A fome e a vontade comer

Fernando Rocha
Beautiful Woman
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Sou mineiro de Belo Horizonte desde que nasci mas não gosto de ficar espalhando isso pra todo mundo porque as pessoas podem achar que estou contando vantagem! Então eu só falo dessa minha qualidade pra quem me pergunta. Minas é uma terra fértil em frases e argumentos e um dos meus prediletos eu ouço desde pequeno quando passava férias em Martinho Campos, uma cidadezinha do interior: "a cruz que se carrega é mais leve do que a cruz que se arrasta". Tive que virar gente grande pra entender a seriedade no semblante de quem escuta essa frase pela primeira vez. Ela precisa de alguns segundos de digestão. Por isso o interlocutor sempre a repete com ainda mais peso na voz , mais gravidade e concordância: "a cruz que que se carrega é mais leve do que a cruz que se arrasta".

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É fácil entender o que o ditado popular significa: "meu camarada, não reclame tanto. Segure sua cruz e siga adiante. Cada um tem a sua. Não a arraste que o peso aumenta". Explicações à parte, mineiro carrega com ele uma contradição de alma, mineiro “é um falante que ama o silêncio”. Essa constatação é de um dos melhores mineiros de todos os tempos, o escritor Otto Lara Resende.

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No fogo morno dessa contradição, existe uma frase que durante quase meio século eu considerei perfeita para explicar tudo que fosse uma combinação perfeita. Por coincidência ela esta relacionada com comida mas no dia a dia pode ser usada em qualquer situação: juntar a fome com a vontade de comer é unir o útil ao agradável.

Mas juntar a fome com a vontade de comer do ponto de vista biológico são atitudes quase tão diferentes quanto dormir e acordar. A fome faz parte do nosso metabolismo. O organismo precisa de alimento. O cérebro emite sinais. O corpo não existiria se não fossem dados os comandos vitais de fome e sede. É assim desde os tempos primitivos na caverna. Nossa vida de hoje tem muito dos tempos de lá.

E a vontade de comer? Ela pode se confundir com a fome mas vontade comer ultrapassa a fome. Vai além da saciedade. Vai além da obediência dos comandos vitais de sobrevivência. Vontade de comer pode ser carência, pode ser angústia, ansiedade, algum distúrbio emocional. Muitas vezes a comida se transforma em moeda de troca de afeto:

-Não vai comer mais? Não acredito! Eu fiz com tanto carinho!

E ai a gente acaba comendo. Mesmo tendo certeza absoluta que aquilo não era fome. E você? Tem mais fome ou mais vontade de comer?