Gloria Groove diz que solidão foi libertadora em novo EP e se vê aflita com política atual

FERNANDA PEREIRA NEVES
·10 minuto de leitura
***FOTO DE ARQUIVO****SÃO PAULO, SP, BRASIL, 15.01.18 - Gloria Groove. Esquenta do Bloco Gambiarra com o cantor Tiago Abravanel no Audi em SP. (Foto: Marcus Leoni / Folhapress) ORG XMIT: AGEN1801150029764611
***FOTO DE ARQUIVO****SÃO PAULO, SP, BRASIL, 15.01.18 - Gloria Groove. Esquenta do Bloco Gambiarra com o cantor Tiago Abravanel no Audi em SP. (Foto: Marcus Leoni / Folhapress) ORG XMIT: AGEN1801150029764611

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O visual preto e branco, o ritmo lento e frases reflexivas. O primeiro single do novo EP da cantora Gloria Groove, 25, pouco lembra seus principais sucessos, como "Bumbum de Ouro" e "Coisa Boa". Longe do pop e do funk que a consagraram, a artista agora mergulha no R&B no projeto intitulado "Affair".

São cinco músicas e cinco clipes. "Um trabalho completamente visual", afirma Groove, em entrevista à reportagem. Os dois primeiros singles, "A Tua Voz" e "Vício", foram lançados nas últimas semanas. Os outros, mantidos em segredo, devem chegar ao público ainda neste ano. E com mais uma surpresa, um deles com clipe dirigido pela cantora.

Gloria Groove não revela qual será o clipe assinado por ela nem dá dicas. O primeiro desse EP foi dirigido por João Monteiro e mostrou um lado mais reflexivo. Já "Vício", lançado na quinta passada (29) e dirigido pela coreógrafa Flávia Lima, focou a dança. "Mas ainda é só o comecinho do que estamos mostrando no EP", brinca a cantora.

Nascida como Daniel Garcia, Groove entrou para o meio artístico ainda criança. Fez parte do grupo Galera do Balão, formação do Balão Mágico criada no início dos anos 2000, e acumula experiências como ator e dublador. Um de seus mais recentes trabalhos foi dar voz ao protagonista do live-action de "Aladdin".

Em seu novo projeto, a cantora afirma que busca juntar a pessoa que é hoje com a que traz do passado. Isso se reflete no ritmo musical, já que o R&B foi uma de suas referências na infância, mas também com a aproximação de Daniel e Gloria, que aparecerão em suas duas formas em parte dos clipes.

Além do EP "Affair" já ser mais reflexivo, Groove destaca que a pandemia teve um papel muito importante nesse trabalho. Segundo ela, foi libertador fazer as captações de voz sozinha. "Acho que vai dar pra perceber no EP a minha liberdade, não só por estar cantando um estilo que eu amo, mas por estar literalmente em casa".

Gloria Groove afirma que as reflexões não foram apenas para a criação e composição do novo projeto, mas também serviram para que ela pudesse analisar o cenário político atual. "Como a maioria das pessoas de 20 de poucos anos, minha opinião ainda está muito embebida de desespero e desesperança."

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Pergunta - O single "A Tua Voz" mostra uma faceta nova, deixando o dançante e o colorido de lado. Qual o significado dele para você?

Gloria Groove - Esse é um trabalho mais voltado ao R&B, ao soul, um estilo musical que sempre esteve comigo, apesar de ter sido pela música pop que eu fiquei mais conhecido. As drag queen no geral são muito relacionadas à cultura pop, mas esse trabalho para mim tem um grande potencial. É o encontro de quem eu sou hoje e de quem eu sempre fui.

R&B é completamente o que eu ouvi na primeira e segunda infância, na vivência com minha mãe. E nada mais justo para começar uma era focada no R&B do que uma balada, uma balada com referências dos anos 1990. Eu amo Mariah Carey, cresci ouvindo Alicia Keys. "A Tua Voz" tem tudo a ver com o que eu sempre ouvi na minha vida e achei que seria um jeito bastante classudo de iniciar essa era.

Você fala no encontro de quem você é com quem você sempre foi. Isso se refere apenas aos estilos musicais? E onde entra o amor e o romance do título "Affair" neste conceito?

