Gal Costa foi voz definitiva da MPB, símbolo da tropicália, do desbunde e da liberdade

***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 24.09.2018 - Retrato da cantora Gal Costa. (Foto: Keiny Andrade/Folhapress)
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 24.09.2018 - Retrato da cantora Gal Costa. (Foto: Keiny Andrade/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Cantar foi a vocação única de Gal Costa, que morreu em São Paulo nesta quarta-feira (9), aos 77 anos, de causas não informadas.

No bairro da Graça, em Salvador, a pequena Gracinha, filha de Mariah e Arnaldo, seu pai ausente, levava uma panela ao banheiro para ter o retorno da própria voz. Ainda criança, estimulada pela mãe, queria ser uma estrela de rádio. Em 1958, sua técnica vocal mudaria com a experiência de ouvir João Gilberto, em "Chega de Saudade". A partir desse choque, sua voz encontrou uma escola, uma orientação moderna.

O início da década de 1960 condensou seus encontros transformadores. Convocada às pressas pelo colunista social Sylvio Lamenha, Gal teve seu primeiro encontro com o ídolo João Gilberto. Depois de correr para casa, em busca do violão, a menina entoou um samba para a Mangueira, e bastaram mais algumas canções para que o mestre afirmasse, em êxtase, "Gracinha, você é a maior cantora do Brasil".

Muito cedo, ela já conquistava o elogio máximo. Mas seguia à espera de um repertório, da descoberta da performance corporal, do sexo, da revelação de seu nome artístico.

O caminho de criação de um estilo pessoal se completaria nos anos 1970, mas, ali em Salvador, ela descobriu cedo seu poeta e irmão de alma e armas. Antes do golpe de 1964, na mesma circunstância em que conheceu Dedé, sua namorada, Caetano Veloso viu Gracinha pela primeira vez.

Ela seria a sua voz definitiva, capaz de alterar seu jogo com as palavras, os ritmos e a vida sonhada. Entre os dois, até o fim da vida de Gal, houve um silencioso pacto "joãogilbertiano", uma aliança estética radicalizada na tropicália.

Na Bahia, sob o impacto de João Gilberto e Tom Jobim, foi criado o núcleo revolucionário da MPB. Em 1964, Gal estreou no teatro Vila Velha com Caetano, Bethânia, Gil e Tom Zé.

No espetáculo "Nós, Por Exemplo", fez um duo com Bethânia em "Sol Negro", firmando intimidade com uma voz contrastante, mas irmã.

Em seu primeiro compacto, de 1965, gravou composições juvenis de Gil, "Eu Vim da Bahia", e Caetano, "Sim, Foi Você". Ao migrar para o Rio de Janeiro, logo se fez notar pela voz de mares calmos, potencializada melodicamente por "Coração Vagabundo", no álbum de estreia "Domingo", de 1967, dividido com Caetano Veloso. Os discípulos de João estreavam juntos. E chegava a hora de Gal farejar o seu próprio nome. Por sugestão do empresário Guilherme Araújo, virou Gal Costa.

O disco fundador de seu futuro, "Domingo", saiu exatamente quando a tropicália começou a reformular seu passado e sacudir seu projeto estético. No álbum-manifesto "Tropicalia ou Panis et Circencis", de 1968, ela aparece com "Mamãe, Coragem", de Caetano e Torquato Neto, e se torna a voz definitiva de "Baby".

O designer tropicalista Rogério Duarte dizia que o triunfo de uma cantora como Gal Costa era a maior conquista do movimento. De temperamento tímido e olhos calados, mas com gestos de coragem, Gal era a única, entre todos os tropicalistas, que não conseguia se sentir segura com a carreira. Em São Paulo, pensou em voltar à Bahia.

Em novembro e dezembro, no quarto Festival da Record, na iminência do AI-5, o Ato Institucional nº 5, Gal Costa ressurgiu com a canção "Divino Maravilhoso", absorvendo a atmosfera de rebeldia de 1968.

Antes do festival, Dedé Veloso a trancou num quarto escuro de seu apartamento, na avenida São Luís, e libertou sua expressão corporal com um disco de Billie Holiday. Sob influência de Janis Joplin, Jimi Hendrix e James Brown, a performance de Gal explodiu com o cabelo black power e o vestido vermelho psicodélico, desenhado por Regina Boni. Se "Baby" dera eternidade a ela, "Divino Maravilhoso" passava a dar chão.

Na fase tropicalista, supersticiosa, a jovem cantora desenvolveu a mania de dormir com o figurino de palco, temendo perder a fórmula mágica de seu encanto. "De palco eu nunca tive medo. Palco é o lugar onde me sinto mais confortável, mais inteira. Nunca senti medo de palco. Muito pelo contrário. Medo de muita coisa, né. Medo da ditadura, medo de morrer. A pessoa que não tem medo é meio estranha", disse Gal, à Folha de S.Paulo, no ano passado.

