Gabriela Prioli: "Sofri violência psicológica e tive mais de um relacionamento abusivo"

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Gabriela Prioli é eloquente, assertiva e já disse que "no geral tenta mudar os padrões ao invés de me alterar pra encaixar." O empoderamento e inteligência da advogada, comentarista política da CNN Brasil e professora, no entanto, não a blindaram da violência psicológica dentro das relações amorosas. Isso porque o machismo é estrutural e insiste em colocar homens e mulheres em posições opostas e não de equidade, principalmente quando o assunto é amor.

"A gente está o tempo todo falando sobre as dificuldades de ser mulher. Uma mulher que vivencia a experiência do machismo, da misoginia, vivencia um tipo de opressão. E combater o machismo é pensar numa estruturação da nossa sociedade como um todo, na construção dos papéis de gênero, na ocupação de espaços pelas mulheres", afirma Prioli ao Yahoo Entrevista!.

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"Louca, surtada, paranóica, maluca, está de TPM". Essas são somente algumas das ofensas sexistas que mulheres lidam no dia a dia seja no ambiente privado ou público — isso vale para chamadas de revistas, manchetes e comentários em grupos de WhatsApp. 

Amar não é sofrível, não é difícil!

"Passei por mais de um relacionamento abusivo. Saí de um para outro. Tinha dificuldade de me reconhecer numa relação abusiva, principalmente pela questão da violência psicológica e o fato de eu ser uma mulher forte e ter crescido com resistências a minha personalidade", conta a apresentadora que possui quase 2 milhões de seguidores nas redes e se tornou uma das vozes mais importantes da nova geração no Brasil.

"No geral, eu não me submeto aos padrões, tento alterá-los e as pessoas não reagem bem a esse tipo de tentativa. Então, a vida inteira fui chata, histérica, louca, grossa. Uma mulher difícil. E aí estava nesses relacionamentos e o que ouvia dos meus parceiros era exatamente esses adjetivos. E que, portanto, o meu comportamento justificava que eles agissem daquela maneira", conta Gabriela que classifica essas passagens de "insalubres".

"Falo isso porque muitas vezes quando a gente fala de relações abusivas, principalmente quando a gente fala de violência psicológica, e temos uma dificuldade com o limite. Foi a dificuldade que eu vivenciei. Nunca sofri violência física, mas sofri violência psicológica", conta a advogada, questionando justamente a romantização que damos para a convivência.

Homens e mulheres crescem ouvindo que "relacionamentos são difíceis" e isso abre um leque de permissividade em que as pessoas têm dificuldade de impor limites. E barreiras são necessárias, inclusive no que se refere ao respeito a si mesmo.

"Ouvia de todo mundo que relacionamentos eram difíceis. Então, não sabia quão difícil deveria ser um relacionamento pra que eu pudesse classificá-lo como abusivo, e portanto, eu pudesse entender aquilo como um problema. Percebia que não estava feliz, que a minha saúde estava comprometida, mas não entendia se aquilo era normal, se eu deveria trabalhar pra resolver aquilo dentro do relacionamento ou se aquilo era um modelo de relacionamento que estava viciado e portanto deveria abandonar.

Se o relacionamento não te deixa viver de maneira saudável, ele não é um relacionamento que você deva investir.Gabriela Prioli

E foi justamente se autoconhecendo, abrindo aquelas caixinhas de dores, mas que curam, que a advogada se libertou.

Autoestima e posicionamento

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"Meu antídoto contra essas relações foi poder me apropriar de quem eu era. Falar: 'eu sou essa pessoa, e não, eu não estou sendo grossa, estou sendo assertiva. E não estou sendo chata, estou sendo profissional. E não, eu não tô histérica, só quero ter espaço pra que eu possa me manifestar nessa discussão. Eu precisei entender quem era."

O autoconhecimento não significa mudar sua essência, personalidade, muito pelo contrário, é também se apropriar da existência política que cada pessoa exerce socialmente e individualmente.

Você precisa entender que a existência do outro é uma existência própria. Ninguém existe pra te satisfazerGabriela sobre viver junto

"A assertividade precisa deixar de ser demonizada vindo de qualquer pessoa. O grande problema é que ela é mais demonizada quando vem de uma mulher. Ela tem que ser doce porque ela deve servir. Ela deve servir porque a existência da mulher é instrumentalizada para a satisfação dos homens."

"Tem uma confusão de 'assertividade' com 'grosseria'. Uma coisa é você ser direto e assertivo. Outra coisa é você ser grosseiro e mal educado. Não tem nada a ver uma coisa com a outra. Inclusive acho que a gente tem uma cultura que lida mal com uma resposta mais assertiva porque a gente vem de um histórico servil.Você não pode falar diretamente, tem que circular, circular, circular pra falar a mesma coisa. Por quê?, questiona a advogada.

Vulnerabilidade também é fortaleza

É muito comum mulheres com posicionamentos escutarem: "você é tão forte, corajosa", e isso não quer dizer que não sejam, são sim, mas força e agressividade são características distintas.

"Buscava uma pessoa forte, e eu entendia por força aquilo que se manifestava como agressividade. Não entendia que a força está justamente noutro comportamento. Quando eu encontro meu atual marido, o Thiago, que é um homem doce, educado, gentil, que me encoraja em todas as minhas empreitadas, percebo e esse foi o meu estalo. Ele é o homem mais forte que já conheci, e não tem agressividade no comportamento."

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A comentarista e o DJ Thiago Mansur estão juntos há cinco anos e se conheceram na academia.

Amar é ter individualidade e saber compartilhar

A advogada garante que o interessante na construção de um relacionamento está justamente na soma — ou seja, ninguém é metade de ninguém, as pessoas são parceiras, agregam.

Ninguém deve ser instrumento pra satisfação de outra pessoa. A gente tem que viver pra se satisfazer. E existe muita satisfação na doação pro outro, no convívio, na parceriaPrioli

"Você é uma pessoa, a outra pessoa é outra pessoa. E vocês podem ter planos que se complementam ou não, que caminham no mesmo sentido ou não, e eles podem caminhar no mesmo sentido num determinado momento e isso pode mudar. Isso é ter maturidade nas relações. Para construir uma relação saudável o importante é você respeitar a individualidade do outro. Os dois se engajam naquele compromisso, qualquer que seja o compromisso."

E isso não significa que exista um padrão de relacionamento. É aquilo que funciona em conjunto. 

"O que a gente não pode é eu estar vivendo um relacionamento monogâmico e meu parceiro está vivendo um relacionamento aberto sem eu saber. Isso não é legal. Ter essa lealdade e honestidade de declarar suas intenções e construir algo que seja partilhado", finaliza.

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