GG - Esse encontro não é apenas sobre estilos musicais, é sobre tudo. Por isso, vocês ainda vão ver na parte visual do trabalho a chegada da minha imagem como Daniel, interagindo com minha imagem montada. Como se fossem duas personas dividindo o mesmo espaço, tendo como pano de fundo um romance. Cada uma das cinco faixas desse EP representa uma fase da paixão. Cada uma pegou uma faceta do R&B.

Mas, apesar de vocês estarem me ouvindo falar de romance em primeira pessoa, o maior romance da minha vida nem é com Pedro Luís, meu marido há seis anos, mas com Gloria Groove. Quando uma dessas personas está acontecendo, sente falta do outro. E ao contrário também. Eu aproveito dessa relação que existe na minha vida como uma metáfora pra o "Affair" que acontece artisticamente dentro desse projeto.

Você falou em Daniel e Gloria como duas pessoas distintas. Não são a mesma pessoa então...

GG - Então... isso é uma coisa mutável. Tem dias em que eu tenho certeza de que eu sou a Gloria Groove e que ela está completamente ligada a mim, assim como tem dias em que acordo e tenho certeza que ela é uma instituição separada de mim, um lugar que acesso na minha cabeça. Eu não me privo mais de falar dela na terceira pessoa, assim como faço questão de reiterar que Glória Groove sou eu, não é um personagem. Quando eu estou montada sinto que posso ser ainda mais eu.

Existe tanto um casamento quanto uma competição entre Daniel e Gloria?

GG - Com certeza. Quando estou numa semana muito conturbada, me montando muito, fazendo a barba todos os dias, eu fico caramba, só queria um tempo em casa, relaxando. E quando estou em casa, como na quarentena, em que a gente ficou muito tempo isolado, eu só pensava: 'meu Deus, como eu queria estar montada, dançando em cima do palco'. Minha vida se faz no equilíbrio entre uma coisa e outra.

Quais são as suas influências? O que escuta como lazer, no dia a dia?

GG - Eu sou uma jukebox. Adoro escutar de tudo um pouco. Eu escuto muito R&B, que é o estilo desse álbum. Tanto os mais antigos, que sempre foram minha referência, quanto os mais contemporâneos, recheados de coisas novas. Ouço muito pop, sempre estou ligado nos lançamentos. Às quintas e sextas-feiras eu fico enfiado no YouTube pra ver o que está saindo. Ouço funk, desde aquele de comunidade até os das playlists. Escuto também pagodão baiano, acho fenomenal. Tenho uma gama gigantesca de discos que eu ouço, e se eu ouço já fiz algum som que faz referência àquilo.

O que falta ainda arriscar em sua carreira?

GG - Nossa, tem muita coisa que ainda não arrisquei. Adoraria experimentar algo com jazz, adoraria experimentar com rap e ainda mais com trap, que é uma coisa que acho muito massa.

Você falou que a seleção das músicas do EP começou em 2019. Ainda assim, houve influência da pandemia?

GG - Sim, interferiu diretamente. O tempo em que eu passei comigo, olhando para dentro, sem minha vida de show e estrada, foi crucial para que eu voltasse a escrever, gravasse minhas músicas. No EP há vários vocais que eu captei sozinho. Entrei no estúdio em casa, na solidão, e foi uma experiencia muito massa.

É incrível como captando a voz sozinho a gente não tem o mesmo nível de julgamento, nervosismo. Se eu errava, me xingava ali mesmo. Quando acertava soltara um: 'meu Deus, eu sou f*'. Foi libertador fazer no meu tempo, do meu jeito. Penso que dará para perceber no EP a minha liberdade, o quanto estou a vontade vocalmente, não só por estar cantando um estilo que eu amo, mas por estar literalmente em casa.

E fora da música, como foi a pandemia para você? Estresse, crises existenciais?

GG - Sim! Estaria mentindo se dissesse que não tive crises existenciais, assim como também tive medo. Fiquei muito arredio com muitas coisas durante um bom tempo. Só agora começo a me tranquilizar um pouco. Também refleti muito, principalmente no meio de julho, quando voltaram a acontecer coisas boas na minha vida, me senti privilegiada de continuar a viver coisas legais, realizar sonhos, durante um período com tanta coisa chata acontecendo, tanta coisa ruim.

