Fotocópias eróticas de Hudinilson Jr. voltam para a Pinacoteca 40 anos depois

CLARA BALBI

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A exposição sobre Hudinilson Jr. que a Pina Estação abre agora é, de certa forma, o fechamento de um ciclo.

Nos anos 1970 e 1980, o artista -pioneiro do xerox no país e integrante do coletivo de arte urbana 3Nós3- era um dos mais entusiasmados com uma copiadora instalada no antigo teatro de arena do museu, na praça da Luz.

Também era "o que mais escandalizava", conta Fábio Magalhães, diretor do local na época. Ele subia na máquina, "ficava peladão", lembra.

As experiências com a copiadora incluíram ainda ministrar oficinas de xerografia, único emprego de carteira assinada do artista, segundo sua galerista, Jaqueline Martins.

E culminaram em alguns de seus trabalhos mais conhecidos, papéis em que registra o contato de seu corpo nu -pêlos, pênis, dorso- com o vidro da máquina.

Agora, 40 anos depois, muitas das obras realizadas na época retornam à Pinacoteca, parte de uma doação ao museu realizada pela família do artista em conjunto com a galeria Jaqueline Martins.

Fruto de um esforço de catalogação do espólio de Hudinilson que atravessou os seis anos e meio desde a sua morte, em 2013, elas se somam às módicas três xerox do artista já na coleção da Pinacoteca.

"Só agora começamos a fazer nossa lição de casa", diz Ana Maria Maia, à frente da exposição, contando que, dos 95 itens doados, dois terços poderão ser vistos agora.

O projeto da instalação que abre a mostra é um deles. Nela, dois manequins femininos são posicionados cada um na extremidade de um tablado circular. Câmeras de segurança apontam para os corpos -que, no entanto, evitam a lente, virando seus rostos. Uma imagem de distanciamento que se repete num outdoor da mesma série instalado no estacionamento do museu.

É uma escolha inusitada. Primeiro, porque são raras as vezes que as mulheres têm vez na obra de Hudinilson, lotada de falos e peitorais musculosos -embora, lembra Maia, mesmo aqui a relação entre as figuras seja homossexual.

Além disso, elas ignorarem a câmera é um dado curioso na trajetória do artista, tão obcecado pela própria figura que, em diversas obras, se compara ao Narciso da mitologia grega, apaixonado por seu reflexo na água.

Da instalação, a mostra se divide em três corredores. Num deles, é analisada a relação do artista com a cidade, na qual ele interviu ativamente ao lado dos colegas do 3Nós3, Mário Ramiro e Rafael França, nos últimos anos da ditadura. Estão ali, por exemplo, estênceis como o famoso "Ahh! Beije-me!" e correspondências de arte postal.

Um conjunto de colagens também pode ser visto por ali. Misturando fotografias publicitárias recortadas de jornais e revistas e reproduções de estátuas e colunas greco-romanas, com o passar dos anos elas ficam cada vez mais abarrotadas, sem um espaço em branco sequer.

Do lado oposto da sala, estão penduradas as xeroxes que viraram sinônimo de Hudinilson. Algumas delas, da série "Detalhe do Detalhe" ampliam reproduções anteriores de seu corpo até chegarem a formas abstratas, livres.

Para Ana Maria Maia, essa é uma estratégia que se repete na trajetória do artista. Afinal, os tópicos que povoam seus trabalhos, como a homossexualidade e o erotismo, ainda hoje são tabus --não é à toa que a classificação indicativa da mostra é de 14 anos. "Ele sempre encontra uma maneira de falar das coisas no limite. E joga com isso: chama quem o observa para bem perto. Até que a pessoa percebe [do que se trata] e sai correndo", diz a curadora.

Foi o que aconteceu com o outdoor "Zona de Tensão", encomendado pelo Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, o MAC-USP, em 1983.

A reprodução da glande do pênis do Hudinilson não foi decifrada até que a obra gigantesca, de dez metros de comprimento, tivesse começado a ser montada. Quando a diretoria do museu enfim reconheceu a genitália, Hudinilson simplesmente pôs uma tarja vermelha no centro da imagem -e passou a grafitar por aí a frase "pinto não pode".

Por fim, no corredor central da mostra, ficam alguns dos trabalhos mais íntimos de Hudinilson.

Num deles, um registro da performance "Pugnar Radical", de 1984, o paulistano se submete a um ritual masoquista em pleno palco do Centro Cultural São Paulo, o CCSP. Na sequência de fotografias, a atriz Cláudia Alencar retira um a um os pêlos do peito do artista -a cena ficou impressa na memória de sua amiga e também artista Ester Grinspum como uma das mais radicais que já testemunhou.

Ali perto, em "(Des)construir Narciso", Hudinilson usa o raio-X de um fêmur fraturado para registrar uma agressão homofóbica que sofreu numa parada LGBT no centro de São Paulo

São trabalhos que, na opinião da curadora Ana Maria Maia, refletem um vigor extremo. Mas também traduzem uma certa solidão -que, segundo alguns dos que conviveram com o artista, foi constante em sua trajetória, em especial nos últimos anos de vida.

O próprio Hudinilson discute o assunto num texto em que revê seus cadernos de referência, reproduzido no catálogo da mostra. "Sobre a fixação dos corpos: é óbvia/lógica; os cadernos são meus diários e, "faz parte", não são só rostos bonitinhos e sim tudo, principalmente tudo, já que não encontro alguém, o eterno conflito de todo ser humano (homens e mulheres), é a maneira que encontro de extravasar/exorcizar tal ansiedade", escreve.

Além disso, apesar de muito ativo na cena artística -vide sua ligação com instituições como o MAC-USP, o CCSP e a Pinacoteca-, ele foi em grande parte ignorado pelo mercado nacional até a sua morte. Mesmo hoje, é menos valorizado aqui do que lá fora, afirma Jaqueline Martins.

"Ele contrariava a vida burguesa", diz Fábio Magalhães. "Ainda há muito o que refletir sobre a obra dele."

A Pinacoteca não será a única a ter essa oportunidade. Martins afirma que ela e os pais de Hudinilson, Maria Aparecida e Hudinilson Urbano, começam agora a organizar mais doações de obras do artista para o Reina Sofía, em Madri.

Já no ano que vem, um livro deve reunir alguns dos roteiros de performances descobertos entre os cerca de 2.000 trabalhos e documentos, além de cerca de 200 cadernos e agendas que lotavam o apartamento em que o artista viveu, na Bela Vista. "É um patrimônio", diz a galerista.