Globo de Ouro premia 'Nomadland' e Chadwick Boseman na pandemia

LEONARDO SANCHEZ E MARINA LOURENÇO
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Hollywood deu início à temporada pandêmica de premiações neste domingo (28), com a entrega do Globo de Ouro, que celebra os melhores da televisão e do cinema. O evento foi marcado por um tapete vermelho híbrido, falhas técnicas, mea-culpas, algumas surpresas e a ausência do tradicional glamour da cerimônia. Apesar da ausência de diversidade racial da Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood, a HFPA, que fez um discurso se desculpando pela falta de negros entre seus membros nos últimos 20 anos, alguns dos principais vencedores da noite foram artistas negros. Entre eles, há os nomes de Chadwick Boseman, que recebeu um troféu póstumo por “A Voz Suprema do Blues”, Andra Day, de “The United States vs. Billie Holiday”, e Daniel Kaluuya, de “Judas e o Messias Negro”. Houve também a primeira asiática ganhando o prêmio de melhor direção. Chloé Zhao recebeu o troféu pelo seu trabalho em “Nomadland”. A Netflix, que acumulava impressionantes 42 indicações, teve motivo para celebrar. Ela deixou emissoras como a HBO e estúdios de cinema tradicionais para trás com dez vitórias. A maioria veio com “The Crown” —foram quatro estatuetas, incluindo a de série de drama. A série de comédia escolhida foi “Schitt’s Creek”, enquanto a minissérie foi “O Gambito da Rainha”. Nas duas principais categorias de melhor filme, “Borat: Fita de Cinema Seguinte” saiu como a melhor comédia ou musical e “Nomadland”, como drama. Como esperado, a festa deste ano passou longe do glamour costumeiro do Globo de Ouro. Afinal, a pandemia forçou que ele ocorresse de forma remota, com a maioria dos indicados acompanhando a cerimônia de suas casas. E se sua cerimônia é famosa pelo clima festivo —e quantidade também festiva de álcool servido entre os convidados—, a edição deste ano também pareceu tímida. O tapete vermelho, onde celebridades de Hollywood desfilam com roupas luxosas, fazem poses pomposas e dão entrevistas, foi híbrido. Algumas estrelas, como Margot Robbie e Angela Basset, desfilaram fisicamente, mas a grande maioria exibiu os looks glamourosos dentro de casa, através de videochamadas. Ao contrário da 72ª edição do Emmy, ocorrida em setembro do ano passado, as celebridades provaram que é moda sofisticada é possível até mesmo dentro de casa. Grifes como Gucci, Fred Leighton, Forevermark e Dolce & Gabbana estiveram entre as marcas usadas pelas celebridades. Já as anfitriãs da noite dispensaram as videochamadas. Tina Fey e Amy Poehler comandaram o evento de dois locais distintos. A primeira do Rockefeller Center, em Nova York, e a segunda do hotel Beverly Hilton, em Los Angeles, onde a noite de gala normalmente acontece. Ambos os endereços tinham uma pequena plateia de mascarados em mesas que respeitavam o distanciamento social. Fey e Poehler, já em seu discurso introdutório, abordaram a bomba que estourou no colo da HFPA no último fim de semana, quando uma reportagem do californiano Los Angeles Times apresentou evidências contundentes de casos de suborno e ainda denunciou a ausência de negros entre os 87 membros da associação. “Todo mundo está, compreensivelmente, chateado com a HFPA e suas escolhas. Olha, um monte de lixo foi indicado, mas isso acontece, é o jeito deles. Mas muitos atores negros e projetos de artistas negros foram esnobados”, afirmou Poehler. “Todos nós sabemos que premiações são estúpidas. A questão é, mesmo em coisas estúpidas, a diversidade é importante. E não há membros negros na HFPA. Eu entendo, pessoal, talvez vocês não tenham recebido o aviso, porque vocês trabalham nos fundos de um McDonald’s, mas vocês precisam mudar isso”, completou Fey. A dupla também aproveitou o vencedor na categoria de melhor animação, “Soul”, para fazer piada com a falta de representatividade. “‘Soul’ fala sobre um homem negro cuja alma vai parar no corpo de um gato. A HFPA se identificou com o filme porque eles têm cinco membros que são gatos”, brincou. Fey e Poehler falaram ainda dos desafios que a pandemia impôs ao parque exibidor, tirando sarro do fato de o ano passado não ter visto praticamente nenhum blockbuster chegando às telas de cinema. História foi feita quando os vencedores começaram a ser conhecidos. Pela primeira vez em 37 anos, o troféu de melhor direção foi para uma mulher, Chloé Zhao, por “Nomadland”. A única que havia recebido a honraria antes foi Barbra Streisand, por “Yentl”, em 1984. Zhao competia com Regina King, por “Uma Noite em Miami”, Emerald Fennel, por “Bela Vingança”, David