Flexibilização no isolamento social preocupa infectologistas

(Fabio Vieira/FotoRua/NurPhoto via Getty Images)

Por Melissa Santos 

Mesmo frente a um cenário que assusta devido à pandemia do novo coronavírus, alguns Estados, como Santa Catarina e Goiás, começaram a flexibilizar as regras de isolamento social, permitindo a abertura de shoppings e comércios para que as pessoas, aos poucos, retomem suas atividades. No entanto, a medida é vista como preocupante pelos médicos. 

"Após a flexibilização de Santa Catarina, o número de casos já dobrou! Estamos vivendo um momento em que a curva de casos está ascendente. Os novos diagnósticos e o número de mortes têm aumentado. É um risco muito grande pensar em flexibilizar qualquer coisa nesse momento", avalia o infectologista e consultor da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia), Leonardo Weissmann. 

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São Paulo, um dos Estados com mais casos de diagnósticos e mortes, estava ensaiando uma abertura para a segunda de maio. Mas a decisão provavelmente será recuada pelo governador João Doria, já que os índices de isolamento estão abaixo de 50%. “Se querem sair do isolamento, colaborem para isso”, afirmou Doria. 

Segundo Weissmann, quanto mais tempo as pessoas desrespeitarem o isolamento e saírem de suas casas, mais demoraremos para retomar a “vida normal”. “Como as pessoas não estão seguindo o distanciamento social, a curva de contágio continua aumentando. Os mais prejudicados são os que estão em casa cumprindo corretamente, pois por conta dos demais, precisarão permanecer isolados por mais tempo”, afirma. 

Desafios da flexibilização

Os defensores de afrouxar as regras do isolamento social argumentam que o Brasil, por ser um país muito extenso, tem diferentes realidades em cada cidade e Estado. Os infectologistas entrevistados pelo Yahoo concordam, no entanto, ainda assim há desafios para aplicar a flexibilização neste momento. 

"Há uma pressão econômica e política muito forte para afrouxar o isolamento e, um dia, precisaremos fazer mesmo. Mas não dá para liberar tudo de uma vez. Essa transição tem que ser feita de forma lenta e progressiva", defende Wladimir Queiroz, infectologista do Instituto de Infectologia Emilio Ribas e consultor da SBI.

Rosana Richtmann, infectologista do Hospital Emílio Ribas e consultora da SBI, explica que é prudente adotar algumas regras para que a flexibilização aconteça. Uma delas é que as curvas de novos casos, hospitalização e mortes precisam estar decrescentes. “Além disso, também é necessário ter testes disponíveis para a população, só assim temos noção se o vírus está circulando, bem como disponibilidade suficiente de leitos hospitalares e de terapia intensiva”, diz. 

Rosana, que tem atendido pacientes com COVID-19, faz a conta: quando o paciente apresenta a forma grave da doença e precisa ser internado na UTI, ele fica, em média, duas semanas intubado e com ventilação mecânica. “Por isso, um respirador só vai atender dois pacientes por mês. É preciso fazer essa conta antes de planejar uma reabertura escalonada e racionalizado do comércio”, afirma.

Portanto, um dos grandes desafios é conseguir ter recursos para manter uma vigilância capaz de detectar se há aumento no número de casos ou não. “No momento que você flexibiliza, não pode descuidar e precisa observar a evolução. Afinal, se a situação sair do controle talvez seja preciso recuar e voltar com as regras anteriores”, fala Queiroz. 

Independente das diferentes medidas de isolamento em cada cidade/Estado, Rosana reforça que as regras básicas, como distanciamento social de 1,m a 1,5 m e higienização das mãos, devem ser mantidas em todo Brasil. “É preciso garantir o uso de máscaras para todos que vão sair de casa, tentar manter os ambientes bem ventilados e limpos, bem como a higiene das mãos. Essas medidas não podem ser flexibilizadas de forma alguma”, diz.