Godzilla vs. Kong - Crítica do Chippu

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Godzilla vs. Kong é apenas o quarto capítulo do chamado Monsterverse da Legendary Studios e Warner Bros., mas é curioso como esse talvez já seja o universo compartilhado de maior sucesso que não envolve super-heróis (a única competição real é Invocação do Mal/Annabelle/A Freira), especialmente considerando quão diferentes os filmes modernos destes monstros são entre si. Como a culminação dessa primeira leva de histórias, os estúdios lançaram uma verdadeira batalha de titãs moderna, colocando no próprio título tudo que você precisa saber. É hora de pancadaria.


O primeiro Godzilla moderno da Legendary, lançado em 2014 com direção de Gareth Edwards, segue como o mais completo filme do Monsterverse. Os monstros nunca pareceram tão grandes quanto nele, e sua imponência jamais foi a mesma. Aqui, os humanos são tratados como formigas desesperadas, mas ainda há um clima de esperança e resiliência, a capacidade de sobreviver por amor. Com Kong: A Ilha da Caveira, o diretor Jordan Vogt-Roberts traz uma abordagem semelhante com as criaturas, mas trata seus personagens com tremendo niilismo. Os sacrifícios são desperdiçados, as mortes são brutais e só aqueles que se submetem aos gigantes encontram um final feliz. Finalmente, em Godzilla II: Rei dos Monstros, Michael Dougherty tenta uma terceira abordagem e, na tentativa de trazer a mesma gravidade para os protagonistas de menos de dois metros, perde seu foco em meio a dramas de divórcio e pais e filhas.


Godzilla vs. Kong, por sua vez, trata os humanos basicamente como uma audiência. Assim como nós, os personagens existem apenas para testemunhar o embate entre duas criaturas mitológicas e capazes de destruição numa escala nunca antes vista. Como na vida real, há times, preferências e até torcidas dentro da narrativa. Sim, há uma história ali, mas o diretor Adam Wingard colocou cada elemento como peça auxiliar, acessórios que devem ornamentar o centro de sua exibição - um gorila gigante e um dinossauro radioativo saindo na porrada.


A premissa é básica - Godzilla está atacando os humanos sem uma razão aparente, o que leva a humanidade a tirar Kong da agora destruída Ilha da Caveira na esperança que um rei seja capaz de destronar o outro. Pessoas como Rebecca Hall, Alexander Skarsgard, Brian Tyree Henry, Kyle Chandler e Millie Bobby Brown partem em jornadas para tentar descobrir a razão por trás desse comportamento agressivo. Há narrativas secundárias envolvendo conspirações, planos e corporações bilionárias, mas vamos ser honestos, você não está aqui para isso.


Se seu desejo é ver brigas de monstros, então pode descansar em paz. Wingard e sua equipe entregam mais do que o necessário nesse quesito, dando à audiência a sensação de realmente estar vendo alguém tirar Godzilla e Kong de uma caixa de brinquedos e fazê-los lutarem. Uma hora o Kong arranja um machado, na outra Godzilla tenta acertar o primata com o seu bafo nuclear à distância. Há uma luta na água, outra numa Hong Kong embelezada por luzes neon em meio à noite. O espetáculo visual de ver esses titãs em ação causa uma reação visceral. O sorriso é inevitável.


Mas isso é uma faca de dois gumes. Se por um lado, mostrar claramente os monstros significa ter essa sensação lúdica e instintiva, todo o sentimento de reverência visto até mesmo no falho Rei dos Monstros se vai completamente. O senso de mistério, grandiosidade e imposição que essas criaturas tinham até aqui é completamente dissipado, assim como suas temáticas de relação com a natureza, pequenez da humanidade e drama existencial. Talvez isso fosse inevitável num filme chamado Godzilla vs. Kong - cuja proposta de divertir e empolgar fica clara ao usar um título digno de uma propaganda do UFC - mas fãs de kaijus, especialmente de obras japonesas como o Godzilla original de 1954 ou de Shin Godzilla, a obra-prima de Hideaki Anno em 2016, talvez cheguem nos créditos com a impressão de que falta algo. Vemos isso na direção, que abandona a perspectiva humana em diversas cenas, preferindo câmeras virtuais e posicionadas na altura dos lutadores.


É difícil culpar Wingard por isso, mas ao mesmo tempo, há vislumbres de uma grandiosidade maior, particularmente na relação de Kong com a única sobrevivente da tribo de sua ilha natal, a garotinha surda Jia (Kaylee Hottle, uma descoberta). A menina se comunica com o gigante por linguagem de sinais, e quando vemos o gorila a respondendo da mesma maneira, o impacto é tão grande quanto qualquer ataque que os titãs dão. É quando há um sentimento Spielberg-iano em Godzilla vs. Kong, quando toda essa carnificina parece apontar para algo além.


De qualquer forma, Godzilla vs. Kong entrega exatamente o que promete. Sim, isso pode significar que ele não é o melhor filme do Monsterverse ou que a marca que deixará em nós irá sumir mais rapidamente por não ser tão profunda, mas durante suas duas horas de duração, a luta do século é uma das fontes mais seguras de diversão que você pode ter.

Nota: 3/5