‘O Brasil vai aprender muito com a Britney’, diz atriz trans de ‘A Dona do Pedaço’

Glamour Garcia está no elenco de "A Dona do Pedaço". Foto: Estevam Avellar/TV Globo

Por Giselle de Almeida

Como o próprio nome diz, “A Dona do Pedaço”, novela das nove que estreia no próximo dia 20, vai contar a história de mulheres fortes e empoderadas. Inclusive a de uma mulher trans: Britney (Glamour Garcia), que, depois de anos longe da família, volta para casa e assume sua identidade feminina. Estreante em novelas, a atriz sabe a responsabilidade de levar para o horário nobre uma história como essa num momento em que o país atravessa uma onda ultraconservadora.

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“Acho que novela é arte, arte é vida. E precisa, sim, que nesse momento haja uma personagem como a Britney, que é muito mais do que só uma personagem incrível. Ela é uma pessoa maravilhosa, acho que o Brasil inteiro vai aprender muito com ela”, conta.

Para a intérprete, que também passou pela transição de gênero na vida real, a importância do papel vai além da questão da representatividade. “É começar a concretizar um espaço de cidadania das pessoas trans e o direito, que é destituído desses cidadãos, de homens e mulheres, que têm ali não só a sua subjetividade, têm o seu direito civil retirado violentamente. Essa discussão não tem só que ser iniciada na sociedade, ela tem que ser vivida”, diz.

Mesmo com a experiência de trabalhos anteriores, como o longa “Horácio”, em que atua ao lado de Zé Celso, e a série de TV “Rua Augusta”, do TNT, em que interpretou a transexual Babete, Glamour diz que a nova experiência “dá um friozaço na barriga”. “Mas, mais do que isso, dá uma motivação, uma vontade de viver e de fazer e acontecer”, conta ela, que é natural de Marília, no interior de São Paulo, e é formada em Artes Cênicas pela Universidade Estadual de Londrina.

Britney (Glamour Garcia) e Zé Hélio (Bruno Bevan), irmãos em "A Dona do Pedaço". Foto: João Cotta/TV Globo

Na trama de Walcyr Carrasco, Britney deixa a casa dos pais, Eusébio (Marco Nanini) e Dorotéia (Rosi Campos), ainda como Rarisson (Theo Almeida), ao ganhar uma bolsa para cursar Ciências Contábeis em outra cidade. Durante esse tempo, mantém contato apenas com um dos irmãos, Zé Hélio (Bruno Bevan). Ao chegar, revela aos parentes, que incluem ainda o irmão Rock (Caio Castro) e a prima Sabrina (Carol Garcia), que é oficialmente uma mulher.

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“Ela tem uma aceitação incondicional, de primeira, e uma convivência familiar bem natural. A Britney é uma personagem bem jovem, superempoderada, tranquila, decidida, delicada. Ela tem uma energia mais assertiva”, adianta Glamour.

Assim como a personagem, a atriz afirma que foi bem aceita pela família. “Mas sou bem mais velha que a Britney, temos uma diferença de 10 anos, mais ou menos. No meu tempo, as coisas eram muito difíceis. Não havia esse tipo de discussão nem na infância, nem na adolescência. Ainda era um tabu mesmo. As pessoas tinham mais dificuldade com essa temática, a gente nem tinha referência, nem conhecimento sobre, o que fazia com que tudo fosse mais difícil, era bem pior. Hoje em dia, a geração mais jovem tem, graças a Deus, a vivência das pessoas mais velhas para poder se defender, se proteger e crescer, se desenvolver”, analisa.

Porque ser trans é difícil”

Durante a faculdade, a atriz enfrentou publicamente o preconceito, ao ser vítima de uma agressão verbal, que motivou protestos dos alunos à época. Ainda assim, ela se considera uma pessoa trans privilegiada, já que os maiores problemas que encarou foram de convivência no dia a dia.

“Tem as questões de documentação e de aceitação social que, falando assim, parecem muito simples, mas são supercomplexas, traumatizam e ferem mesmo. E tem pessoas que não conseguem superar esse dia a dia. Porque ser trans é difícil. Você vai esbarrar com preconceito a todo segundo, até se sentir suficientemente plena para lidar com ele. A gente vai estar sempre muito vulnerável. E demora a conseguir criar esse tipo de confiança pessoal”, afirma ela, que namora há quatro meses o produtor Gustavo Dagnese.

O nome artístico Glamour - nos documentos, é Daniela - é herança de um fotolog que mantinha na adolescência. Mas o gosto pelos holofotes vem de antes, de quando era uma criança “muito expressiva, muito aparecida”, ela brinca. Época em que não fazia ideia de que um dia dividiria a cena com Rosi Campos, Betty Faria, Suely Franco e Juliana Paes. “Confesso que estou muito emocionada de estar trabalhando nessa novela, por ter tantas atrizes incríveis com quem eu estou tendo essa troca”, diz.