Gabriel García Márquez tem obra esmiuçada em livro de história oral

SYLVIA COLOMBO
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BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - Há tantos livros sobre Gabriel García Márquez que é inevitável que algumas anedotas sobre ele se repitam, e mesmo frases atribuídas a ele que, a essa altura, já não se pode saber se são reais. Uma coisa que é comum à maioria dessas obras sobre o prêmio Nobel colombiano, porém, não difere -são quase todas escritas por amigos ou admiradores. Com "Solidão e Companhia", da escritora colombiana Silvana Paternostro, ocorre algo distinto. A autora é alguém de quem Gabo guardava muito rancor. Paternostro, nascida em Barranquilla, na costa colombiana, mas criada nos Estados Unidos, havia frequentado uma oficina para jornalistas dada por Gabo em Cartagena. Havia, na época, regras para esses encontros. Era possível relatar a experiência, mas não era permitido entrevistar o autor. Quem assistiu a essa oficina conta que Gabo logo demonstrou apreço por Paternostro, mas depois disse ter odiado as duas crônicas sobre ele que ela publicou posteriormente, nos Estados Unidos. Uma delas, "Três Dias Com Gabo", publicada na Paris Review, o desagradou especialmente porque ela o retratava como um "avô" e sinalizava não estar de acordo com suas ideias políticas. Só isso já chamaria naturalmente a atenção para "Solidão e Companhia". A obra é um trabalho de história oral e polifônica exaustivo. Paternostro escutou amigos, desafetos, familiares, editores, gente que o conheceu na infância, em Paris, no México, na Itália, na Colômbia, e cada um joga uma luz sobre determinados aspectos. O resultado não é um uníssono de elogios, como costuma ocorrer em biografias ou ensaios póstumos, mas sim um retrato cheio de contrastes e até algumas contradições sobre algumas passagens de sua vida e do ambiente em que foram produzidas suas obras. O livro abre, justamente, com as lembranças de Aracataca, cidade do interior da região caribenha da Colômbia em que Gabo nasceu e foi criado. Ela inspiraria, mais tarde, a sua famosa Macondo, de "Cem Anos de Solidão". Os relatos de quem conviveu com ele naquela época parecem confirmar o que ele sempre disse, que todas as coisas realmente importantes de sua vida haviam ocorrido ali, até os seus oito anos de idade. Estão aí detalhes de sua relação afetiva com o avô, com quem vivia grudado, e da sabedoria prática de sua avó --claramente plasmados no romance nas figuras de Aureliano Buendía e de Úrsula Iguarán. É curioso como Paternostro conta que, quando vivia no México e estava obcecado em escrever essa obra, Gabo não o fez sozinho, como algumas biografias fazem crer. O escritor consultava vários amigos, parentes, para lembrar de hábitos de sua terra e até a cor dos vestidos das tias que frequentavam sua casa e foram transferidas literariamente à sua obra. Também distribuía rascunhos e ligava a qualquer hora do dia ou da noite para ler um trecho sobre o qual estava em dúvida para alguma amiga. Vemos um Gabo determinado desde cedo em ser escritor, mas muitas vezes inseguro, sem trabalho e que chegou a passar fome na Europa. Mas que não parece ter desperdiçado nada do que viu e ouviu, transformando quase tudo em literatura. São interessantes, também, os relatos de sua passagem por Bogotá, interrompida pela explosão do Bogotazo --um atentado que matou um popular líder político e desatou um período conhecido como La Violencia que, entre outras coisas, incendiou a pensão em que Gabo vivia. O Bogotazo seria determinante para que ele se posicionasse ideologicamente à esquerda e para que fosse um defensor de um acordo de paz em seu conturbado país. A autora perdeu, porém, a oportunidade de realizar uma edição mais refinada dos depoimentos, e poder assim escrever algo como as obras polifônicas da bielorrussa Svetlana Aleksiévitch. Muitas vezes, o texto parece ser apenas uma lista de declarações. Para o leitor brasileiro, muitos dos nomes que aparecem dando depoimentos serão desconhecidos. Vale consultar, ao final do volume, a lista das vozes mais importantes, para saber avaliar o testemunho de cada um. * SOLIDÃO E COMPANHIA Quando: Nas livrarias a partir do dia 27/3 Preço: R$ 57,90 (284 págs.) Autor: Silvana Paternostro Editora Crítica Tradução: Carla Fortino Avaliação: Muito bom