Fora do escritório, você está bem? Piora da saúde mental já deixa sequelas

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Casos de ansiedade no Brasil estão altos (Foto: Getty Images)
Casos de ansiedade no Brasil estão altos (Foto: Getty Images)

Se a discussão sobre saúde mental já vinha ganhando espaço nos últimos anos, com a chegada da pandemia, a preocupação de profissionais de saúde se tornou ainda maior.

“No Brasil, antes da pandemia as taxas de pessoas com transtornos mentais já eram elevadas (entre as mais altas do mundo), e é possível que os estressores decorrentes da pandemia (medo, ansiedade, tristeza, luto, perda de renda, isolamento) agravem ainda mais este cenário no futuro, o que pode esbarrar na limitação da capacidade de atendimento do sistema de saúde”, diz o psicólogo Felipe Ornell, um dos autores de um estudo que mostra como vivemos pandemia paralela, relacionada com a saúde mental, publicado no periódico científico "The Lancet".

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Mais casos, menos atendimentos

A equipe do Cpad (Centro de Pesquisa em Álcool e Drogas) do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, da qual Ornell faz parte, investigou o impacto da pandemia no acesso aos serviços de saúde mental no país. Para a análise, foi usada a média de atendimentos ambulatoriais e hospitalares registrados no SUS de 2016 a 2020, com a expectativa prevista caso não a pandemia não tivesse acontecido.

Os resultados apontam uma redução de 28% nas consultas ambulatoriais e de 33% nas hospitalizações psiquiátricas. No total, a equipe estima que 600 mil atendimentos podem não ter sido realizados.

Nas últimas décadas, aponta Ornell, o Brasil tem apresentado evoluções significativas em termos de ampliação e qualificação dos serviços de saúde mental. “A prova disso é que o número mensal de atendimentos nos CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) vinha aumentado ao longo dos últimos cinco anos prévios a pandemia.”

“Entretanto, a partir do momento em que as medidas de isolamento social se mostram necessárias, há uma redução drástica. Isso pode ter afetado o acesso de pessoas que já estavam em tratamento (e que deixaram de ir aos serviços por medo de se contaminarem ou pela limitação dos atendimentos pelos serviços enquanto se adequavam para reorganizar os fluxos).”

A disponibilidade de serviços também é desigual entre as regiões, aponta Ornell. Em municípios pequenos e regiões mais remotas é comum que a rede de saúde mental seja frágil ou inexistente. “Isso pode afetar o acesso de pessoas mais vulneráveis, que são justamente as mais afetadas pela pandemia. No Amazonas, por exemplo, há 34 CAPS. Já na Paraíba, há 127, sendo que ambos têm população semelhante.”

Para o pesquisador, é necessário considerar que a rede de atenção voltada à saúde mental precisa incluir serviços ambulatoriais e hospitalares e historicamente há uma demanda reprimida que pode ser aumentada diante de todos os estressores da pandemia e da necessidade não atendida – o que pode levar à sobrecarga do sistema de saúde mental no futuro.

Em outras partes mundo, de acordo com o novo Atlas de Saúde Mental da OMS (Organização Mundial da Saúde), a situação parece ser semelhante. Em 2020 só 51% das 194 nações membros da organização disseram ter criado uma política ou plano de saúde mental alinhado aos instrumentos internacionais e regionais de direitos humanos.

Embora a meta da OMS seja de 80%, apenas 52% desses países atingiram o objetivo de lançar programas de promoção e prevenção de saúde mental.

O único feito alcançado em 2020 pelos países, mostra o documento, foi a redução da taxa de suicídio em 10%.

Ansiedade, nossa parceira de home office

Um quadro comum em relação à saúde mental durante a pandemia foi o aparecimento de sinais de ansiedade. As mudanças foram bruscas para todos – alguns se viram montando um escritório improvisado em casa, outros tiveram que se expor no trabalho e muitos ficaram sem renda.

“O quadro é caracterizado pelo ‘medo do medo’”, diz Danielle Admoni, psiquiatra da UNIFESP (Escola Paulista de Medicina). “É o receio de adoecer, de não saber o que vai acontecer amanhã... Além disso, ainda houve a necessidade do isolamento e muitas pessoas tiveram perdas econômicas, ficando desempregadas de uma hora para outra.”

A ansiedade passa de ser uma espécie de nervosismo pontual quando é acompanhada de sintomas mais intensos e persistentes. “Os pacientes podem apresentar falta de ar, tremor, sudorese, parestesia (sensação de dormência) e palpitação”, explica a médica.

Outro sinal de alerta é quando o sentimento passa a trazer algum prejuízo significativo na vida da pessoa, ou seja, isso começa a impactar, por exemplo, nos estudos, no trabalho ou na vida social.

Para Luanda, ansiedade se transformou em crises intensas

A jornalista Luanda Vieira fala sobre sua ansiedade (Foto: reprodução/instagram@luandavieira)
A jornalista Luanda Vieira fala sobre sua ansiedade (Foto: reprodução/instagram@luandavieira)

Para a jornalista e influenciadora Luanda Vieira, a ansiedade é uma companheira desde que ela tinha pouca idade, mas a identificação dos sintomas só veio no começo de 2021, com sessões de terapia.

“Além de muito inquieta e com um sentimento de angústia constante, eu sempre trabalhei muito. Eu não me permitia parar, nem descansar, e isso foi me adoecendo. Percebi que estava prestes a ter um colapso quando eu comecei a passar mal quando eu recebia qualquer coisa sobre o trabalho. Um dia antes de eu ter a primeira crise, eu pedi uma folga por que sentia que não chegaria ao fim daquela semana”, relata.

Sem o ritual de sair do escritório físico e voltar para o descanso de casa, Luanda viu os limites do trabalho se confundirem com as horas de casa, acumulando cada vez mais tarefas. O trabalho que amava passou a ser um gatilho, e no mesmo dia que pediu uma folga, teve uma crise de ansiedade.

“Eu tive a sensação de que meu corpo desligava e voltava. Percebi que isso já tinha acontecido comigo outras vezes. Contei à minha psicóloga e ela me indicou um psiquiatra”, diz Luanda.

Segundo ela, o medo causado pela pandemia também piorou os sintomas. “Como pessoa ansiosa, para mim é muito difícil viver no presente, e o futuro se tornou incerto demais”, conta.

Hoje, com acompanhamento médico e com uma saúde mental muito melhor, Luanda já identificou atividades que a ajudam. “Criei o projeto #XôAnsiedade no Instagram para incentivar as pessoas a praticarem exercício, porque sei o quão bem faz. Também passei a me alimentar melhor e a olhar mais para mim, preenchendo meu tempo livre não com mais trabalho, mas com coisas que são prazerosas para mim, como cozinhar.”

Terapias à distância, popularizadas com a pandemia, são o futuro?

Assim como foi para Luanda, mecanismos de atendimento remoto foram uma possibilidade para manutenção dos atendimentos durante o período de isolamento.

Mas, de acordo com o psicólogo Felipe Ornell, é importante destacar que há casos que não é possível esse tipo de recurso, como em casos de risco ou tentativa de suicídio, quadros psicóticos (ver ou ouvir coisas que os outros não veem ou ouvem e agitação psicomotora), síndrome de abstinência de drogas (como o álcool), depressão refratária (resistente).

“Ainda, é necessário considerar que populações mais vulneráveis podem ter dificuldade de acessar dispositivos (não ter um local apropriado para fazer os atendimentos de forma sigilosa) ou não ter condições físicas ou cognitivas para usar esses métodos”, indica.

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