Gal Costa disse à Folha de S.Paulo que aura de diva era verdadeira; relembre a entrevista

***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 06.11.2017 - Retrato da cantora Gal Costa. (Foto: Adriano Vizoni/Folhapress)
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 06.11.2017 - Retrato da cantora Gal Costa. (Foto: Adriano Vizoni/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em entrevista à Folha de S.Paulo em 2015, quando completou 50 anos de carreira, Gal afirmou que "não é que eu chego em casa e me acho uma diva, mas essa aura é verdadeira. Ninguém vê uma diva onde não existe. Não estou mentindo."

A frase foi dita enquanto o cabeleireiro arrumava a cantora para uma sessão de fotos para o jornal, em uma entrevista por ocasião do lançamento do disco "Estratosférica".

Gal, uma das maiores vozes brasileiras, morreu nesta quarta-feira, aos 77 anos. Relembre a entrevista, concedida aos repórteres Silas Martí e Guilherme Genestretti.

PERGUNTA - Mesmo chegando aos 70, você mantém a imagem de diva tropicalista do início da carreira. Essa pose de musa resiste à passagem do tempo?

GAL COSTA - Minha imagem é essa que você está vendo. Vai ser sempre ligada ao tropicalismo. Tenho uma história rica, de muita mudança física, musical e comportamental. Isso fica marcado.

Permanece essa aura da diva. Acho ótimo. O que posso achar? Eu sou. Ninguém vê uma diva quando você não é. Não é que chego em casa e me acho uma diva, mas essa imagem é verdadeira. Não estou mentindo, só o aplique. Cortei meu cabelo, me arrependi e aí resolvi botar esse aplique igualzinho ao meu cabelo.

Existe também uma sensação de recomeço, de que estou fazendo uma coisa ligada a meu trabalho passado. Sou tudo isso, estou revivendo um momento que é meu.

P.- Que relevância tem a tropicália para você nesta idade?

GC- O tropicalismo foi uma grande descoberta para mim. Ouvia muito Janis Joplin, Jimi Hendrix e me deu vontade de romper com aquilo que eu achava sagrado, que era cantar como João Gilberto. Todos os jovens que hoje fazem música olham para o tropicalismo. E essa era virou mesmo uma espécie de mito.

P.- Desde "Recanto", seu último disco, você tem atraído um público mais jovem. E agora está gravando algumas composições de novos músicos.

GC- A ideia era fazer um disco fresco, jovial, palatável, que fosse uma continuidade do "Recanto", mas não radical demais, com uma sonoridade louca e jovem. Marcelo Camelo eu adoro porque ele faz um rock meio bossa nova. A Mallu Magalhães eu conheço desde o começo da carreira. A parceria do Criolo e do Milton Nascimento resultou numa canção de grandeza incrível.

P.- Por que você escolheu a canção composta por Mallu Magalhães, "Quando Você Olha para Ela" como single do disco?

GC- É jovial, alegre, leve, uma música bonita e tem tudo a ver com a minha voz, que tem uma leveza, uma pureza.

P.- Também há uma química muito forte com os veteranos, como Tom Zé, não acha?

GC- O arranjo da música dele beira o radical. "Por Baixo" é libidinosa. Mas o Tom Zé comigo tem sempre essa atmosfera. Nós fomos namorados no passado. Ele já disse, eu já disse, então está dito.

P.- Você também sempre trabalha com Caetano Veloso e ele assina uma canção do disco. Como vai a relação de vocês?

GC- Nossa identificação musical nasceu da paixão pelo João Gilberto. Não sei explicar, mas ainda acho que Caetano ainda é o cara que melhor compõe para mim. Parece que ele ouve a minha voz cantando aquilo, faz uma letra apropriada para mim que muito me comove como "Vaca Profana". Puta merda, tem muita coisa maravilhosa.

P.- Numa entrevista recente, Maria Bethânia disse que você se "afastou da música" e perdeu contato com ela, Caetano e Gilberto Gil. É verdade?

GC- Nos anos 1960, a gente praticamente morou juntos. Hoje a gente se vê menos, porque eu moro em São Paulo, eles moram no Rio. A gente se fala, mas com menos frequência. Não vejo Bethânia há algum tempo, não tenho muito contato. Mas não é que eu tenha rompido com ninguém. Tenho o maior carinho e respeito por Bethânia. É tudo fofoca de jornal.

P.- Você se incomoda com a crítica? Em 1994, seu show dirigido por Gerald Thomas sofreu muitos ataques. Dizem que você se retraiu depois disso.

GC- Se eu fosse ficar um tempão sem cantar porque a crítica bate em mim, não ia cantar nunca. Criaram uma polêmica muito grande com aquele show. Era ousado, porque eu mostrei os seios e entrava no palco como um gato. Era tudo muito estranho e bonito. As pessoas se incomodaram porque queriam que eu entrasse como uma diva.

Fernanda Montenegro me disse: "Gal, você é admirável. Não falou mal do Gerald Thomas". E eu dizia a Gerald: "Porra, ser polêmico é uma canseira. Toma tempo".

P.- Outro grande parceiro que você teve, só que no campo visual, foi o Hélio Oiticica. Como surgiu essa amizade?

GC- Quando eu fui para o Rio, nos anos 1960, conheci Hélio. Ele fez o cenário do meu show na boate Sucata, como se fosse uma jaula de filó. Era uma boate de gente chique do Rio, e elas tinham que entrar naquela trilha confusa. Ele fez também a capa do disco "Legal" e o cenário do show. Tinha um prateado atrás, e eu usava um vestido preto, que mostrava as pernas.

P.- Acha que Oiticica fez uma tradução visual da sua música?

GC- Ele fazia aquelas loucuras, que eram lindas. Uma tradução visual da minha música seria uma mescla de uma coisa meio perfeccionista com algum emaranhado, uma coisa meio confusa, louca.

P.- Você sempre passou essa imagem de liberdade e hedonismo, mas não deixa a vida pessoal transparecer. Por quê?

GC- Minha vida pessoal interessa a mim, não a ninguém. O que interessa às pessoas é meu canto, meu trabalho.

Liberdade é um valor que eu passo, mas você não precisa se arreganhar para passar isso. É só você ser. As pessoas nascem com bom caráter ou mau caráter. Eu nasci assim.