Com a ida de Caetano e Gil para o exílio, em 1969, ela atravessou meses recolhida pela tristeza, ainda que estivesse em um ano extraordinário, lançando seu álbum tropicalista "Gal Costa" e também o roqueiro "Gal", sua entrada pela porta da frente da psicodelia com "Cinema Olympia", de Caetano, "Cultura e Civilização", de Gil, e "Meu Nome É Gal", de Roberto e Erasmo.

No refluxo da tropicália, fez shows com Tom Zé, se aproximou de Jards Macalé e virou a voz do desbunde, dirigida pelos poetas Duda Machado e Waly Salomão. No "Gal a Todo Vapor", ou simplesmente "Gal Fa-Tal", seu show mais mítico, a cantora consolidou o programa tropicalista e foi além ao expressar a sexualidade e a verdade existencial da contracultura pós-AI-5. Ela mudou ainda sua performance no palco e projetou o jovem compositor Luiz Melodia, de "Pérola Negra", e a poética de Waly em "Vapor Barato".

Mais desnuda, Gal encontrava enfim a sua plateia. Na fase das dunas do barato e do "Fa-Tal", no Rio de Janeiro, a cantora era um mito devorador com a cesta indígena na testa. Ela namorava homens e mulheres, caía no mar e expandia as fronteiras de uma mulher liberada. Apesar das vivências solares, sentia melancolia em Ipanema. Sem ser ativista, ganhava expressão política.

"Nunca fui muito ligada em política militante, mas todo o trabalho tropicalista e meu trabalho naquela época eram políticos no sentido de irreverência, de derrubar barreiras", ela afirmou, um ano atrás. "Eu nunca me envolvi muito com política, mas há momentos em que você tem que se posicionar. Agora mesmo. É um governo péssimo que está aí, uma coisa horrorosa. A gente tem que dizer 'fora, Bolsonaro'."

Na volta do exílio, Caetano a conduziu de volta para a voz de mares calmos, no álbum "Cantar". Ambos queriam recompor o pacto "joãogilbertiano".

"Caetano fez comigo trabalhos bastante radicais. Na época, ele fez o 'Cantar', que foi muito mal falado pela crítica da época. Era uma ruptura radical. Eu vinha de uma linguagem tropicalista de 'Fa-Tal', teve uma transição por 'Índia' [de 1973] e veio 'Cantar'. 'Recanto' [de 2011] foi uma radicalização sonora grande", afirmou Gal, no ano passado.

Outro mestre da bossa nova, Tom Jobim, passou a ter a artista como cantora favorita. Se quisesse, ela podia ser ave, como em "Passarinho", de Tuzé de Abreu. A coragem poética, o desejo de renovação, o salto no escuro, o corpo na voz, a contínua reinvenção. Gal queria sempre ultrapassar aquela Gal da semana passada, inscrevendo a sua estrela junto aos seus irmãos musicais, Gil, Bethânia e Caetano.

De discografia extensa, Gal lançou alguns discos irregulares, mas sempre expressivos em sua fase pop, do final da década de 1970 e ao fim dos anos 1980. Ela reencontraria Waly Salomão e a sonoridade baiana no álbum "Plural", de 1990.

"Ele chamou o Olodum pra tocar comigo, foi maravilhoso, mas Caetano fez coisas mais radicais. Teve uma presença forte nas direções desses dois shows que ele fez comigo. Waly também foi um grande diretor, contribuiu muito para a minha trajetória", disse Gal.

Em 1994, no show "O Sorriso do Gato de Alice", dirigido por Gerald Thomas, ela voltou a escandalizar, exibindo seus seios ao cantar "Brasil", de Cazuza. A nacionalidade se expressava em seu corpo.

Dirigido por Caetano, o álbum "Recanto", com bases eletrônicas de Kassin, se situa entre seus discos mais ousados --e merece crescer em reputação crítica. Último diretor artístico influente em sua trajetória, o jornalista e produtor Marcus Preto trabalhou com a cantora nos álbuns "Estratosférica", de 2015, e "A Pele do Futuro", de 2018. Preto se empenhou em aproximar a diva de novas gerações de músicos e compositores, um desejo esboçado por Gal no disco "Hoje", de 2005, com direção de César Camargo Mariano.

Ela aguardava o lançamento de um filme baseado em sua vida, "Meu Nome É Gal", dirigido por Dandara Ferreira e Lô Politi, protagonizado pela atriz Sophie Charlotte. O longa deve ser lançado em 2023.

Em "Minha Voz, Minha Vida", composta para a sua intérprete, Caetano chegou perto de seu mistério. "Minha voz, minha vida/ Meu segredo e minha revelação/ Minha luz escondida/ Minha bússola e minha desorientação// Se o amor escraviza/ Mas é a única libertação/ Minha voz é precisa/ Vida que não é menos minha que da canção."

Gal Costa deixa seu filho, Gabriel, e sua companheira e empresária, Wilma Petrillo. Morre a maior cantora da história da música popular brasileira, a vaca profana, a verdadeira baiana, o nosso maior fenômeno vocal, a mais solitária das estrelas —Maria da Graça. Gal. Os lábios vermelhos.