Gays, lésbicas, trans: a diversidade toma conta da passarela no carnaval 2020

Camila Prins desfila pela Camisa Verde e Branco.

No último ano, o primeiro do governo do presidente Jair Bolsonaro, que já se pronunciou como um “homofóbico com muito orgulho”, a população LGBT+ brasileira perdeu direitos e se viu no centro de diversos episódios que colocaram o debate sobre a diversidade sexual em xeque. 

O “menino veste azul, menina veste rosa” de Damares Alves, ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, a tentativa de Bolsonaro de proibir o financiamento para filmes ligados às temáticas LGBT+ e o cancelamento do vestibular exclusivo para transexuais, travestis, interssexuais e não binários para a Unilab (Universidade da Lusofonia Afro-Brasileira) são alguns exemplos.

O Carnaval de São Paulo, uma das maiores festas do Brasil e com repercussão internacional, apresenta neste ano destaques que parecem ser um contraponto aos rumos do país. Gays, lésbicas, trans, drags, entre tantas outras opções sexuais e identidades de gênero prometem levar para o Sambódromo do Anhembi uma maior diversidade de vozes e samba no pé. 

A dupla Pepê e Neném, formada pelas irmãs cariocas Potiara da Silva Oliveira e Potiguara da Silva Oliveira, estão nesta lista. Lésbicas, elas irão desfilar na ala de passistas da escola Camisa Verde e Branco. “Nossa expectativa é de vitória. Estamos desejando que vença, que a gente traga mais sorte para a escola este ano”, conta Neném.

“A gente tem que levar e levantar a bandeira da diversidade sim e cada um faz o que quer. Cada um faz o que quer para ser feliz. Hoje em dia, graças a Deus, tem muita gente gay, lésbica, lgbts desfilando e tá bombando e brilhando na passarela”, diz a cantora.

Ao mesmo passo em que a transexualidade é um assunto polêmico no país, Camila Pereira de Moraes, conhecida como Camila Prins, brilha na passarela do samba desde 2000. Ela foi a primeira “Rainha Trans” do carnaval paulistano, cargo que também ocupa hoje na escola Camisa Verde e Branco que, este ano, desfila pelo Grupo de Acesso, no dia 23 de fevereiro, na tentativa de retornar ao Grupo Especial.

Bailarina, ela também é madrinha LGBT de bateria da Ritmo Responsa da Colorado do Brás e também desfila na Unidos de Santa Bárbara e na União Imperial, em Santos (SP). 

Suas expectativas para este ano, diz ela, são as melhores possíveis. “Quero mostrar toda minha alegria, minha paixão pelo samba, quero que todos vejam o amor que tenho e se sinta como eu. Quero que todos vejam Camila Prins, mulher Trans, que chegou onde cheguei com muito trabalho, muito amor e muita garra”, diz.

Enquanto o país continua em 1º lugar no ranking mundial de assassinatos de pessoas trans, segundo o dossiê “Assassinatos e violência contra travestis e transexuais brasileiras em 2019”, desenvolvido pela Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), a bailarina pensa na perspectiva de futuro. 

“Estamos em tempos difíceis e de um grande modelo conservador, mas já se foi o tempo em que as transexuais estavam presas à marginalidade. Já se foi o tempo de ficarmos escondidas. Hoje, temos meninas nas universidades, em empregos formais, no cotidiano social, na indústria cultural. E se não lutarmos por nós, quem lutaria?”, diz.

Auxiliar administrativa, Michelly da Silva, musa da Escola de Samba Pérola Negra, é a primeira Musa da Ala Musical do Grupo Especial das Escolas de Samba de São Paulo. Na mesma linha que Prins, ela pensa que, apesar das adversidades, é preciso reconhecer os pontos positivos deste ano. 

“Eu acho que o carnaval de 2020 está sendo muito importante para nós, mesmo que a gente esteja em um período político difícil. Eu acho que este ano é o que a comunidade trans está tendo mais visibilidade, não só com as escolas, mas também com a mídia”, diz. Este é o segundo ano em que ela desfila como musa da escola. “Assim como eu, muitas outras virão”, projeta.

O enfermeiro baiano Salatiel Soares Carrascosa, nome artístico Lilian Ravani, mora em São Paulo há 14 anos. Veio para estudar a partir da bolsa de estudos que conseguiu pelo Prouni (Programa Universidade para Todos) e resolveu ficar pela cidade. A relação com o carnaval começou já na infância, aos 6 anos de idade, quando acompanhava o carnaval pela tv. A vontade de desfilar veio quando viu, pela primeira vez, Jorge Lafond (1952-2003), a Vera Verão, desfilando de musa. “Eu falei: ‘é isso que eu quero’”, lembra.

A Vai Vai é a sua escola do coração. Ela acompanha a quadra da escola desde que chegou na cidade. Sem condições de arcar com os custos das fantasias, o sonho de desfilar pela escola só foi realizado há pouco tempo atrás. “Foram dez anos economizando para poder ter minha primeira fantasia, há quatro anos trás, que foi quando já estava trabalhando. Comecei desfilando em ala, depois para composição de carro”, conta. Neste ano, ele será destaque de chão no seu segundo ano desfilando como drag queen. 

A Vai Vai é a última a desfilar no Sambódromo do Anhembi, no domingo, 23 de fevereiro, pelo Grupo de Acesso e a expectativa de Salatiel é que a escola volte ao Grupo Especial. “A segunda expectativa é que, pra mim, é extremamente importante que a partir desta oportunidade que eu recebi, os gays da minha comunidade e que frequentam este pavilhão comecem a ter este espaço e contato frequente, que exista esta posição para o grupo LGBT+ na Vai Vai de agora em diante”, diz.