Gloria Perez antecipa que 'Travessia' vai abordar estupro no metaverso

***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 17.08.2018 - A roteirista Gloria Perez durante o coquetel do 2º Prêmio Abra de Roteiro, na Cinemateca Brasileira, em São Paulo. (Foto: Greg Salibian/Folhapress)
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 17.08.2018 - A roteirista Gloria Perez durante o coquetel do 2º Prêmio Abra de Roteiro, na Cinemateca Brasileira, em São Paulo. (Foto: Greg Salibian/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Gloria Perez, 73, gosta de abordar assuntos que ainda estão sendo compreendidos pela sociedade em suas novelas. Foi assim com "Barriga de Aluguel" (1990), na qual usou a então pouco disseminada inseminação artificial, e em "O Clone" (2001), na qual a recente clonagem da ovelha Dolly era elevada à máxima potência.

Em "Travessia", cuja estreia está marcada para o próximo dia 10 na faixa das 21h da Globo, não será diferente. A autora vai trazer para a o centro da trama crimes virtuais ainda pouco explorados na teledramaturgia, entre os quais um estupro no metaverso, termo usado para ambientes que usam tecnologias como a de realidade virtual.

"Vamos mostrar tanto crimes que acontecem no mundo real quanto uma outra modalidade muito interessante, que são os crimes no ambiente cibernético, como o estupro no metaverso", disse a autora durante bate-papo com a imprensa nesta quarta-feira (21) para apresentar a trama.

Ela lembrou o caso de uma mulher que disse que seu avatar, a representação daquela pessoa no ambiente virtual, foi abusado sexualmente. Embora sem citar o nome diretamente, ela parece se referir ao caso da psicoterapeuta Nina Jane Patel, que declarou que o crime foi "real e perturbador"

Na trama da novela, investigar esses crimes será atribuição da delegada Helô, vivida por Giovanna Antonelli. Trata-se da mesma personagem que a atriz interpretou em "Salve Jorge" (2012), mas que agora se especializou em crimes cibernéticos.

A trama central, como já divulgado, vai se dar a partir de uma deepfake (quando um vídeo é alterado digitalmente para que uma pessoa apareça falando ou fazendo algo que nunca fez de fato). A mocinha Brisa (Lucy Alves) será a vítima. Ela vai ter o rosto trocado pelo de uma criminosa, o que vai levá-la a ter que fugir de São Luís, onde mora, sob o risco de ser linchada pela população.

"Mas não para aí, vamos mostrar todo um universo de crimes cibernéticos", adiantou Gloria. "Vamos falar desse mundo que está surgindo, dessa tecnologia que pode unir todas as pessoas do mundo, mas também dessa possibilidade de que alguém no Japão possa fazer algo com alguém no Rio, mostrar que algumas pessoas podem fazer mal uso disso."

Também haverá espaço para tratar da deep web (o coletivo de sites ocultos usados para manter atividades anônimas, muito usado para práticas ilegais). O hacker Oto (Romulo Estrela) e a investigadora Yone (Yohama Eshima) são dois dos que transitarão por ali. "São personagens mostrando que as pessoas precisam tomar cuidado porque isso pode acabar com a vida de alguém", disse a atriz. "É um movimento de alerta para as pessoas."

Entre as tramas da novela, também serão tratadas a dependência tecnológica, a ser abordada na família de Laís (Indira Nascimento) e Monteiro (Aílton Graça), e a relação do homem com a inteligência artificial, que será mostrada por meio do garçom Joel (Nando Cunha).

Gloria Perez só adianta que não vai tratar muito sobre fake news, que para ela é um tema "muito difícil de combater". "Isso, na verdade, existe desde que a humanidade começou, só que com outro nome: fofoca e intriga", diz. "A internet deu uma dimensão maior porque vai para o mundo em 2 segundos. Mas acho difícil controlar o comportamento humano porque a humanidade gosta de fofoca e de fuxico."

As novidades não se limitarão ao plano da dramaturgia. Gerente de produção da trama, Claudio Dager, revelou que os cenários de "Travessia" terão um diferencial com relação às novelas anteriores. Em vez de boca de cena, onde as câmeras tinham espaço reservado para captar as imagens dos atores, agora eles foram realizados reproduzindo ambientes completos, nos quais elas podem circular também.

"O cenário fechado está a serviço do personagem, ele dá mais possibilidades para o ator e para o diretor", conta. "Ali dentro todo mundo fica mais imerso, então ajuda não só a quem está em cena, mas também a pensar em outros ângulos de câmera e estabelecer uma nova linguagem."