Gilberto Braga retratou socialites de carne e osso, longe dos clichês

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*ARQUIVO* RIO DE JANEIRO, RJ, BRASIL, 08-01-2011: Televisão: o autor Gilberto Braga na festa de lançamento da novela
*ARQUIVO* RIO DE JANEIRO, RJ, BRASIL, 08-01-2011: Televisão: o autor Gilberto Braga na festa de lançamento da novela

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Na novela "O Semideus", escrita por Janete Clair e exibida pela Globo em 1973, Nívea Maria vivia uma moça pobre chamada Soninha. Convidada para uma festa da alta sociedade, Soninha não se conteve: "a piscina está cheia de champanhe!", gritava ela, deslumbrada.

Janete Clair era uma grande autora, mas não entendia muito do universo dos ricaços. Seus endinheirados tinham hábitos bizarros, que até funcionavam como entretenimento, mas sem paralelo com a vida real.

Aliás, não era só ela --com exceção de Braulio Pedroso, que criou grã-finos críveis para tramas como "Beto Rockefeller" e "O Cafona", nenhum dos nossos novelistas conhecia por dentro os códigos da elite brasileira.

Gilberto Braga, morto nesta terça-feira (26) aos 75 anos, não gostava de ser apontado como especialista em socialites. Preferia ser lembrado como o autor de sucessos como "Escrava Isaura" ou "Dancin' Days". Mas o fato é que seus personagens da alta roda também eram de carne e osso, longe de qualquer estereótipo. Mesmo --ou principalmente-- quando eram vilões, como a Odete Roitman de "Vale Tudo" ou o Felipe Barreto de "O Dono do Mundo".

Ele não nasceu nesse meio. Vinha de uma família de classe média, mas teve uma educação requintada. Era um leitor voraz e um cinéfilo renitente. Falava francês tão bem que foi professor no curso Aliança Francesa. Também tentou a carreira diplomática antes de se tornar crítico de teatro e cinema.

Ainda nos anos 1970, foi morar com o decorador Edgar Moura Brasil, este, sim, vindo de um clã aristocrático. Os dois formaram um casal gay bastante visível numa época em que o casamento entre pessoas do mesmo sexo sequer estava em discussão. Chegaram a aparecer no "Sociedade Brasileira", um livrinho publicado anualmente que trazia nomes e endereços de figurões da sociedade carioca.

Excelente observador, Gilberto Braga se inspirou nesses tipos para criar alguns de seus personagens. Beki Klabin, a primeira socialite a desfilar como destaque numa escola de samba, serviu de base para Stella Fraga Simpson, a excêntrica milionária vivida por Tonia Carrero em "Água Viva", de 1980.

Houve tantos rumores de que o inescrupuloso Felipe Barreto de "O Dono do Mundo", de 1991, era espelhado no cirurgião plástico Ivo Pitanguy que Braga precisou incluir no texto um diálogo em que dois médicos comentavam o desprezo que Pitanguy "sentia" por seu colega ficcional.

Gilberto Braga também tentou retratar a si mesmo por meio de personagens homossexuais totalmente resolvidos. Foi dele o primeiro gay mais ou menos assumido de uma novela brasileira, o Inácio Newman de "Brilhante", de 1981, encarnado por Dennis Carvalho. Mais ou menos porque a censura da época não deixava o personagem dizer com todas as letras o que de fato vivia. Depois de uma trajetória sofrida, ele embarcava para Nova York com um namorado no último capítulo.

Em depoimento à série "Orgulho Além da Tela", disponível no Globoplay, Braga diz que se arrepende um pouco de Everaldo, o afetadíssimo mordomo vivido por Renato Pedrosa em "Dancin' Days", de 1978. "Ele não ajudou ninguém", lamenta o autor. Mesmo assim, um outro mordomo afetado ainda surgiu em sua obra, se bem que com mais camadas --Eugênio , papel de Sérgio Mamberti em "Vale Tudo", de 1988.

Mas, de modo geral, os gays e lésbicas das tramas de Gilberto Braga eram distantes dos clichês e da caricatura. Não eram marginais. Todos viviam inseridos na sociedade, produzindo e se dando ao respeito. Era nítida a vontade do escritor em normalizar a situação que ele mesmo vivia em sua intimidade.

Nem sempre dava certo. Em "Insensato Coração", de 2011, o par formado por Marcos Damigo e Rodrigo Andrade se casa no papel, mas sem direito a beijo em frente às câmeras. Quatro anos depois, em "Babilônia", o mundo veio abaixo quando Natália Thimberg e Fernanda Montenegro se beijaram logo no primeiro capítulo.

Gilberto Braga se foi sem ter tido a chance de apagar o gosto amargo dessa sua última novela, retalhada pela Globo e rejeitada pelo público mais careta.

Ele deixou, no entanto, uma trama pronta. Agora é torcer para que seja logo produzida.

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