Após a adaptação que a gente teve que passar no meio da música, da comunicação, do áudio visual, agora dá para tatear mais o futuro e continuar a fazer as coisas. Confesso que é engraçado pensar que as estratégias não culminam num grande show, como antes, mas foi transformador. Sou outra pessoa depois de tanto tempo no isolamento e longe do meu maior sonho, que é o palco, minha equipe, meus fãs.

Você precisou dispensar gente da sua equipe ou deu para se segurar apesar de toda a crise no meio artístico?

GG - Tive crise nesse sentido, sim. As drag queens não são as pessoas mais ricas no meio da música, não, na verdade estamos longe disso. Tive que cortar uns braços e começar a me virar do meu jeito. É bom para se reinventar e para ter a humildade de voltar um pouquinho as coisas. Mas acredito que a gente possa se restabelecer de novo.

Além da música, você tem experiência em atuar e dublar, e agora assumiu a direção de um de seus clipes. Como você avalia essa experiência?

GG - Dirigir é uma super novidade. Apesar de ter participado de diversos sets de gravação, com alguns diretores de que gosto muito, eu não sabia como isso ia ser. O vídeo que eu dirigi nem é o mais complexo, arrisco dizer que é um dos mais simples, mas foi legal para eu entender a dinâmica. Na hora, eu vi que tinha realmente coisas importantes para mencionar sobre a luz, sobre o set. Falei: 'Caramba, eu realmente tenho direções plausíveis, tenho embasamento na hora de dirigir, pelo menos' [risos].

Falando de facetas, há outro projeto saindo em breve, o reality "Nasce uma Rainha", da Netflix. Como foi esse convite e como está a ansiedade para estreia no próximo dia 11?

GG - "Nasce uma Rainha" é um grande acontecimento na minha vida. Quando sonhei com a Gloria Groove, tinha certeza que ela seria cantora, mas o resto eu não sabia como seria, então já foi uma grande oportunidade explorar essa Gloria Groove apresentadora. E, mais do que isso, formar uma dupla, porque divido a apresentação com Alexia Twister, uma drag queen que já fazia parte da construção da cena drag antes de eu chegar à cena, então é uma grande referência para mim.

Já a série é tem formato muito legal, diferente de todos as outras séries com drag queens. A gente acompanha uma pessoa em sua transformação completa em drag queen ou drag king, e se aprofundando, porque a gente percebe que a transformação em drag sempre vem acompanhada numa transformação na vida pessoal. Nunca tem a ver só com estética, então é muito emocionante.

Muitos músicos brasileiros têm focado o mercado internacional, gravando em outros idiomas. Você pretende seguir esse caminho?

GG - Eu me vejo, sim, como uma artista global em potencial. Já domino outros idiomas, o inglês mais que o espanhol, mas ainda não achei o momento certo para realmente soltar conteúdo em outros idiomas. Mas já experimentei um pouquinho nas minhas gravações pela vida [risos]. Garanto que penso nisso todos os dias, mas sou capricorniano, então quero fazer tudo do jeito certo e na hora certa.

Queria saber como você vê os debates políticos hoje e as prioridades que eles têm levantado.

GG - Como a maioria das pessoas de 20 de poucos anos, minha opinião ainda está muito embebida de desespero e desesperança. Fico muito temerosa de imaginar o que pode ser de nosso futuro dentro do contexto político em que a gente vive, já fiquei muito apavorada com nosso clima político.

Morro de medo dos dados que a gente ainda tem em nosso país, porque vários deles dizem respeito a pessoas como eu. Mas só posso esperar que a gente consiga fazer a coisa certa de agora em diante. Eu gosto de pensar que meu trabalho faz parte das coisas que vão transformar tudo isso para o bem. Não querendo ser a artista clichê, mas já sendo, acredito que a arte pode salvar nosso país, o jeito que a gente pensa, o jeito que a gente opera. E tomara que seja isso mesmo.