Flip traz Annie Ernaux e tem Maria Firmina dos Reis como 1ª homenageada negra

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A Festa Literária Internacional de Paraty vai homenagear uma escritora negra pela primeira vez em uma história de 20 edições, na figura da pioneira escritora maranhense Maria Firmina dos Reis.

É o que anunciaram os curadores da festa deste ano, Fernanda Bastos, Milena Britto e Pedro Meira Monteiro, ao lado do diretor artístico da Flip, Mauro Munhoz, na manhã desta terça-feira (13).

"Foi uma autora esquecida no cânone que hoje é pesquisada principalmente por mulheres", diz Bastos, apontando que o gancho da edição deste ano é "ver o invisível". "A Flip ainda é uma estância de consagração, por isso queremos sugerir um outro século 19, uma outra independência", diz Meira Monteiro.

Com seu romance "Úrsula", de 1859, Reis derrubou barreiras na literatura feminina e abolicionista brasileira —as marcas que ela deixou na cultura serão esquadrinhadas pela crítica literária Fernanda Miranda e pela historiadora Ana Flávia Magalhães Pinto na mesa que abre a Flip na quarta-feira, 23 de novembro.

A curadoria do mais prestigioso festival literário do país também aproveitou para detalhar os convidados que vão compor a programação deste ano —incluindo o maior nome divulgado até agora, o da francesa Annie Ernaux, uma das principais referências da literatura contemporânea mundial.

Resgatada e popularizada por três livros que a editora Fósforo lançou desde que abriu as portas —"O Lugar", "Os Anos" e "O Acontecimento"—, a escritora de 82 anos participará de uma mesa no sábado ao lado da brasileira Veronica Stigger. Mais dois títulos da autora, aliás, sairão pela casa até o final do ano.

Outras presenças internacionais de destaque que ainda não haviam sido anunciadas incluem a antropóloga francesa Nastassja Martin, autora do cultuado "Escute as Feras", da editora 34; o chileno Benjamín Labatut, do inclassificável "Quando Deixamos de Entender o Mundo", da Todavia; e a cubana Teresa Cárdenas, voz central da literatura negra latino-americana, que publica pelas independentes Pallas e Figura de Linguagem.

A festa deste ano também terá um olho vivo para as artes plásticas, com uma celebração da carreira da fotógrafa Claudia Andujar, cujo trabalho junto aos yanomamis marcou história no país, no horário nobre da sexta à noite. "É uma das inovações deste ano homenagear um artista vivo", diz Munhoz, diretor da Flip, que ainda não confirma a presença da própria artista no evento.

Outros artistas visuais se espalham pela programação, como a transgressiva Lenora de Barros, a quadrinista Fabiane Langona, que publica tiras neste jornal, e o poeta Ricardo Aleixo, que mistura arte multimídia a sua literatura.

O mineiro puxa uma programação forte de escritores brasileiros de projeção ascendente, numa lista que inclui ainda Carol Bensimon, Cidinha da Silva, Geovani Martins e Amara Moira.

Moira se junta à já anunciada Camila Sosa Villada, de "O Parque das Irmãs Magníficas", numa seleção atenta à grande literatura produzida por pessoas trans. Também já haviam sido divulgados os nomes da americana Saidiya Hartman, de "Perder a Mãe", que divide mesa com a também antropóloga Rita Segato, argentina radicada no Brasil; e da brasileira Cida Pedrosa, vencedora do Jabuti por "Solo para Vialejo".

A escritora pernambucana exemplifica como a programação deste ano busca escapar à fadiga do eixo literário do Sudeste —algo que se materializa também na presença da baiana Luciany Aparecida, do paraibano Christiano Aguiar, da paraense Nay Jinknss e dos gaúchos Eduardo Sterzi e Luiz Maurício Azevedo.

O foco na diversidade geográfica, somado às dificuldades consideráveis de captação de recursos pelo estrangulamento da Lei Rouanet, também revela uma edição com menor presença internacional. Até agora são dez autores estrangeiros confirmados, contra 13 das duas edições presenciais anteriores, em 2018 e 2019.