Fincher, por “Mank”, e Aaron Sorkin, por os “Os 7 de Chicago”. Eram três as diretoras indicadas, que se somaram a uma lista enxuta de cinco mulheres que já haviam aparecido na categoria antes. Também foi uma noite para relembrar a carreira de Chadwick Boseman, morto em agosto após uma longa batalha contra um câncer. Ele confirmou o favoritismo e levou o Globo de Ouro de melhor ator em um filme de drama, por “A Voz Suprema do Blues”. Sua mulher, Taylor Simone Ledward, aceitou o prêmio em seu lugar. “Ele teria dito algo lindo, algo inspirador, algo que fosse amplificar aquela pequena voz dentro de todos os nós que nos diz para seguir em frente”, disse ela, às lágrimas. Essas duas categorias foram anunciadas só na reta final do Globo de Ouro, antes, uma longa lista de vitoriosos foi anunciada. Logo no começo dela, no entanto, um problema técnico. O áudio do vencedor em melhor ator coadjuvante em filme, Daniel Kaluuya, de “Judas e o Messias Negro”, falhou. Laura Dern, que apresentava o prêmio, chegou a se desculpar e a sair do palco, mas a voz do premiado surgiu e ele voltou à tela. As falhas técnicas apareceram em vários outros momentos da cerimônia. Artistas mutados momentaneamente, alguns atrasos nos discursos e cortes de tela sem sentido escancararam as particularidades da edição, além de deixarem questionamentos sobre as dinâmicas técnicas da próxima cerimônia do Oscar. O roteiro cinematográfico campeão foi de Aaron Sorkin, que escreveu “Os 7 de Chicago”. Entre os indicados de televisão, Mark Ruffalo levou a estatueta de ator em minissérie por “I Know This Much Is True” e John Boyega, a de ator coadjuvante por “Small Axe”. Em meio aos primeiros anúncios, uma pequena pausa. Três representantes da HFPA subiram ao palco para fazer um mea-culpa e se comprometer a atacar a falta de representatividade na organização. “Nós precisamos ter jornalistas negros e estamos ansiosos para um futuro mais diverso”, disseram. No entanto, nenhum dos representantes deu detalhes do planejamento para aumentar a diversidade racial da HFPA. O discurso, que pareceu uma tentativa somente de amenizar as críticas ao grupo, ficou superficial. Na seção de homenagens, a atriz e ativista Jane Fonda recebeu o prêmio honorário Cecil B. DeMille por sua contribuição para o cinema. Já o produtor e roteirista Norman Lear levou o troféu Carol Burnett, seu equivalente televisivo, por uma carreira que levou às telas temas urgentes e marginalizados em séries como “Tudo em Família”. A abertura de envelopes com os nomes vencedores continuou com a categoria de melhor atuação feminina em série de drama, para Emma Corrin, atriz revelação que viveu Lady Di em “The Crown” e desbancou a colega de elenco Olivia Colman, a rainha da produção. Josh O’Connor, que interpreta o príncipe Charles da produção, foi escolhido como o melhor ator do gênero. “The Crown” também levou os troféus de atriz coadjuvante, para Gillian Anderson, e, claro, o cobiçado prêmio de melhor série dramática. “Io Sì”, canção italiana de “Rosa e Momo”, garantiu um Globo de Ouro para Diane Warren, Niccolò Agliardi e a cantora Laura Pausini. Já as notas de jazz da animação “Soul” conquistaram o prêmio de trilha sonora para Jon Batiste, Trent Reznor e Atticus Ross. Ambas são destinadas apenas a produções de cinema. Das atrizes que apareceram nos filmes de comédia ou musical, Rosamund Pike foi a preferida, por seu trabalho na trama de humor ácido “Eu Me Importo”. Entre as comédias da TV, Jason Sudeikis foi eleito melhor ator, por “Ted Lasso”. Catherine O’Hara, melhor atriz, pela última temporada de “Schitt's Creek”, que ainda arrematou a estatueta de série de comédia. Um dos filmes mais elogiados da temporada, o americano “Minari”, falado majoritariamente em coreano, saiu vencedor da categoria de melhor filme em língua estrangeira. Diferentemente do que ocorre no Oscar, o Globo de Ouro não permite que esse tipo de produção concorra às suas principais estatuetas, de melhor filme de drama e de filme de comédia ou musical. Longos minutos depois de anunciar o melhor ator em minissérie ou filme para a TV, o Globo de Ouro voltou a esse tipo de produção para coroar Anya Taylor-Joy como atriz. Ela estrelou “O Gambito da Rainha”, escolhida como a melhor minissérie da noite. Jodie Foster ofereceu uma das maiores surpresas da noite ao abocanhar o prêmio de melhor atriz coadjuvante em cinema, por “The Mauritanian”. A principal foi Andra Day, de “The United States vs. Billie Holiday”, também pegando todos de surpresa. O escolhido como melhor ator em comédia ou musical foi Sacha Baron Cohen, por “Borat: Fita de Cinema Seguinte”.