mesmo?

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Uma pessoa magra pode entrar em qualquer loja do shopping e encontrar diversas opções que sirvam em seus corpos. O mesmo não acontece com as pessoas gordas, que, muitas vezes, precisam se espremer em manequins criados por pessoas que não respeitam suas existência, em uma busca que traumatiza e dói -- física e emocionalmente.

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Por causa desse processo, que pode ser aterrorizante para algumas mulheres, pessoas gordas têm usado as redes sociais para mostrar que, sim, há looks de calça jeans para corpos grandes. Ainda assim, para chegar nesse momento de finalmente conseguir escolher um jeans para chamar de seu, o processo foi longo.

Yahoo conversou com algumas mulheres sobre a trajetória delas para encontrar calças jeans que respeitassem seu tipo físico. Veja os depoimentos:

Robertita Silva. Foto: Arquivo Pessoal
Robertita Silva. Foto: Arquivo Pessoal

Robertita Silva, 25, modelo

"Na infância e adolescência, nunca tive calça jeans, era sempre uma calça de moletom. Como eu sempre fui uma criança grande e gorda, as roupas juvenis não me contemplavam, então usava o que me cabia. E, quando tive uma calça jeans, ela não tinha nenhum papel estético. Não me sentia bonita, não me sentia bem vestida. Era apenas o que servia. Fui uma criança, adolescência, e uma mulher traumatizada pela calça jeans.

As pessoas não entendem o peso que é olhar uma calça jeans e ter medo de usá-la. Para você ver, agora, adulta, comprei a minha segunda calça jeans e ainda assim preciso ressignifica-la, lidar com os meus traumas de infância para conseguir usá-la. Tenho tentado olhar para essa peça com outros olhos, com mais carinho. É um momento diferente, eu sou uma mulher diferente e temos modelagens diferentes.

Estou em processo, não é uma peça que eu ainda fale que preciso sair e que eu queira usar a calça jeans. No guarda-roupa de mulheres magras, ela é uma peça-chave, um básico. Para mim, ela ainda não é uma prioridade. Mesmo que eu adore a calça que tenho, que tem uma modelagem que eu curto, ela não é a minha primeira opção. O que tenho feito é procurar referências em mulheres com o corpo semelhante ao meu.

Por mais que pareça algo trivial, frívolo para os outros, aprender a usar a calça jeans está fazendo eu enfrentar meus traumas. Quando eu ressignifico uma calça jeans, é fazer com que essas lembranças dolorosas morram. É importante olhar para mim como uma mulher, um corpo político, e dizer que essa peça pode ser tão usual para mim quanto uma pessoa magra. A Roberta adolescente precisa finalizar esse trauma com afeto por mim mesma. Quero transformar como um espaço de beleza para mim também.”

Julia Vechi. Foto: Arquivo pessoal
Julia Vechi. Foto: Arquivo pessoal

Julia Vechi, 27, criadora de conteúdo

“Sempre achei jeans uma peça bonita e estilosa. Cresci nos anos 2000, quando teve o boom desse tipo de peça. Via as pessoas usando, mas, para mim, comprar era um terror. Era uma luta encontrar algo que me servia, tinha que ir em loja de adulto. Ela virou o uniforme da minha escola, então, como não encontrávamos para comprar, começaram a fazer rateio na família para encontrar uma calça usada de alguma tia que me servisse. Por causa de todo esse estresse, por eu não encontrar opções bonitas que me servissem, eu comecei a odiar a peça.

Antigamente, a calça jeans não era pensada para um corpo como o meu. Não ficavam confortáveis. Tinha que morrer dentro de um jeans para poder ir à escola. Me assava, me apertada, chegava em casa e eu tinha que tirar logo. Além de que tinha medo de ficar muito tempo usando a calça e ela rasgar. Uma calça durava no máximo dois meses, porque as coxas grossas, uma perna raspa na outras, o que desgastava a peça. Aí tinha que jogar no lixo e tudo começava de novo.

Fiquei pelo menos uns 10 anos sem usar jeans, eu só usava legging porque era a única coisa que achava confortável. Eu fiz as pazes quando encontrei uma loja especializada em jeans plus size. Lembro de quando fui experimentá-la e a calça subiu normalmente, sem eu passar constrangimento. A sensação de que eu tive foi de me sentir cuidada, de amparo da pessoa realmente perceber que você existe. Vestir uma roupa, fechar o zíper normalmente, não ter desconforto. De ver que tem pessoas preocupadas com isso.

Quando eu achei a calça jeans, eu já estava em uma construção de autoestima, mas acredito muito que, quando encontramos uma peça que nos abraça, isso nos mantém firmes para vestir o look. Porque a pior coisa é ir numa loja, pegar um monte de roupa, pensar em looks, e nada te servir. A gente já está ali, em frente ao espelho, acabamos nos culpando. Porém, se uma roupa não te serve, a culpa não é do teu corpo, mas a marca que não toma o cuidado de fazer uma roupa com uma numeração correta.”

Jessica Lopes. Foto: Arquivo pessoal
Jessica Lopes. Foto: Arquivo pessoal

Jessica Lopes, 27, empresária e criadora de conteúdo

“Eu sempre gostei muito de jeans, mas sempre tive dificuldade em comprar uma. Lembro muito bem que, aos 8 anos, fui comprar um conjunto de jaqueta e calça jeans para a festa do meu aniversário e fui direcionada para a sessão adulta. Para uma menina muito jovem, essa inacessibilidade da calça jeans reforçava essas questões de baixo autoestima, de que meu corpo era errado, de que ele não se encaixava na sociedade.

Na adolescente, eu usava a numeração 46, 48, não era uma peça fácil de encontrar, mas encontrava. Não conseguia comprar o jeans modernos, jovens, mas tinham opções. O que sempre fiz, mas isso tem a ver com a minha personalidade e vontade de consumir moda, era estilizar as minhas roupas. Eu cortava, pintava, deixava eles com a minha cara apesar de nem sempre encontrar a peça que eu queria. Eu dava o meu jeito. Porém, é comum as pessoas que não encontram as peças que gostam se frustrarem, se culparem por não terem o corpo adequado. Eu passei por esse processo, mas por não aceitar isso, disse que queria estar na moda, então consumia o que queria dando o meu jeito.

As pessoas não entendem como a relação da mulher gorda com o jeans pode ser complicada. Há esse estigma porque se ela que quer comprar uma calça jeans, vai ao shopping e não acha em lugar nenhum. Enquanto uma pessoa magra encontra em qualquer loja que entra. As coisas estão melhores, mas hoje, se eu quiser comprar uma calça jeans, vou ter que procurar marcas especializadas, vou ter que procurar online, me organizar. É um processo. Então dizer que todo mundo tem que ter no guarda-roupa, mas como quando isso é inacessível para muita gente?

É muito importante pontuar que há marcas que atendem o nosso corpo, está muito melhor, mas ainda há um caminho muito longo para percorrer. Gordas menores já encontram opções, mas acima do número 60 ainda é muito inacessível. E, ainda por cima, tem a falta de padronização. No meu guarda-roupa, tem calças que diversos números diferentes. O manequim não me importa, mas isso me deixa indignada porque a marca está vendendo um número que a pessoa realmente veste aquele número não consegue usar. É revoltante.”