Por que a lipo de Giovanna Chaves foi tão criticado?

Marcela De Mingo
·4 minuto de leitura
Giovanna Chaves foi bastante criticada pela decisão de fazer uma cirurgia aos 18 anos (Foto: Instagram / Giovanna Chaves)
Giovanna Chaves foi bastante criticada pela decisão de fazer uma cirurgia aos 18 anos (Foto: Instagram / Giovanna Chaves)

Uma jovem de 18 anos precisa de cirurgia plástica? Para muita gente, a resposta óbvia a essa pergunta é "não". Foi por isso que Giovanna Chaves foi tão criticada nas redes sociais depois de mostrar os bastidores da sua cirurgia LDA, uma lipo de alta definição. Sim, uma adolescente fez uma cirurgia para retirada de gordura localizada e definição do abdômen.

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O fato é: aos 18 anos, a jovem já tem direito a, legalmente, tomar decisões sobre o seu próprio corpo. E se essa foi uma escolha dela, fruto de uma insatisfação real, é seu direito e escolha o que fazer a respeito. No entanto, voltamos a bater na tecla da influência.

Ex-atriz mirim, Giovanna tem um número impressionante de seguidores nas redes sociais - são quase 11 milhões de pessoas acompanhando as suas fotos e postagens nos Stories. Quantas dessas pessoas são meninas adolescentes, assim como ela? Quantas já se olham através de uma lente que grita "fora do padrão"?

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Esse é o ponto. De fato, não há nada a ser feito pela decisão de Giovanna. A escolha dela é dela - mesmo que muita gente tenha o que falar sobre isso e como essa cirurgia pode ser, por si só, um reflexo dessa cultura que busca a perfeição em termos de estética. Mas há de se pensar nas pessoas que ela influencia, sim, por meio do que fala e faz nas redes sociais.

É facílimo as pessoas acreditarem que as suas ações não têm um reflexo nas outras. Mas se a pandemia de coronavírus nos serviu para qualquer coisa, foi para entender como a o descuido de uma pessoa pode afetar a saúde e a vida de outras milhares. E é verdade que as pessoas acreditam no que querem acreditar, e é exatamente por esse motivo que é preciso tanto cuidado e atenção ao que se coloca na internet - principalmente quando se considera que muitas jovens não só se espelham como buscam imitar as pessoas que admiram.

O Brasil já está no topo dos rankings quando se fala em cirurgia plástica, mas esse número cresceu - e muito - entre jovens adolescentes. Segundo dados liberados no ano passado pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, nos últimos 10 anos houve um crescimento de 141% no número de cirurgias entre adolescentes de 13 e 18 anos.

Essas estatísticas mostram, por exemplo, que procedimentos por motivos estéticos foram maiores em quase 10% em relação às cirurgias reparadoras de assimetrias graves, muitas vezes motivadas por bullying ou por aquilo que as meninas veem na internet. Em 2018, estima-se que foram mais de 90 mil cirurgias estéticas em adolescentes no Brasil, colocando o país em primeiro lugar na categoria.

A plástica como solução ou como parte do problema?

Diante de tudo isso, fica uma pergunta. O que vem primeiro: a insatisfação de alguém com o próprio corpo ou a autoestima debilitada? E essa autoestima debilitada é fruto do quê, exatamente?

Quando se fala em autoimagem, os estudos mostram como a autoestima feminina é problemática. Diz-se que há uma pandemia de baixa autoestima entre as mulheres, que começa muito cedo. Um estudo desenvolvido pela Dove diz que apenas 11% das meninas se sentem confortáveis para chamarem a si mesmas de "bonitas". Fora isso, 76% delas acham que precisam ser "bonitas" de alguma maneira e se sentem pressionadas a isso.

Pressionadas por quem? E por quê? É uma conversa antiga o fato de que as grandes revistas e o mercado da moda desenvolveram um ideal de beleza a ser alcançado, muito baseado em um tipo de beleza europeu que, de forma alguma, representa todas as mulheres. Desse padrão, as mulher gordas, com pele acneica, com quadris largos, com cicatrizes de qualquer tipo e até com questões básicas como celulite, são excluídas. Isso sem contar as mulheres negras e indígenas, excluídas pelo seu tom de pele e, muitas vezes, pelo formato do cabelo.

É um processo histórico e cruel que, nas redes sociais, fica muito evidente. É por isso que movimentos como o #bodypositive têm ganhado força, incentivando as pessoas a aceitarem os próprios corpos como são. Até porque o padrão foi criado por motivos machistas, principalmente, para satisfazer um ideal masculino do que era bonito.

Será que adolescentes precisam mesmo de cirurgias plásticas para se sentirem mais bonitas ou será que precisamos melhorar como sociedade? E se a melhor opção for a segunda, por onde começar? Muito provavelmente esse processo começa quebrando uma corrente de confirmação do que é preciso para uma mulher se sentir bem consigo mesma. É um trabalho de formiguinha, mas saber quem acompanhar, quem seguir e os tipos de influência que essas meninas estão recebendo é essencial.

No fim das contas, cada um escolhe o que é melhor para si. Mas que essa escolha seja fruto de uma auto-observação e análise profunda, com acompanhamento e, principalmente, que não seja exibida como uma medalha de honra para outras pessoas que ainda não passaram por esse processo e que podem se confundir com o que veem nas redes sociais.