Também é uma edição mais enxuta como um todo, com apenas 17 mesas confirmadas, ante uma regra geral de cerca de 20 encontros costumeiros na programação principal —vale manter em mente que mais mesas ainda podem ser divulgadas nos próximos meses.

Outra tendência recente mantida na Flip é a de dissolver a programação em nomes publicados por casas menores e abrir espaço não só à diversidade racial e de gênero, mas também à editorial.

Dos nomes internacionais divulgados, nenhum está no prelo das gigantes Companhia das Letras e Record e apenas um está na Todavia, outra que costumava dominar mais as importações do festival.

A prevalência dessas casas aumenta na seleção de autores brasileiros, mas se mistura à boa presença de editoras que fazem um trabalho com requinte artesanal, como a Relicário, a Malê, a Macondo, a Cepe e a Paralelo13s, entre diversas outras, numa lógica que também quer fugir ao eixo Rio-São Paulo. Editoras de porte médio como Intrínseca, HarperCollins e Rocco não estão representadas.

A Flip encara o desafio de voltar a ter uma edição presencial de peso após dois anos de festas virtuais, tendo abandonado pela primeira vez a tradicional figura do curador e do homenageado em 2020 e, no ano seguinte, elegendo uma curadoria coletiva que decidiu fazer uma festa temática sobre plantas e florestas.

Agora que a festa volta a aproximar leitores e autores em Paraty, enfrenta outros tipos de contratempos, como a extemporânea Copa do Mundo de futebol, que acontece em paralelo à programação da festa, e o fervor político nacional, que dificilmente arrefecerá entre as eleições e a posse presidencial em janeiro.

VEJA A SEGUIR TODA A PROGRAMAÇÃO DIVULGADA ATÉ AGORA.

QUARTA, 23.NOV

19h

Mesa 1: Pátrios lares

Homenagem: Maria Firmina dos Reis

Fernanda Miranda

Ana Flávia Magalhães Pinto

QUINTA, 24.NOV

10h30

Mesa 2: Minha liberdade

Homenagem + Independência (Maria Firmina dos Reis)

Lilia Schwarcz

Eduardo de Assis Duarte

12h

Mesa 3: O brando leque do gentil palmar

Teresa Cárdenas

Cida Pedrosa

19h

Mesa 4: O corpo de imagens

Lenora de Barros

Ricardo Aleixo

Patricia Lino

20h30

Mesa 5: A festa das irmãs perigosas

Camila Sosa Villada

Luciany Aparecida

SEXTA-FEIRA, 25.NOV

10h30

Mesa 6: Ainda longos combates

Allan da Rosa

Eduardo Sterzi

12h

Mesa 7: Risco e transformação

Cecilia Pavón

Fabiane Langona

15h30

Mesa 8: O que deixaram para adiante

Ladee Hubbard

Geovani Martins

17h

Mesa 9: E se eu fosse

Amara Moira

Ricardo Lísias

19h

Mesa 10: Do mal que tu me deste...

Benjamín Labatut

Luiz Mauricio Azevedo

20h30

Mesa 11: Livre e infinito

Mesa com Artista em Destaque: Claudia Andujar

Nay Jinknss

SÁBADO, 26.NOV

10h30

Mesa 12: Mesa Zé Kleber

12h

Mesa 13: A literatura em que habito

Bessora

Carol Bensimon

Prisca Agustoni

15h30

Mesa 14: Diamante Rubro

Annie Ernaux

Veronica Stigger

17h

Mesa 15: Desterrando o susto

Nastassja Martin

Tamara Klink

19h

Mesa 16: Entrar no bosque de luz

Saidiya Hartman

Rita Segato

DOMINGO, 27.NOV

10h30

Mesa 17: Encruzilhadas do Brasil

Cidinha da Silva

Cristhiano Aguiar